Roma nunca saiu de moda — e dificilmente sairá. Há algo no Império Romano que continua exercendo uma atração que resiste ao tempo e às modas cinematográficas: a escala, a violência, a política, a decadência, a extraordinária distância entre os ideais que Roma proclamava e as realidades que produzia. É o tipo de material que o cinema e a televisão voltam a explorar a cada geração, com orçamentos maiores, efeitos mais sofisticados e, nem sempre, maior inteligência — mas com uma persistência que diz alguma coisa sobre o quanto aquela civilização ainda funciona como espelho do presente.
A lista que se segue abrange quase um século de produções, dos épicos de Hollywood dos anos 1950 às séries de streaming dos anos 2020, passando por comedias britânicas, dramas de televisão de câmara, musicais filmados e pelo filme mais caro e caótico da história do cinema. Há aqui Roma como espetáculo, Roma como política, Roma como tragédia, Roma como farsa — e, nas bordas da lista, a Roma que aparece como pano de fundo de outras histórias, a Roma provincial que governa a Judeia e a Bretanha e a Palestina sem prestar muita atenção ao que está criando. Para cada produção grandiosa que tenta dar escala visual a um império, há outra que entende que o que torna Roma fascinante não é o tamanho, mas o que aquela civilização revela sobre como o poder funciona — e sobre o quanto pouca coisa mudou desde então.
Ben-Hur (1959)
Um dos maiores triunfos da história do cinema. A história de Judah Ben-Hur, príncipe judeu traído pelo amigo romano Messala e condenado às galés, desenvolve-se numa Roma do primeiro século que William Wyler reconstrói com uma escala que permanece impressionante décadas depois. Charlton Heston ganhou o Oscar, a corrida de bigas ainda é uma das sequências de ação mais extraordinárias já filmadas, e o filme venceu onze estatuetas — recorde que demorou décadas para ser igualado.
Gladiador (2000)
Ridley Scott entrou no novo milênio ressuscitando um gênero que Hollywood havia enterrado décadas antes, e fez isso com uma brutalidade e uma sofisticação visual que redefiniu o que um épico histórico podia ser. Russell Crowe é Maximus, general romano traído pelo filho corrupto do imperador Marco Aurélio e forçado a subir na hierarquia dos gladiadores para sobreviver e se vingar. Um dos maiores filmes do cinema contemporâneo, Gladiador tem uma força dramática e uma coerência visual — a direção de fotografia de John Mathieson, a trilha sonora de Hans Zimmer e Lisa Gerrard, as atuações brilhantes de Russell Crowe e Joaquin Phoenix — que justificam por completo os cinco Oscars que recebeu, incluindo Melhor Filme.
Pompéia (2014)
Kit Harington é um escravo celta que se torna gladiador em Pompéia, apaixona-se pela filha de um comerciante rico interpretada por Emily Browning, e enfrenta um senador romano corrupto encarnado por Kiefer Sutherland. O que o filme faz de melhor é a catástrofe final: a erupção do Vesúvio em 79 d.C., reconstruída com um cuidado e uma escala que justificam a existência do projeto, mesmo que tudo o que antecede seja gloriosamente previsível.
Spartacus — série (2010–2013)
Produzida pelo Starz, esta série americana tem uma estética deliberadamente excessiva — saturação de cor ao extremo, violência estilizada ao limite, nudez abundante — que nos primeiros episódios pode ser confundida com exploração barata, mas que revela ao longo das quatro temporadas uma ambição narrativa considerável. A história do escravo trácio que liderou a maior revolta servil da história romana é contada com uma brutalidade que não poupa nenhum dos lados, e com personagens secundários — sobretudo os romanos Lucrecia e Ilithyia, e o lanista Batiato — que são genuinamente complexos. A morte inesperada do ator principal Andy Whitfield durante a produção da primeira temporada obrigou o elenco e a produção a uma reconstrução que acabou tornando a série ainda mais interessante do que seria.
