António Lobo Antunes, um dos maiores escritores da literatura portuguesa contemporânea, faleceu nesta quinta-feira, 5 de março de 2026, aos 83 anos. A confirmação veio da editora Dom Quixote (grupo LeYa), que expressou profunda tristeza pela perda do “nome maior da literatura portuguesa”, autor de romances que marcarão para sempre seus leitores.
Nascido em Lisboa em 1º de setembro de 1942, Lobo Antunes formou-se em Medicina, especializou-se em Psiquiatria e exerceu a profissão antes de se dedicar integralmente à escrita a partir de meados dos anos 1980. Sua estreia literária veio em 1979 com Memória de Elefante, seguido no mesmo ano por Os Cus de Judas.
Vieram depois obras como Conhecimento do Inferno (1980) e Explicação dos Pássaros (1981), fortemente influenciadas pela experiência da guerra colonial e pela prática psiquiátrica. Ao longo da carreira, publicou mais de 30 romances, caracterizados por um estilo inovador, visceral e sofisticado, que o tornaram um dos autores mais lidos e admirados em Portugal e no exterior. Foi frequentemente cotado para o Nobel de Literatura e recebeu prêmios como o Camões (2007). A notícia gerou reações imediatas em diversos setores.
O que disse o governo português?

O Governo português decretou luto nacional para este sábado, 7 de março, e o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que se declarou amigo do escritor, aceitou a proposta de conceder postumamente o Grande-Colar da Ordem de Camões, a mais alta distinção cultural do país. Marcelo destacou a vasta bibliografia visceral, sofisticada em termos narrativos, atenta ao quotidiano e influenciada pela guerra e pela psiquiatria, afirmando que ninguém terá sido mais imitado pelas gerações seguintes.
Livro inédito
A editora Dom Quixote anunciou que continuará a promover a obra do autor, cuja relevância transcende fronteiras. Além disso, revelou que um livro inédito de poemas, intitulado Poemas, está em preparação e será lançado em abril, ironicamente, pois Lobo Antunes sempre lamentou não ter sido poeta. Entre escritores e pares, as homenagens se multiplicaram.
Lídia Jorge

Lídia Jorge, por exemplo, o descreveu como o mais criativo de sua geração, elogiando a proeza de adaptar métodos do romance psicológico do início do século XX à história recente de Portugal, especialmente o fim dos impérios. Ela destacou sua influência duradoura e a estante absolutamente cheia de seus livros como a melhor memória que deixa. Outros reconheceram sua genialidade, mas também sua personalidade polémica e por vezes difícil.
A vencedora do último Prémio Pessoa acredita que a melhor memória que o escritor deixa é a sua “estante absolutamente cheia dos livros dele”. Sobre a sua escrita, destacou a “proeza extraordinária” de pegar nos “métodos do romance psicológico do início do século XX” e enchê-los com a história recente de Portugal.
“É um escritor do fim, é um escritor que se inscreve no fim dos impérios, do colapso dos impérios. É um tema absolutamente europeu e universal e ele fá-lo maravilhosamente na língua portuguesa”, disse.
Com Lobo Antunes, Portugal perde um dos maiores intérpretes do país contemporâneo, um sujeito controverso muitas vezes, um “cara”, no melhor sentido do termo que nem sempre eu, nem ninguém gostava, mas cuja escrita misturava coragem, melancolia e fúria em uma voz única e universal.
Mas que deixa um legado permanece vivo na literatura em língua portuguesa.

