As Moscas, de Jean Paul Sartre é uma peça de teatro do autor existencialista que reconta os mitos gregos de Electra e Orestes, filhos de Agamemnon e Clitemnestra, todos controlados pelo infalível deus Júpiter. Na peça, a população vive repleta de remorsos e sentimentos de culpa por conta de seu passado de crimes, traições e violências, e se sentem a todo instante controladas pelas figuras sombrias de Citemnestra e Egisto, que matara Agamemnon e agora controlava a cidade. A história gira em torno da volta de Orestes, que havia sido criado longe de sua terra para vingar a morte do pai, reencontrar a irmã e retomar o poder que lhe era de direito. Quando chega, dá de encontro com um dia em que, para colocar medo na população, Egisto e Clitemnestra evocam os mortos que cada um tem dentro de si inventando que cada pessoa viverá com todos os seus fantasmas por 24 horas. O clima da cidade é denso, pesado, com baixa visibilidade e pouco horizonte, repleto de moscas que circunda os corpos e as mentes de todos espelhando um sentimento geral de um povo acuado. No entanto, Orestes recebe uma das maiores dádivas, a única que pode enfrentar o podes dos deuses: a liberdade!
No fim das contas, a peça é retrata um grande embate entre a liberdade de Orestes e a tentativa de manutenção do poder de Júpiter, assim como a sofrida vida do povo que gira ainda ao redor dos grandes mitos que controlam seus corpos, mentes, atos e gestos. Uma história que fora essencial para mostrar a queda da mitologia e a ascensão da razão na Grécia Antiga e que mostra, no século XX, como se pode abrir de todo e qualquer pensamento que não nos leve a mais suprema (e desesperadora) liberdade!

O NotaTerapia separou as melhores frases da obra:
Não incrimineis tão depressa os deuses. Achais que deverão sempre castigar? Então não seria melhor aproveitassem a desordem em benefício da ordem moral?
Mas que importa se uma cidade inteira se arrepende por ele? No arrepender é o peso que conta.
Com certeza, pois ninguém mais existe além do homem, e estes já bastam.
Eu sou livre, graças a Deus. Ah! Como sou livre! E que esplêndido vazio trago na alma.
Todas as pessoas te vão implorar que as condenes. Mas toma cuidado e julga-as só pelos seus erros que te confessarem, pois os outros a ninguém dizem respeito e ficarão todos muito pouco satisfeitos contigo se os descobrires.
O meu jovem orgulho? Vê-se que é a vossa juventude que lastimais, mais ainda que o vosso crime; é a minha juventude que odiais, mais ainda que a minha inocência.
É bom ter medo, queridinho. Muito medo. Para poderes vir a ser alguém.
Que eu danço para que haja alegria, danço para que haja paz entre os homens, para que haja felicidade e haja vida. Ó meus mortos, reclamo o vosso silêncio para que os homens que me rodeiam saibam que estaias comigo do coração!
Como é belo, na verdade, o homem rico, solidamente instalado entre os seus bens e que um dia se entrega ao amor, ao ódio, e que entrega consigo a sua terra, a sua casa e as suas memórias.
É então isso…o Bem? Ser-se dócil. Muito dócil. Dizer sempre “perdão” e “obrigado”…É isto? O Bem. O bem deles…
Tens. O mesmo que eu. O doloroso segredo dos deuses e dos reis: é que os homens são livres.
É preciso que me olhem; enquanto tiverem os olhos pregados em mim esquecer-se-ão de olhar para si próprios. Se eu me descuidar um momento que seja, se deixar que os seus olhos se afastem…
Quando a liberdade explode na alma dum homem, os deuses perdem todo o poder sobre ele. Passa então a ser uma coisa puramente humana e só os outros homens podem matá-lo ou deixá-lo viver.
Repare nesses planetas que giram ordenadamente sem nunca se chocarem. Fui eu quem lhes determinou as órbitas, segundo o que é justo. Escuta a harmonia celeste, esse grande hino mineral em acção de graças que reboa pelos quatro cantos do firmamento. Sou eu a causa das espécies se perpetuarem, fui eu quem ordenou que um homem gere sempre um homem e que o filho do cão seja cão; sou eu a causa das marés virem docemente lamber as areias, retirando-se à hora marcada, retirando-se à hora marcada, sou eu quem faz crescer as plantas e é o meu sopro que conduz à volta da terra as nuvens amarelas do polén.
Edição: Editorial Presença, Lisboa, 1962
Tradução: Nuno Valadas
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