Uma experiência recentíssima me levou à seguinte conclusão: só diz desejar a morte quem está saudável e seguro. Quem está próximo da morte luta contra ela com todas as forças. Mas o que aconteceria se ela não chegasse nunca? A sonhada, questionada, imaginada imortalidade traria muito mais que superpopulação para este planeta: traria o dilema, não necessariamente ético, daqueles que se dizem cansados de viver e só querem um descanso. É num mundo em que a imortalidade virou regra que “Cartório das Almas” é ambientado.
“Isso aqui é uma entrevista de emprego”, declara um homem sentado à máquina de escrever. O cargo é no Cartório das Almas, e consiste em catalogar fichas sobre quem está para morrer, anotar a causa mortis e entregar tudo para o chefe. Quem está se candidatando à vaga é uma jovem de 126 anos, Laura (Gabriela Correa), que parou de envelhecer aos 26, mesma época em que perdeu a memória. Ela só consegue focar no presente, e garante que ninguém tenha futuro.

Nessa burocracia da morte, os pedidos de “desligamento” devem ser feitos por escrito, por questão de protocolo. O processo em si é simples: entra-se numa sala, Laura fecha a porta e puxa uma alavanca, e a pessoa se transforma em pássaro.
O “desligamento” virou a única opção depois que imortalidade e esquecimento viraram regra, com a obrigatoriedade de um banho periódico num líquido branco leitoso para se manter jovem e desmemoriado. Isso significa que Laura não é exceção, apenas seu trabalho que é um pouco diferente. Até que um dia o trabalho começa a perturbá-la quando ela diz “eu conheço essas pessoas, mas não sei de onde”.
O empregador de Laura é categórico: as pessoas que param com os banhos morrem de sofrimento. O banho é feito para esquecer, e lembrar é doloroso. Memórias são o que nos definem em grande parte nesta vida finita, e não seriam poucos os que aceitariam trocar as lembranças pela imortalidade.

Temos a todo momento uma oportunidade diferente de discutir o suicídio, aqui nunca tratado como tabu. Tantos elementos estão ali: a tomada de decisão, o despedir-se de toda sua vida, o resolver as coisas, o motivo, a carta de suicídio. O tema torna-se ainda mais pungente no final poético.
Desde o início, o visual do filme me remeteu a duas produções audiovisuais de que gosto muito: o filme belga “O Novíssimo Testamento” (2015) e a série infelizmente cancelada antes de seu desfecho “Westworld”. A assepsia, tão comum ao gênero ficção científica, está lá, mas não se veem objetos futuristas. O cartório das almas, em si, é bastante rudimentar, com senhas em papel, a supracitada máquina de escrever e o aparelho de fax.
Desde 2023 “Cartório das Almas” vem fazendo carreira em festivais, angariando elogios e prêmios, como o de Melhor Filme pelo Júri Popular no Festival de Brasília. O filme foi de fato rodado na capital, onde as paisagens evocam um tipo único de futuro, como declara o diretor Leo Bello:
“Ela carrega uma ideia de futuro que ficou no passado, um futuro que já não cabe mais, mas como já tínhamos esses locais que são cenários futuristas prontos, usamos esses elementos para construir um mundo fantástico”.
Talvez a morte seja mesmo uma transmutação, não necessariamente de humano para pássaro. Até descobrirmos isso, ficamos com as maquinações do cinema.
“Cartório das Almas” estreia em 29 de outubro nos cinemas. Confira o trailer:
Ajude a manter o Nota vivo! Contribua no Apoia.se!