A Queda do Império Romano (1964)
Um dos épicos romanos mais subestimados da história de Hollywood, e um dos mais historicamente cuidadosos. Anthony Mann dirigiu Sophia Loren, Stephen Boyd e Alec Guinness numa história ambientada no final do reinado de Marco Aurélio e nos primeiros anos caóticos de Cômodo — o mesmo período de Gladiador, realizado com uma fidelidade ao contexto histórico que Ridley Scott nunca pretendeu ter. O filme foi um fracasso comercial na época e levou quase à falência a produtora que o financiou, mas os anos foram gentis com ele: é hoje reconhecido como uma das reflexões cinematográficas mais sérias sobre os mecanismos do declínio imperial, com uma batalha final na neve que é uma das sequências mais impressionantes do cinema épico da era dourada de Hollywood.
A Última Legião (2007)
Adaptação do romance homônimo de Valerio Massimo Manfredi, este filme parte de uma premissa fascinante — e se a espada de Júlio César tivesse sobrevivido e se tornado a lendária Excalibur da mitologia arturiana? — e constrói em torno dela uma aventura que vai de Roma a Britânia no século V, acompanhando o último imperador romano ocidental, um menino de doze anos chamado Rômulo Augusto, e o general Aurelius, interpretado por Colin Firth numa escolha de casting que surpreende mas funciona. Ben Kingsley é o mago Ambrosinus — cuja identidade o filme vai revelar com uma sutileza que a maioria dos espectadores antecipará bem antes do final — e a produção tem a inteligência de tratar a sua premissa com seriedade suficiente para que o espectador aceite a ponte entre Roma e Camelot.
Astérix e Obélix Contra César (1999)
A primeira adaptação live-action das histórias de Goscinny e Uderzo é uma das comédias europeias mais bem-sucedidas dos anos 1990 — e um exemplo notável de como adaptar material de quadrinhos com um respeito pelo tom original que as adaptações americanas do mesmo período raramente conseguiam. Gérard Depardieu como Obélix e Christian Clavier como Astérix têm uma química que o texto pede, Roberto Benigni como Detritos/Tullius Destructivus está no seu elemento natural de comédia física, e a produção de Claude Zidi encontrou um equilíbrio raro entre o humor anacrônico dos originais e a reconstituição de uma Roma que parece saída diretamente das páginas dos livros. O film arrecadou mais de 130 milhões de dólares no mundo inteiro — na época, o segundo filme em língua francesa de maior bilheteria da história.
Ben-Hur (2016)
Um remake que não tenta competir com Wyler, aposta num registro mais ágil, e tem na corrida de bigas com efeitos práticos o seu momento mais convincente. Jack Huston é um Ben-Hur diferente do de Heston — mais raivoso, talvez mais próximo do livro original de Lew Wallace — e Toby Kebbell faz de Messala um antagonista com motivações genuinamente ambíguas. Rodrigo Santoro interpreta um Jesus comovente, e o filme traz uma mensagem bonita – e surpreendentemente mais próxima da mensagem original do livro do que sua versão de 1959 – sobre perdão e amor cristão.
Quo Vadis (1951)
Baseado no romance Nobel de Henryk Sienkiewicz, este épico da MGM não é sobre Roma clássica em seu auge mas sobre Roma em crise — o império de Nero, a perseguição dos primeiros cristãos, o incêndio que consumiu a cidade em 64 d.C. Robert Taylor é o general romano que se apaixona por uma cristã interpretada por Deborah Kerr, e Peter Ustinov entrega um Nero que é simultaneamente ridículo e aterrorizante — uma das grandes caracterizações vilãs do cinema clássico, num filme rodado com trinta e dois mil figurantes e com uma curiosidade notável no elenco de fundo: a jovem Sophia Loren, Elizabeth Taylor, e Bud Spencer como guarda pretoriano.
