Até que ponto você conhece a pessoa que está do seu lado? Até quando você pode confiar em quem você escolheu para dividir a vida? Principalmente, quando estamos falando de homens – e os efeitos acumulados do patriarcado em indivíduos – segundas ou terceiras chances podem significar não apenas colocar a sua vida em risco, mas abrir espaço para colocar em risco também a vida de seu filho e a de muitas outras crianças. E isto não está escrito na cara de ninguém. Esta é a premissa do bárbaro filme Monstro Gentil, de Marie Kreutzer.
Monstro Gentil (2026) conta a história da pianista Lucy que, após um burnout do marido, resolve se afastar da carreira de pianista e se muda com Philip e o filho para uma casa de campo. A princípio, eles vivem uma esperançosa vida idílica de um casal em uma nova lua de mel no recomeço de um relacionamento, porém a rotina da família se desfaz quando a polícia surge e expõe um segredo devastador: seu marido estava envolvido numa rede de compartilhamento e armazenamento de pedofilia pela internet.

A partir deste ponto, o filme passa a se construir em três pilares fundamentais que garantem sua força, vitalidade e beleza: o silêncio, o câmbio das imagens e o discurso vacilante. O silêncio não chega a ser novidade em obras austríacas e alemãs (embora o filme também tenha uma coparceria francesa), mas, de todo modo, o silêncio serve como modo regulador tanto da caixa dos espectadores, ou seja, para nos manter ali, de olhos vidrados na tela, aprofundados nas dores de Lucy diante de seu grande dilema moral.
Porém, também, o silêncio acentua os diálogos, não permite que eles caiam no sentimento nem no sentimentalismo. Nenhum deles é sobre amor, nem quando são sobre o amor. Eles são sobre acerto de contas sobre seus sentimentos.
Ou, melhor dizendo, são sobre o que a ação, produzida por Philip, produziu de ecos de sentimentos e sofrimentos não só em Lucy, mas também nele próprio, e o que isso desencadeia em um e no outro e como isso vai se multiplicando . A trama vai se construindo sobre essas dobras sem medo de ir e voltar no tempo ou fazer Lucy sair.
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Segundo, o câmbio das imagens. O filme joga com vários tipos de registro: Philip fazia cinema e filmava a família, celulares filmavam eles, câmeras antigas de Philip. As câmeras pegam tanto os movimentos bruscos da cidade quanto dias calmos dos campos.
E aí, Monstro Gentil nos faz cair na armadilha que ele propõe: Philip uma hora é monstro, outra é gentil porque monstros não têm cara de tal, então Marie vê, Lucy vê e depois como a investigadora vê. Conforme o filme avança, as imagens se intercabiam, nos adicionando novos modos de olhar, às vezes suplantando o anterior. A câmera é uma testemunha de fundo falso, às vezes fala a verdade, às vezes não.
Por fim, temos os discursos vacilantes. Lucy se vê diante de um marido que já mentiu no passado. O seu perdão, no entanto, parece lhe ter devolvido um Philip melhor, renovado. Entretanto, com essa denúncia gravíssima, novas mentiras aparecem, dessa vez imperdoáveis. Ela foge com o filho, mas novas mentiras surgem. Como acreditar? E ela vai buscando se agarrar em algumas frases que ouve.
O que Marie faz é nos dar a ver passos típicos de dependência emocional, física e às vezes até por conta dos filhos, que uma mulher passa dentro de um relacionamento sob o patriarcado. Por vezes, é difícil romper com esse laço, escutar a verdade, não porque ela não reconhece, mas porque essa dependência lhe aliena. As mentiras lhe quebram a autoestima, lhe suplantam a liberdade, afastam de sua família, de seu suporte emocional que poderia lhe ajudar nessas horas.

Monstro Gentil é um filme doloroso de assistir e de escrever. Tentei, ao máximo, fazer uma crítica que não falasse desses homens. Nem que chamasse de monstro, nem citasse suas gentilezas para ocultar suas bondades. Eu quis falar de Marie, que fez o filme e como ela escolheu fazer, e quis falar de Lucy, que, de dentro, viveu.
Uma história que ali parece difícil de sair, mas ela precisou encontrar seus caminhos. Um filme não apenas sobre pedofilia na internet, mas principalmente sobre uma mulher que encontrou uma forma de sair desse ciclo de violência em que vivia.
Texto publicado para o Festival do Rio 2026
Confira o trailer completo:

