A era vitoriana — o período que se estende do início do reinado da Rainha Vitória, em 1837, até a sua morte em 1901 — é um dos cenários mais explorados pelo cinema e pela televisão, e com razão: é um período de contradições extraordinariamente cinematográficas, em que o progresso industrial e o imperialismo coexistiam com uma pobreza extrema, em que a moralidade pública mais rígida da história britânica convivia com uma vida privada que ela tornava inevitavelmente dupla, em que a ciência expandia os seus limites enquanto o sobrenatural ainda habitava o imaginário coletivo com uma seriedade que o século seguinte perderia.

É terreno fértil para dramas de época, thrillers góticos, histórias de crime, ficções científicas e retratos políticos — e a lista que se segue cobre boa parte desse espectro, de produções da BBC dos anos 2010 a épicos hollywoodianos dos anos 1990, passando por séries de streaming recentes e alguns clássicos que definiram o gênero.
A Jovem Rainha Vitória (2009)
Jean-Marc Vallée dirigiu este retrato dos primeiros anos de Vitória — da adolescência sufocante sob a tutela da mãe e do seu conselheiro John Conroy, passando pela coroação aos dezoito anos, até ao casamento com o Príncipe Albert — com uma delicadeza e uma atenção ao detalhe psicológico que distinguem o filme das produções biográficas mais convencionais do gênero. Emily Blunt é Vitória com uma contenção que vai dando lugar gradualmente a uma presença mais firme à medida que a rainha aprende a ocupar o espaço que o trono lhe dá, e Rupert Friend é um Albert que funciona como contraponto inteligente e afetivo — alguém que a ama genuinamente e que, ao contrário do que os homens ao redor da rainha parecem capazes de fazer, a trata como igual. O filme tem a sabedoria de não tentar abarcar um reinado inteiro, concentrando-se num período específico e saindo melhor por isso.
Vitória e Albert (2001)
Minissérie britânica em dois episódios que cobre um território mais amplo do que A Jovem Rainha Vitória — do início do reinado à morte de Albert em 1861 —, com Victoria Hamilton e Jonathan Firth nos papéis principais. Tem menos brilho cinematográfico do que o filme de Vallée e uma qualidade de produção mais modesta, como é habitual em minisséries da televisão britânica do início dos anos 2000, mas compensa com uma profundidade de desenvolvimento dos personagens que o formato de filme raramente permite: a relação entre Vitória e Albert, com todos os seus conflitos de poder e de identidade, tem espaço para se desenvolver ao longo de décadas em vez de se condensar numa única arco narrativo. Para quem ficou com vontade de saber o que aconteceu depois do final feliz de A Jovem Rainha Vitória, esta é a continuação natural.
Vitória — PBS (2016–2019)
Série de três temporadas criada por Daisy Goodwin e estrelada por Jenna Coleman como a rainha e Tom Hughes como Albert, Vitória é o mais ambicioso dos retratos televisivos do reinado — cobre desde a coroação em 1837 até meados do século, com uma atenção simultânea à vida privada da família real e às crises políticas que moldaram o período, da Fome Irlandesa ao Movimento Cartista. Coleman tem uma energia e uma presença física que servem bem a uma Vitória que é simultaneamente imponente e humana, Hughes é provavelmente o melhor Príncipe Albert já visto numa tela, e a série tem o mérito de não romantizar o reinado nem reduzir os seus conflitos a drama de câmara. Embora a terceira temporada da série tenha sido largamente ficcionalizada – um contraste gritante com a acurácia histórica das duas primeiras, – o cancelamento prematuro em função da pandemia segue uma das perdas mais frustrantes da televisão de época da última década.
O Homem que Inventou o Natal (2017)
Bharat Nalluri dirigiu esta ficção sobre os meses de 1843 em que Charles Dickens, com as finanças em colapso e a carreira em crise, escreveu Um Cântico de Natal em seis semanas — e transformou para sempre a forma como o mundo anglófono celebra o Natal. Dan Stevens é Dickens com uma energia que oscila entre o gênio e o pânico, e o maravilhoso Christopher Plummer, num dos seus últimos papéis, é Ebenezer Scrooge tal como Dickens o imagina ganhando vida aos poucos no processo criativo. O filme é uma meditação sobre como as histórias são criadas, de onde vêm os personagens, e o quanto a ficção é inseparável das ansiedades e das memórias do seu autor — embrulhada numa comédia vitoriana com um ritmo suficientemente ágil para que as questões mais sérias por baixo não pesem demais.
