Estátua de Patrice Lumumba: torcedor congolês Michel Mboladinga tem visto negado nos Estados Unidos, mas se une à torcida no México

Michel Kuka Mboladinga, torcedor congolês convidado pela Federação de Futebol da República Democrática do Congo para integrar a delegação na Copa do Mundo de 2026, teve o visto de entrada negado nos Estados Unidos, com o argumento do surto de ebola no país e a necessidade de isolamento sanitário para pessoas vindas da região.

Mboladinga, que é conhecido por se caracterizar como Patrice Lumumba (1925-1961), liderança política que conduziu as lutas anticoloniais no Congo Belga no século XX, nasceu em Kinshasa, no Zaire (nome oficial da República Democrática do Congo entre 1971 e 1997), em 1976 e tem 49 anos. 

Foi durante uma partida do seu clube de coração, o AS Vita Club, um time da primeira divisão da República Democrática do Congo, no ano de 2013, que ele se levantou pela primeira vez. O torcedor, que recebeu o apelido de “Lumumba Vea” (Lumumba Vive), em homenagem ao AS “Vita” Club, permanece imóvel no meio da torcida durante os 90 minutos do jogo, em um ato silencioso em reverência ao líder anticolonial. 

Em janeiro deste ano, durante a Copa Africana das Nações (2025-2026) sediada no Marrocos, Mboladinga viralizou na mídia internacional. Poucos dias antes, encomendou um banquinho de madeira, que se tornou uma ferramenta inseparável da intervenção política nos estádios desde então. A ascensão da popularidade transformou o torcedor congolês em um artista reconhecido, com três empresários que administram sua carreira e agenda profissional, e um segurança que o acompanha durante os jogos. 

Apesar da ausência no jogo de estreia contra Portugal nos Estados Unidos, compareceu na partida contra a Colômbia, testemunhando a vitória histórica da República Democrática do Congo, garantindo a classificação para a fase eliminatória.

Nos últimos dias, contudo, o torcedor tem sido criticado por ter aceitado fazer publicidade para a Rexona, uma das marcas patrocinadoras da Copa 2026, em uma campanha publicitária da FIFA. Admiradores do líder anticolonial afirmam que o Mboladinga não tem o direito de usar a imagem de Lumumba para autopromoção e publicidade de marcas, alegando que ele jamais estaria de acordo com tal ato. 

Quem foi Patrice Lumumba e como se deu o processo de independência no Congo Belga? 

Em 30 de junho de 1960, a República Democrática do Congo, na época chamada de Congo Belga, conquistou a independência dos colonizadores, depois de 75 anos sendo colônia da Bélgica.

O território, que até então era habitado pelos povos do Reino do Congo, Reino Luba, Reino Lunda e comunidades bantos,  foi ocupado pelos belgas em 1885, logo após a Conferência de Berlim (1884-1885), que dividiu o continente africano entre diversos países europeus. 

Leopoldo II (1835-1909) da Bélgica transformou a região em propriedade pessoal e deu o nome de Estado Livre do Congo, que na prática, foi um dos regimes coloniais mais violentos da história, com um saldo de aproximadamente 10 milhões de mortos, segundo estimativas históricas. 

Os habitantes nativos eram mutilados como punição por não cumprirem as metas de produção, e os oficiais do exército de Leopoldo II eram obrigados a prestar contas de cada munição utilizada para matar um escravizado, apresentando a mão direita da pessoa morta para comprovar que a bala não havia sido desperdiçada. Para além da punição coletiva… a mutilação se tornou um símbolo das práticas coloniais contra os povos nativos. 

Após centenas de denúncias internacionais, em 1908, o governo belga precisou retirar o território do controle pessoal de Leopoldo II, renomeando a região como Congo Belga. Com o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), os movimentos nacionalistas ganharam força em diversos países da África, sobretudo nas décadas de 50, 60 e 70. 

Em 1958, um grupo de jovens africanos que lutavam pelo fim do colonialismo, fundou o Movimento Nacional Congolês (MNC), liderado pela figura histórica mais conhecida da organização, o nacionalista Patrice Lumumba, nascido em 1925 na aldeia de Onalua, em Katako-Kombe, que foi eleito o primeiro primeiro-ministro da atual República Democrática do Congo, oficializada em 30 de junho de 1960. 

O conservador Joseph Kasa-Vubu (1915-1969), representante do povo Bakongo, um dos principais grupos étnicos do oeste do Reino do Congo, foi nomeado indiretamente como presidente pelo congresso, transformando a formação do gabinete em uma disputa por comando de áreas estratégicas. 

Moïse Tshombe (1919-1969), líder do partido reacionário CONAKAT, liderou um levante separatista com o apoio dos colonizadores belgas. Ignorado pelo governo-norte americano, Lumumba se aliou aos soviéticos e provocou uma reação imediata no Ocidente, fazendo com que os governos da Bélgica, Estados Unidos e Reino Unido se unissem em uma conspiração para derrubá-lo.

Foi capturado e assassinado a mando da CIA, na província de Katanga, dia 17 de janeiro de 1961. Em 2017, alguns documentos que foram tornados públicos pelo próprio governo norte-americano, comprovaram a participação estadunidense na conspiração e no assassinato. O Reino Unido só admitiu sua participação no ano de 2013, e os belgas formalizaram um pedido de desculpa e devolveram aos familiares um dente de Lumumba, que foi a única parte que restou de seus restos mortais. 

AINDA NÃO FINALIZADO

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