Spartacus — filme (1960)
Stanley Kubrick dirigiu este épico com uma relutância considerável — substituiu Anthony Mann durante as filmagens e nunca considerou o resultado seu — mas o que ficou na tela é um dos maiores filmes de Roma já produzidos, com Kirk Douglas como o escravo trácio que liderou a revolta, Laurence Olivier como o senador Crasso, Charles Laughton como Graco e Peter Ustinov num papel que lhe valeu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. O roteiro de Dalton Trumbo — que foi creditado com o seu próprio nome num ato deliberado de desafio ao macarthismo que havia posto Hollywood sob vigilância — é um dos mais politicamente conscientes do gênero, e a cena do “Eu sou Espartaco” tornou-se uma das mais citadas da história do cinema americano.
Roma — HBO (2005–2007)
A série mais ambiciosa já produzida sobre a Roma antiga — e uma das mais ambiciosas da história da televisão em qualquer gênero — acompanha os últimos anos da República romana e os primeiros do Império através da perspectiva de dois soldados comuns, Lucius Vorenus e Tito Pulo, cujas vidas se entrelaçam com as de Júlio César, Marco Antônio, Cleopatra, Otávio Augusto e Cícero. Criada por Bruno Heller, John Milius e William J. MacDonald e filmada nos estúdios Cinecittà em Roma, a série tinha um orçamento de cerca de dez milhões de dólares por episódio — astronômico para a televisão de 2005 —, e o resultado é uma reconstituição da vida cotidiana romana que tem uma densidade e uma textura que o cinema raramente alcançou. Foi cancelada após duas temporadas por razões financeiras, deixando uma terceira temporada planejada sem ser produzida; o final da segunda temporada foi acelerado e reescrito para acomodar o encerramento, o que se vê — mas o que existiu é suficientemente extraordinário para que a ausência do restante seja uma das maiores perdas da história da televisão.
Ressurreição (2016)
Um dos filmes de Roma mais inteligentes das últimas décadas, Ressurreição pergunta: como foi toda a história da crucificação e suposta ressurreição de Cristo pelos olhos dos romanos? O que aconteceu na arena política da Judéia logo após a execução tão polêmica do pregador nazareno? Joseph Fiennes como o tribuno romano agnóstico encarregado de investigar o desaparecimento do corpo de Cristo aproxima-se da história de um ângulo que o gênero raramente tentou: o do investigador cético, numa estrutura que funciona quase como um policial. A Roma que o filme reconstrói é política, suja e crível.
Domina (2021–2023)
Produzida pela Sky Atlantic em duas temporadas de oito episódios cada, Domina conta a história de Lívia Drusila — terceira esposa do imperador Augusto, mãe de Tibério, e provavelmente a mulher mais poderosa da história de Roma — desde a sua infância no caos que se seguiu ao assassinato de Júlio César até à sua consolidação como figura central do poder imperial. Kasia Smutniak interpreta a Lívia adulta com uma frieza calculista que serve bem ao personagem, e a jovem Nadia Parkes a Lívia adolescente com uma energia que sustenta os primeiros episódios. A série tem a inteligência de não tentar fazer de Lívia uma heroína feminista anacrónica: ela navega uma sociedade que a quer reduzir a instrumento e usa todos os meios à sua disposição para se recusar a sê-lo, com uma crueldade que o texto não esconde nem desculpa.
Aqueles Prestes a Morrer (2024)
Baseada no livro de não ficção de Daniel P. Mannix sobre os jogos romanos, esta série do Prime Video dirigida por Roland Emmerich — o realizador de Independence Day e O Dia Depois de Amanhã, numa estreia na televisão — tem um orçamento de 140 milhões de dólares e Anthony Hopkins como o imperador Vespasiano em 79 d.C., um ano antes da erupção do Vesúvio. O projeto é assumidamente pulp — mais interessado em sangue, política suja e intrigas de bastidor do que em rigor histórico —, e Hopkins, com toda a sua autoridade, funciona mais como âncora de gravidade do que como protagonista central. Iwan Rheon é Tenax, senhor do submundo das apostas, e a série tem o mérito de mostrar os jogos como o que eram: um negócio corrupto e enormemente lucrativo, não apenas um espetáculo.