Jane Eyre (2011)
Das inúmeras adaptações do romance de Charlotte Brontë — há versões para cinema e televisão desde os anos 1930 —, a de Cary Joji Fukunaga com Mia Wasikowska e Michael Fassbender é a que mais consegue capturar o que torna o livro extraordinário: a voz de Jane, a sua recusa em ser menor do que é, a tensão entre a sua contenção exterior e a intensidade interior. Fukunaga filma Yorkshire com uma escuridão atmosférica que serve bem ao material, e Fassbender é um Rochester que tem o charme e a brutalidade que o papel precisa sem cair no melodrama que versões anteriores frequentemente não conseguiram evitar. Não é uma adaptação literal — comprime e reordena, como todas as adaptações precisam fazer —, mas é a que mais justifica a existência do livro para quem nunca o leu, e a que melhor convence quem o conhece.
Minha Prima Raquel (2017)
Adaptação do romance de Daphne du Maurier dirigida por Roger Michell com Rachel Weisz e Sam Claflin, ambientada na Cornwall vitoriana dos anos 1830. Philip Ashley, jovem inglês que cresceu sob a tutela de um primo mais velho, viaja à Itália ao encontrá-lo doente e chega tarde — o primo morreu, e a sua viúva italiana, Raquel, é suspeita de envenenamento. Quando Raquel chega à Cornwall, Philip vai progressivamente cedendo à sua atração por ela, e a questão central do romance — Raquel é culpada ou inocente? — nunca é respondida de maneira satisfatória, o que é precisamente o ponto. Du Maurier escreveu o livro como meditação sobre a projeção masculina e o quanto os homens inventam as mulheres que amam em vez de as ver; Michell, Weisz e Claflin honram essa ambiguidade com uma fidelidade que as produções mais antigas do mesmo material raramente tiveram coragem de manter.
Drácula de Bram Stoker (1992)
Francis Ford Coppola dirigiu uma adaptação completamente alterada e entretanto ainda muito boa como filme próprio do romance de Stoker — fiel na estrutura epistolar, em algumas cenas, e em quase nada mais, com uma estética gótica que mistura o expressionismo alemão com a sensualidade da era vitoriana e um elenco que vai do sublime ao involuntariamente cômico. Gary Oldman como o conde é uma criação visual e performática extraordinária, Anthony Hopkins como Van Helsing está claramente a divertir-se mais do que qualquer professor universitário real, e Winona Ryder como Mina Murray carrega o peso emocional do filme com uma seriedade que contrasta produtivamente com o exagero do resto. O Drácula de Coppola é, entre outras coisas, um dos melhores retratos do Londres vitoriano tardio já filmados — denso, excessivo, genuinamente perturbador nos seus melhores momentos.
Sherlock Holmes (2009) e Sherlock Holmes: Jogo de Sombras (2011)
Guy Ritchie abordou Arthur Conan Doyle como se estivesse fazendo um filme de ação contemporâneo com figurinos vitorianos, e o resultado — contrariamente ao que os defensores do Holmes clássico temiam — funcionou extraordinariamente bem. Robert Downey Jr. é um Holmes fisicamente prodigioso, excêntrico e radicalmente antissocial, Jude Law é um Watson que não é o idiota simpático da tradição mas um soldado e médico competente que aguentou o seu lado da parceria, e Jared Harris como Moriarty no segundo filme é uma das melhores encarnações do personagem alguma vez filmada. O Londres dos dois filmes é fumacento, sujo, industrializado e genuinamente vitoriano — e a decisão de Ritchie de tratar as capacidades dedutivas de Holmes como algo físico e quase cinético, visualizando o processo de inferência em tempo real, é uma das ideias mais inteligentes que qualquer adaptação trouxe ao material.
Young Sherlock (2026)
Guy Ritchie volta a Sherlock Holmes como produtor desta série do Prime Video que estreou em março de 2026, desta vez com Hero Fiennes Tiffin como um Holmes de dezenove anos em Oxford, ainda antes de se tornar o detetive de Baker Street — indisciplinado, sem os filtros que a maturidade trará, envolvido num caso de assassinato que se expande em conspiração global. Dónal Finn é um jovem Moriarty, rival intelectual que aqui funciona como parceiro relutante em vez de antagonista declarado, Colin Firth é Sir Bucephalus Hodge, Max Irons encarna o irmão mais velho Mycroft Holmes, e Joseph Fiennes é Silas Holmes, pai de Sherlock. A série foi renovada para uma segunda temporada, confirmando o que a primeira estabeleceu: que há espaço considerável para explorar o mundo de Conan Doyle antes de Um Estudo em Vermelho, sobretudo quando a produção tem a estética e o ritmo que a assinatura de Ritchie sugere.
