Comprei o Correio Literário, ou como se tornar [ou não] um escritor (2021), da Wisława Szymborska há alguns anos e nunca consegui lê-lo. Acontece com as melhores leitoras e, é claro, com os melhores livros, entretanto, eis que chegou o momento.
Não sei dizer os motivos concretos para a demora em ler estas dicas tão preciosas de uma das maiores poetas do século XX, mesmo sabendo do seu teor sarcástico e de suas dicas um tanto ácidas. Elas não são para mim, mas poderiam ser.
Eu, que já escrevo costumeiramente, me senti contemplada por muitas passagens, em um tom de recomendação que por vezes constrange. Por isso, este é meu primeiro alerta sobre este correio: é preciso ser forte para entender que muitas coisas ditas são essenciais e farão a diferença na sua escrita, como espero que faça na minha.
Me empolguei nesta introdução e acabei não dando as devidas informações sobre o Correio Literário, ou como se tornar [ou não] um escritor (2021), da Wisława Szymborska, organizado por Teresa Walas e traduzido por Eneida Favre, publicado no Brasil pela Editora Âyiné.
A acidez de Wisława Szymborska parte por parte
O livro é uma coletânea de parte das respostas oferecidas pela poeta Wisława Szymborska no jornal em que atuava para sua coluna semanal chamada Vida Literária, a alguns autores que enviavam suas produções para serem avaliadas pela própria Wisława e seu parceiro de Correio, Włodzimierz Maciąg.

Os poetas iniciantes, sedentos de uma leitura crítica, enviavam seus textos, mas não faziam ideia de como seriam avaliados. Mesmo lendo as avaliações, as pessoas continuavam enviando seus textos, e isso é muito interessante.
Estes são alguns trechos que ilustram bem a lucidez e acidez da poeta, que parecia se divertir com o incômodo causado:
“Seus escritos, senhorita, são antiquados na forma e no âmbito das ideias. Isso é inusitado em se tratando de uma moça de dezenove anos. Não serão talvez estrofezinhas copiadas do caderno de recordações da bisavó?” (p. 19).
“Entretanto, o escritor se forma a partir do seu interior, em seu próprio coração e cabeça: graças a uma inata (inata, enfatizamos!) inclinação para a introspecção, para vivenciar sensivelmente mesmo as coisas pequeninas, para se admirar até com aquilo que os outros consideram comum demais” (p. 34).
“Os poetas <<de nascimento>> agem de forma completamente oposta: a poesia não é para eles uma recreação e uma fuga da vida, mas a própria vida. Por isso tentam expressar nela tudo aquilo que o senhor põe de lado: as experiências, as inquietações, os ressentimentos, as perguntas que uma pessoa madura faz a si mesma” (p. 45).
Após uma breve leitura das assertivas da poeta, é possível compreender o modo “generoso” como Wisława Szymborska se dirigia aos leitores e como ela os alertava sobre sua escrita e seu olhar sobre a vida em seus pequenos detalhes.
Entretanto, nem só de palavras duras e ácidas, era feito o correio literário. A dureza, muitas vezes, se transformava em gentileza e a poeta compartilhava com os leitores de modo verdadeiramente honesto algumas recomendações essenciais:
“Não é a primeira vez – provavelmente já são setecentas e oitenta e nove vezes – que advertimos que o uso dos termos exagerados enfraquece a coisa toda ou produz um efeito totalmente indesejado pelo autor” (p. 64).
“Que poemas?! Afinal é preciso antes escrevê-los, trabalhando duro, corrigindo, jogando na lata do lixo, começando de novo… Aquele que pensa em literatura deveria se imaginar em situações diferentes e mais modestas: num quarto vazio, inclinado sobre uma folha de papel. Numa caminhada solitária. Lendo um livro alheio, porque não são só os próprios que valem a pena serem lidos. E, por fim, com as pessoas, em conversas nas quais ele não seja o principal centro de interesse. Dos poemas enviados, dois distinguem-se por sua relativa coerência. O resto é um caos enfadonho” (p. 73).
“Na poesia, o que deve <<acontecer>> é a descrição em si. Tudo se torna importante e significativo: a escolha das imagens, seu arranjo e a forma que elas adotam em palavras. A descrição de um simples quarto precisa se tornar gradativamente a nossos olhos a descoberta de um quarto, e a emoção dessa descoberta deveria nos contagiar.” (p. 38)
O que arde cura: recomendações da poeta
Estes últimos trechos nos ajudam a reconhecer a importância de algumas recomendações de uma experiente poeta e escritora e o quanto suas advertências para que aquelas pessoas que escreviam para o correio literário encontrassem algum direcionamento, alguma luz no fim do túnel.
Gosto em especial do próximo trecho, em que a poeta alerta a pessoa sobre a gravidade que há quando alguém tenta ser poeta, sem ser, de verdade. Sobre uma tentativa de falsear a própria essência. O quanto é preciso dar valor às pequenas coisas e como descrevê-las produz um efeito sem igual na escrita:
“Ir. Przyb., Gdańsk Não tente ser poético a qualquer preço; a poeticidade é chata, porque é sempre secundária. A poesia, como, aliás, toda a literatura, retira suas forças vitais do mundo em que vivemos, das vivências realmente vividas, das experiências realmente sofridas e dos pensamentos que nós mesmos pensamos. É preciso descrever o mundo continuamente, porque, afinal, ele não é o mesmo de tempos atrás, nem que seja pelo fato de que não estávamos nele antes. Esse seu O canto da ventania talvez pudesse ter sido escrito por Tetmajer. Mas você tem vinte e quatro anos e trinta milhões de compatriotas esperam, prendendo a respiração, aquilo que você vai lhes contar por si mesmo.” (p. 37)
Após a leitura das respostas da poeta Wisława Szymborska me sinto fortificada para entender o que pode ser melhor na minha escrita, mas sobretudo, no modo como eu vejo o mundo. E estas são algumas das principais dicas que levo para sempre:

- Fale a língua de sua época;
- Sente e trabalhe sem preguiça;
- Leia e converse sobre os livros;
- Vivencie coisas pequeninas;
- Descreva o mundo continuamente;
- Descreva as imagens minuciosamente;
- Expresse sua própria vida em seus poemas;
- Evite termos estereotipados e exagerados;
- Tenha curiosidade;
- Corrija seus textos quantas vezes julgar necessário;
- Não tenha pressa ao escrever.
Se você escreve e ainda não leu o Correio Literário, ou como se tornar [ou não] um escritor (2021), recomendo a leitura. Se você ainda não escreve, leia o Correio Literário, e quando começar a escrever, já terá colhido as recomendações necessárias para produzir textos que contenham boas imagens e dos quais você sinta orgulho.