Cleópatra (1963)
O maior fiasco financeiro da história de Hollywood na época do seu lançamento — custou 44 milhões de dólares, quase faliu a Fox, e demorou décadas a recuperar o investimento — é também um dos filmes mais extraordinários do gênero, e um que o tempo tratou com mais generosidade do que os seus contemporâneos. Joseph L. Mankiewicz dirigiu Elizabeth Taylor e Richard Burton numa história de amor e política que se estende por mais de quatro horas na versão completa, com uma reconstituição do Egito ptolomaico e da Roma republicana que permanece visualmente deslumbrante, e com uma Taylor que é provavelmente a Cleópatra mais convincente que o cinema produziu — não pela fidelidade histórica, que é discutível, mas pela combinação de inteligência, ambição e fragilidade que ela empresta ao personagem. A relação real entre Taylor e Burton durante as filmagens, que destruiu dois casamentos e virou escândalo mundial, está em cada cena entre os dois — e isso, paradoxalmente, é uma das razões pelas quais o filme ainda funciona.
Spartacus: A Casa de Ashur (2025)
Dez anos depois do encerramento de Spartacus: Guerra dos Condenados, o Starz ressuscitou o universo da série com uma premissa que é, assumidamente, um exercício de ficção especulativa: e se Ashur — o sírio traidor, o personagem mais odiado e mais fascinante de toda a série original — tivesse sobrevivido ao Monte Vesúvio e sido recompensado pelos romanos com o próprio ludus de Batiatus? Nick E. Tarabay retoma o papel com uma energia que sugere que esperou dez anos para isso, e Graham McTavish, de Outlander, é Korris, um rival digno do calibre que a série precisa. A premissa de House of Ashur é mais íntima e mais politicamente densa do que a da série original — menos sobre a revolta e mais sobre o que acontece nos bastidores do negócio dos gladiadores, nas alianças entre o submundo e a aristocracia romana —, e a série, recebida com 91% no Rotten Tomatoes, confirmou que o universo ainda tem fôlego considerável. Para quem nunca viu a série original, é possível entrar aqui; para quem a viu, é um prazer inesperado.
Rei Arthur (2004)
Antoine Fuqua e o produtor Jerry Bruckheimer fizeram uma aposta incomum com este filme: tratar a lenda arturiana não como fantasia medieval, mas como história romana tardia, com Artur como um oficial de cavalaria romano-bretão comandando cavaleiros sármatas nas fronteiras do Império em declínio, nos últimos anos da ocupação romana da Britânia. Clive Owen é um Artur mais soldado do que rei, Keira Knightley é uma Guinevere guerreira picta que tem muito pouco a ver com qualquer versão anterior do personagem, e o elenco de apoio — Mads Mikkelsen como Tristão, Ray Winstone como Bors, Joel Edgerton como Gawain, Hugh Dancy como Galahad — é extraordinariamente sólido. O que faz de Rei Arthur uma entrada legítima numa lista de Roma é exatamente essa escolha de enquadramento histórico: o filme não é sobre Camelot, é sobre o fim de Roma na Britânia e o vácuo que esse fim deixou, com a lenda arturiana emergindo como resposta a esse colapso — o que é, historicamente, uma das teorias mais sérias sobre as origens do mito.
Jesus Christ Superstar (1973)
Norman Jewison filmou o musical de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice em locações reais no Oriente Médio, com uma estética propositalmente anacrônica — túnicas e tanques de guerra, sandálias e óculos escuros, uma Judeia do primeiro século habitada por uma energia claramente inspirada nos movimentos de contestação dos anos 1970 — e o resultado é um dos filmes mais inteligentes já feitos sobre o mundo romano da Palestina ocupada, ainda que esse não seja exatamente o seu objetivo declarado. A Roma de Jesus Christ Superstar é a Roma de Pilatos e de Herodes, de governadores coloniais que querem apenas manter a ordem e evitar problemas com Jerusalém; é uma Roma burocrática, pragmática e essencialmente indiferente às questões teológicas que agitam os que governa. Ted Neeley como Jesus e Carl Anderson como Judas entregam performances que vão muito além do que o formato musical normalmente exige, e a tensão entre os dois — Judas como homem que acredita genuinamente que a deificação de Cristo é perigosa e equivocada — é o motor dramático que sustenta o filme inteiro.