Anna e o Rei (1999)
Andy Tennant dirigiu esta versão da história de Anna Leonowens — a governanta galesa que foi ensineira dos filhos do Rei Mongkut do Sião no início dos anos 1860 —, com Jodie Foster e Chow Yun-fat nos papéis principais. Baseado numa história real, o filme é uma produção de época visualmente luxuosa que usa o encontro entre a Inglaterra vitoriana e o Sião do século XIX para explorar, com mais sofisticação do que os musicais anteriores baseados no mesmo material, os paradoxos do colonialismo e a sinceridade do afeto entre personagens que representam forças históricas em colisão irreconciliável.
The Artful Dodger (2023–2026)
Sequência irreverente de Oliver Twist de Dickens, esta série australiana do Disney+ segue Jack Dawkins — o Ladino Artful Dodger do romance original — já adulto, nos anos 1850, na colônia penal de Port Victory na Austrália, onde transformou os seus dedos ágeis de batedor de carteiras em instrumentos de cirurgião. Thomas Brodie-Sangster é Dawkins com o charme que o papel pede, David Thewlis é um Fagin que regressa para complicar tudo, e Maia Mitchell é Lady Belle Fox, filha do governador determinada a tornar-se a primeira cirurgiã da colônia — um paralelo intencional com Dawkins que o roteiro explora com mais inteligência do que se poderia esperar. A série tem 92% no Rotten Tomatoes para a primeira temporada, foi renovada para uma segunda que estreou em fevereiro de 2026, e é um dos exemplos mais bem-sucedidos de ficção vitoriana que usa o período como contexto para discutir mobilidade social, identidade e o que acontece com os que o império descarta.
Enola Holmes (2020) e Enola Holmes 2 (2022)
Baseada na série de romances juvenis de Nancy Springer, a franquia protagonizada por Millie Bobby Brown é, assumidamente, entretenimento para um público jovem — mas é entretenimento de época com uma consciência social que vai além do que o gênero habitualmente oferece. Enola, irmã mais nova e largamente ignorada de Sherlock e Mycroft Holmes, abandona a vida que a mãe feminista lhe organizou para encontrá-la quando ela desaparece, e acaba envolvida em conspirações políticas que tangenciam o movimento pelo sufrágio feminino e as tensões de classe do período. Henry Cavill é um Sherlock que aqui serve de suporte à protagonista em vez de dominá-la, e os dois filmes têm uma leveza e um ritmo que funcionam bem para o que são — introduções ao mundo vitoriano para quem está descobrindo-o.
Peter Pan (2003)
A adaptação de P.J. Hogan é a mais fiel ao espírito do livro de J.M. Barrie das produções live-action — e a que menos receio tem do lado mais sombrio do material. Jeremy Sumpter como Peter tem a crueldade e o desapego que Barrie escreveu no personagem, Rachel Hurd-Wood é uma Wendy que o filme trata como protagonista com o seu próprio arco em vez de suporte para as aventuras de Peter, e Jason Isaacs num duplo papel como Mr. Darling e Captain Hook encontra a ligação entre os dois personagens que Barrie sempre pretendeu que existisse. A Londres do início do filme tem uma qualidade que poucas produções conseguem: a sensação de que o mundo dos adultos é sufocante e o da fantasia é, simultaneamente, libertador e perigoso.
Alice no País das Maravilhas (2010)
Tim Burton levou Alice de volta à terra das maravilhas — desta vez já adulta, fugindo de um casamento não desejado — com uma estética gótica e saturada que é inconfundivelmente sua. Mia Wasikowska é uma Alice mais firme e mais consciente do que as versões anteriores, Helena Bonham Carter é a Rainha Vermelha com um prazer visível que contagia cada cena em que aparece, Anne Hathaway entrega uma performance fascinante como a Rainha Branca, e Johnny Depp é o Chapeleiro Louco mais icônico do cinema. O filme tem figurinos belíssimos, uma trilha sonora distinta e sequências de uma imaginação visual genuinamente extraordinária, e a decisão de enquadrá-lo como história de uma mulher vitoriana que aprende a recusar o que a sociedade espera dela dá ao material uma dimensão que as adaptações mais literais não têm.
O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos (2018)
A Disney usou a partitura de Tchaikovsky e a história de E.T.A. Hoffmann como ponto de partida para uma produção vitoriana de Natal que é, acima de tudo, um espetáculo visual — os figurinos de Jenny Beavan são extraordinários, a direção de arte tem uma riqueza de detalhe que o formato de conto de fadas pede, e Keira Knightley como a Fada dos Doces é uma aparição de energia cômica considerável numa produção que por vezes se leva demasiado a sério. É um filme menor na filmografia de qualquer um dos envolvidos, mas tem uma generosidade visual que funciona bem no contexto da era vitoriana de Natal que pretende evocar.
Nanny McPhee (2005)
Emma Thompson escreveu e protagonizou esta adaptação livre das histórias de Nurse Matilda de Christianna Brand, com Thompson como a babá mágica e Colin Firth como o pai viúvo sobrecarregado de filhos caóticos. O filme usa a Inglaterra rural vitoriana como cenário para uma história sobre o que as crianças precisam versus o que querem, com uma lógica interna ligeiramente perversa — Nanny McPhee perde os seus atributos físicos assustadores à medida que as crianças aprendem cada lição, o que é um mecanismo narrativo mais inteligente do que parece — e tem uma qualidade afetiva que as sequências raramente conseguiram replicar. É classificado para todas as idades no sentido mais honesto: funciona para crianças como fantasia e para adultos como comédia de situação com figurinos vitorianamente impecáveis.
Dr. Dolittle (1967)
O musical de Richard Fleischer baseado nos livros de Hugh Lofting é uma das produções de Hollywood dos anos 1960 mais caóticas na produção e mais inesperadamente encantadoras no resultado — filmado em Castle Combe, na Wiltshire, que foi inteiramente transformada numa aldeia vitoriana inglesa para o efeito, com Rex Harrison como o excêntrico médico que fala com animais e Samantha Eggar como a sua acompanhante. O filme foi um fracasso comercial na época, teve os seus problemas com Rex Harrison durante as filmagens que se tornaram lendários na história de Hollywood, e venceu dois Oscars incluindo Melhor Canção Original. É um filme genuinamente peculiar que não se parece com nada do seu tempo nem do nosso, e que continua a ser a versão mais fiel ao espírito de Lofting — que escreveu os livros para o seu filho durante a Primeira Guerra Mundial, e que nunca pretendeu que o Dr. Dolittle fosse uma criança.
Mil Golpes (2025)
Steven Knight tem uma especialidade que poucos criadores de televisão possuem com a mesma consistência: a de construir mundos históricos que parecem habitados em vez de reconstituídos. Mil Golpes, que estreou em fevereiro de 2025 no Disney+, leva essa especialidade para o East End de Londres em 1880 — não o East End romantizado do imaginário vitoriano, mas o East End real, superlotado, violento e extraordinariamente vivo, onde imigrantes de Jamaica, da China, da Irlanda e de toda a periferia do Império chegavam com pouco e tentavam construir algo num ambiente que sistematicamente recusava reconhecê-los como pessoas inteiras. Hezekiah Moscow e Alec Munroe, dois jovens jamaicanos, chegam à cidade e o roteiro os apresenta sem prólogo e sem condescendência — já em movimento, já tentando sobreviver, com Hezekiah sendo arrastado para o mundo do boxe ilegal enquanto Alec toma outro caminho, e a divergência entre os dois tornando-se o motor emocional central da temporada. Malachi Kirby como Hezekiah carrega a série com uma presença física e emocional que sustenta o peso de seis episódios sem esforço aparente, Erin Doherty como Mary Carr — líder dos Quarenta Elefantes, a gangue feminina de ladroas que de fato existiu — é genuinamente imprevisível, e Stephen Graham como Sugar Goodson está no melhor da sua forma. Knight baseou os três protagonistas em figuras históricas reais, o que dá à série uma dimensão adicional que a ficção pura raramente consegue — não por fidelidade aos fatos, que o roteiro não pretende ter, mas pela gravidade que a existência histórica dessas pessoas empresta ao projeto.