A Paixão — BBC (2008)
Produzida pela BBC em coprodução com a HBO e exibida ao longo da Semana Santa de 2008, esta minissérie em quatro episódios reconstrói a última semana da vida de Cristo com uma atenção à dimensão política da Jerusalém romana que a distingue da maioria das produções do gênero. O roteirista Frank Deasy e o estudioso bíblico Mark Goodacre trabalharam juntos para construir uma cidade onde a tensão entre as autoridades religiosas judaicas, o poder romano e os movimentos populares tem a densidade e a complexidade de uma situação política real — não de uma narrativa sagrada já conhecida. James Nesbitt é um Pôncio Pilatos humano e profundamente ambíguo, um administrador colonial que entende perfeitamente o que está fazendo e o faz de qualquer forma, e Joseph Mawle interpreta Cristo com uma presença contida e inquieta – uma das mais elogiadas interpretações de Jesus já feitas, por sua humanidade – que serve bem a uma série mais interessada na mecânica do poder do que no milagre. É, nesse sentido, um dos retratos mais honestos do funcionamento do Império Romano nas suas províncias que a televisão já produziu.
Júlio César (1953)
Joseph L. Mankiewicz adaptou Shakespeare com um elenco que dificilmente se repetiria — Marlon Brando como Marco Antônio, James Mason como Bruto, John Gielgud como Cássio, Louis Calhern como César —, e o resultado é um dos grandes filmes políticos de Hollywood, tanto pela qualidade das atuações quanto pela nitidez com que o texto de Shakespeare, escrito no século XVII, continua funcionando como análise do poder e da traição. Brando, que estava no auge de sua fama e que muitos esperavam que destruísse a solenidade clássica do projeto, entregou um Marco Antônio que ganhou o reconhecimento unânime da crítica — o discurso do fórum, “Virei enterrar César, não louvá-lo”, permanece como uma das sequências mais bem atuadas da história do cinema americano. O filme venceu o Oscar de Direção de Arte e foi indicado a Melhor Filme, e é hoje um ponto de entrada indispensável para quem quer entender como o assassinato de César moldou não apenas a República romana, mas o imaginário político ocidental por dois milênios.
Calígula (1979)
Poucos filmes na história do cinema foram tão caóticos na produção, tão controversos no lançamento e tão difíceis de categorizar quanto este. O projeto começou com intenções sérias — roteiro de Gore Vidal, direção de Tinto Brass, elenco que incluía Malcolm McDowell, Helen Mirren, Peter O’Toole e John Gielgud — e terminou como algo que nenhum dos envolvidos reconhece como seu: Bob Guccione, fundador da Penthouse e produtor do filme, inseriu cenas de sexo explícito sem o consentimento da direção ou do elenco após o término das filmagens, resultando numa versão final que mistura drama histórico sério com pornografia de baixo orçamento de maneira que desafia qualquer classificação. O que sobrou é perturbador, frequentemente ridículo, ocasionalmente genial — McDowell como o imperador que desceu à loucura absoluta tem momentos de uma intensidade genuinamente teatral —, e impossível de ignorar como documento de uma época em que os limites do cinema comercial estavam sendo testados de todas as formas possíveis.
A Vida de Brian (1979)
Os Monty Python fizeram A Vida de Brian como sátira religiosa e acabaram criando um dos retratos mais inteligentes da Judeia romana já colocados numa tela. Brian Cohen, judeu da Nazaré nascido no mesmo dia e na mesma vizinhança que Jesus, é confundido com o Messias e arrastado a contragosto para o centro de um movimento messiânico que satiriza, com uma precisão que o tempo apenas confirmou, a tendência humana de transformar qualquer figura carismática em objeto de culto dividido em facções — “Somos todos indivíduos!”, gritam em coro. A Roma que o filme reconstrói é burocrática, multicultural, um tanto absurda, e surpreendentemente fiel ao que os historiadores sabem sobre a administração provincial romana; a cena do grafite latino mal escrito na parede do palácio de Pilatos é, entre outras coisas, uma das mais acuradas representações do latim coloquial do primeiro século já colocadas num filme de comédia.
I, Claudius — BBC (1976)
Para muitos historiadores e entusiastas da Roma antiga, esta é simplesmente a melhor série já feita sobre o período — e o argumento é difícil de rebater. Adaptação dos romances de Robert Graves, a minissérie em doze episódios narra a história da dinastia Júlio-Claudiana — de Augusto a Nero, passando por Tibério e Calígula — através dos olhos do imperador Cláudio, que finge ser o idiota que a família pensa que é enquanto observa e registra tudo. Derek Jacobi como o velho Cláudio narrando suas memórias é uma das grandes atuações da televisão britânica, mas o elenco inteiro é de uma qualidade que raramente se reúne num mesmo projeto: Siân Phillips como Lívia é gélida e aterrorizante, Brian Blessed como Augusto tem uma grandiosidade física e verbal perfeita para o papel, John Hurt como Calígula entregou uma das representações de loucura imperial mais perturbadoras da história do audiovisual, e Patrick Stewart aparece como Sejano num dos seus primeiros papéis de relevo. A produção é teatral pelo padrão de hoje — foi feita para televisão dos anos 1970, com orçamento televisivo dos anos 1970 —, mas o roteiro de Jack Pulman e as performances são suficientemente extraordinários para que isso seja irrelevante.
Império (2005)
Esta minissérie americana da ABC em seis episódios usa o assassinato de Júlio César não como clímax, mas como ponto de partida — e é precisamente essa escolha que a distingue da maioria das produções sobre o período. O que interessa aqui é o que veio depois: a ascensão de Otávio, sobrinho de dezoito anos de César, de herdeiro improvável a imperador de Roma, com a ajuda de um gladiador fictício chamado Tirano que funciona como seu protetor e mentor. Santiago Cabrera é Otávio, Colm Feore é César, e uma jovíssima Emily Blunt aparece num papel secundário como uma das suas primeiras aparições notáveis no audiovisual. A série é menos rigorosa historicamente do que Roma da HBO e mais assumidamente populista, mas tem uma energia narrativa considerável e o mérito de contar uma história que o cinema raramente conta — não a queda da República, que tem Shakespeare como biógrafo permanente, mas a construção do Império que a substituiu.
The Chosen (2017–presente)
A série criada por Dallas Jenkins, financiada por crowdfunding e distribuída gratuitamente pelo seu próprio aplicativo, já foi assistida por mais de duzentos milhões de espectadores em todo o mundo e está planejada para sete temporadas, com a sexta — sobre a Paixão e a crucificação — prevista para 2026. O que a coloca nesta lista é a mesma razão que coloca Jesus Christ Superstar e A Paixão da BBC: a Roma que The Chosen reconstrói é a Roma provincial da Galileia e da Judeia do primeiro século, com toda a sua burocracia militar, as suas tensões entre ocupantes e ocupados, e a sua presença constante mas frequentemente indiferente nas vidas dos personagens. A decisão de Dallas Jenkins de construir o mundo ao redor de Cristo antes de construir Cristo em si — dar aos discípulos, aos fariseus, aos funcionários romanos e às mulheres que seguiam Jesus uma vida interior completa, com histórias anteriores e motivações próprias — transforma a série numa das representações mais densas e humanas do mundo romano provincial já produzidas para televisão, tanto mais eficaz por chegar através de uma história que metade do planeta já conhece de memória.