Penny Dreadful (2014–2016)
Criada por John Logan e executiva produzida por Sam Mendes, esta série do Showtime em três temporadas é a mais ambiciosa das produções vitorianas de horror dos últimos anos — e possivelmente a mais bem-sucedida na tarefa de usar o período como campo de batalha literário, colocando no mesmo universo ficções e personagens que nunca coexistiram mas que parecem ter nascido para isso. Frankenstein e a sua criatura, Dorian Gray, as figuras de Drácula, uma médium original chamada Vanessa Ives que é o coração da série — todos habitam um Londres de 1891 que é fumacento, moralmente corrompido e sobrenatural de maneiras que a ciência da época ainda não sabe nomear. Eva Green como Vanessa Ives deu uma das maiores performances da televisão da última década — uma personagem que é simultaneamente a mais frágil e a mais poderosa da série, assediada por forças que nenhum personagem ao seu redor consegue inteiramente compreender ou protegê-la de enfrentar —, e o elenco ao redor dela é à altura: Timothy Dalton, Josh Hartnett, Harry Treadaway, Rory Kinnear, Billie Piper, Helen McCrory. A série terminou na terceira temporada de maneira que dividiu o público, mas o que existiu antes do final é suficientemente extraordinário para justificar qualquer objeção ao desfecho.
Dickensian — BBC (2015–2016)
A premissa de Dickensian é uma das mais engenhosas da televisão de época britânica dos últimos anos: e se todos os personagens mais famosos de Charles Dickens fossem vizinhos, habitassem o mesmo bairro de Londres vitoriana e as suas histórias se entrelaçassem antes de começarem os romances em que foram imortalizados? A Loja de Antiguidades fica ao lado do pub Os Três Aleijados; a toca de Fagin está numa viela a poucos metros; Miss Havisham ainda não foi abandonada no altar; Scrooge e Marley ainda são sócios. O enredo central gira em torno do assassinato de Jacob Marley, investigado pelo Inspetor Bucket, mas o que sustenta a série são os personagens secundários e as suas histórias paralelas — especialmente uma jovem Miss Havisham interpretada por Tuppence Middleton, cujo arco é um dos mais surpreendentemente bem escritos da produção. O elenco inclui ainda Joseph Quinn numa das suas primeiras aparições notáveis antes de Stranger Things. Tem os seus problemas de ritmo — vinte episódios de meia hora nem sempre distribuem bem o material —, mas para quem conhece Dickens é um prazer constante de reconhecimento e subversão.
Ripper Street (2012–2016)
Criada por Richard Warlow e ambientada no Whitechapel de 1889, imediatamente após os assassinatos de Jack, o Estripador, Ripper Street acompanha o Inspetor Edmund Reid — Matthew Macfadyen numa das suas melhores performances televisivas —, tentando manter a ordem num bairro traumatizado, em parceria com o sargento Drake e o americano Homer Jackson, médico forense com um passado obscuro interpretado por Adam Rothenberg. A série foi cancelada pela BBC após a segunda temporada por questões de audiência, ressuscitada pelo Amazon Prime após uma campanha dos fãs, e terminou finalmente na quinta temporada em 2016 — uma trajetória que diz algo sobre o quanto a série tinha seguidores convictos, e com razão. Whitechapel em Ripper Street tem uma textura e uma densidade que poucas produções de época conseguem — a sujeira industrial, a pobreza, a violência, mas também a vida que persiste nessas condições —, e a série tem a inteligência de não resolver os seus personagens principais demasiado depressa, deixando as suas contradições e os seus traumas acumularem peso ao longo das temporadas.
The Alienist (2018–2020)
Baseada no romance de Caleb Carr, esta série da TNT ambientada no Nova York de 1896 acompanha o psicólogo Daniel Brühl, o jornalista Luke Evans e a secretária da polícia Dakota Fanning numa investigação de assassinatos em série que usa métodos que a época ainda não reconhece como legítimos — a psicologia criminal, a análise de padrões comportamentais, o que Carr chama de “alienismo”. Tecnicamente americana e nova-iorquina, mas profundamente vitoriana na sensibilidade — o período, a hierarquia social, a ciência a tentar definir os seus limites, a violência que o progresso não consegue eliminar —, com uma reconstituição de Manhattan de fins do século XIX que é visualmente uma das mais impressionantes da televisão americana da última década. A segunda temporada, The Alienist: Angel of Darkness, centra-se mais em Dakota Fanning e tem os seus próprios méritos, embora sem atingir a consistência da primeira.
Belgravia (2020)
Julian Fellowes adaptou o seu próprio romance para a ITV em seis episódios, contando uma história que começa na véspera de Waterloo e termina décadas depois, quando os segredos enterrados naquela noite de 1815 começam a emergir na alta sociedade londrina dos anos 1840. É Fellowes a fazer o que Fellowes faz — as tensões entre classes, os segredos de família, as alianças matrimoniais como instrumentos de poder —, mas numa escala mais compacta e com uma seriedade que o formato de seis episódios serve melhor do que as múltiplas temporadas de Downton Abbey. Tamsin Greig e Philip Glenister são o casal Trenchard, cujo passado determina os destinos de uma geração, e a série tem o mérito de não romantizar a mobilidade social do período — mostrar o quanto ela custava, e a quem, é uma das coisas que Fellowes faz bem quando está em forma.
A Mulher de Negro (2012)
James Watkins dirigiu este thriller gótico vitoriano baseado no romance de Susan Hill — publicado em 1983 e adaptado anteriormente para um filme televisivo de 1989 —, com Daniel Radcliffe como um jovem advogado enviado a uma casa isolada nos pântanos do norte de Inglaterra para tratar da herança de uma cliente falecida, onde descobre que uma presença sobrenatural está ligada à morte de crianças da aldeia próxima. O filme é um exercício de atmosfera — a casa nos pântanos, a névoa, os corredores escuros, os brinquedos que se movem —, com uma paciência na construção do terror que o cinema de horror raramente permite. Radcliffe, numa das suas primeiras aparições pós-Harry Potter, funciona bem precisamente porque não é um herói de ação mas um homem comum numa situação que ultrapassa completamente as suas ferramentas racionais para a compreender.
Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (2007)
Tim Burton filmou o musical de Stephen Sondheim com Johnny Depp e Helena Bonham Carter, e o resultado é o mais sombrio e o mais fiel ao espírito do material que qualquer adaptação do teatro musical poderia razoavelmente produzir — um Londres vitoriano como pesadelo industrial, com uma paleta de cores quase monocromática interrompida pelo vermelho do sangue, e uma partitura que Burton e o diretor musical Patrick Doyle tratam com um respeito que as adaptações cinematográficas de musicais raramente têm. Depp não é o cantor mais poderoso que o papel já teve, mas tem uma contenção e uma melancolia que servem bem ao Sweeney Todd que Sondheim escreveu; Helena Bonham Carter como Mrs. Lovett tem o humor negro necessário para equilibrar o desespero do protagonista; e Alan Rickman como o Juiz Turpin é a corporificação de uma certa hipocrisia vitoriana — o poder disfarçado de virtude — que o musical sempre pretendeu dissecar.
Dorian Gray (2009)
Oliver Parker adaptou o romance de Oscar Wilde com Ben Barnes como Dorian e Colin Firth como Lord Henry Wotton, o filósofo do hedonismo que corrompe o jovem com a sua filosofia da beleza como único valor. O filme é menos ousado do que o material pede — Wilde escreveu um livro que é simultaneamente um romance de terror, uma sátira social e um tratado filosófico sobre o narcisismo, e a adaptação tem tendência a privilegiar o primeiro em detrimento dos outros dois —, mas tem momentos genuinamente eficazes, sobretudo nas cenas entre Barnes e Firth onde a sedução intelectual de Lord Henry é visível e perturbadora. Como retrato do Londres dos anos 1890 — o dandismo, os clubes masculinos, a vida dupla que a moralidade vitoriana tornava inevitável para quem queria viver de maneira diferente do que a sociedade prescrevia —, tem uma coerência de produção que o sustenta mesmo quando o roteiro simplifica o original.
Dr. Jekyll e Mr. Hyde (1941)
Victor Fleming dirigiu esta versão do conto de Robert Louis Stevenson com Spencer Tracy num duplo papel que foi elogiado pelos críticos da época e que permanece como uma das interpretações mais interessantes do material — não pela transformação física, que Tracy deliberadamente minimizou, mas pela forma como construiu os dois estados do personagem como continuidade psicológica em vez de oposição radical. Ingrid Bergman e Lana Turner são as duas mulheres entre as quais Hyde e Jekyll se dividem, e o filme tem uma qualidade de estudo de caso psicológico que as versões mais espetaculares raramente alcançam. Existem versões anteriores — a de 1931 com Fredric March, que ganhou o Oscar pelo papel, é provavelmente a mais famosa —, mas a de Fleming é a que melhor articula o que Stevenson estava efetivamente a escrever: não um conto de terror sobre um monstro, mas uma meditação sobre a dualidade que a moralidade vitoriana criava em quem tinha desejos que não podia reconhecer publicamente.

