Quando o universo marginal de São Paulo encontra um cartunista com um traço próprio e uma narrativa ácida, o resultado é uma obra expressiva e cheia de nuances que poderia deixar qualquer diretor hollywoodiano de boca aberta. Esse é o caso de Risca Faca (Monstra), HQ assinada por André Kitagawa.
Risca Faca narra a história de Piru, que só quer saber de seu whey. Ryta, de seu passado glamouroso. Zoinha só quer se divertir. Jamorreu… Bem, essas são algumas das figuras que se entrecruzam nessa obra que marca o retorno triunfante de André Kitagawa aos quadrinhos.
A HQ possui três contos não lineares, amarrados no mesmo universo, ou seja, de alguma forma os personagens irão se cruzar. André Kitagawa, autor e cartunista de Risca Faca, lança luz ao universo marginal de grandes centros urbanos e traumas individuais de alguns personagens. Em sua narrativa, nenhum personagem está livre de vícios, traumas e defeitos, o que os humaniza e os coloca em uma narrativa mais realista e próxima de nós.
Suas narrativas possuem um humor ácido e uma forte crítica social que expõe problemas com estigma social, disparidade, espectador vicário — aquele que busca a sensação de realização vivendo a vida dos outros. Ao explorar personagens que não conseguem sair dos traumas e, por isso, vivem num ciclo de erros.


A estética de Kitagawa encontra em sua narrativa um traço econômico, preciso e com muita profundidade. Por estar falando de um universo marginalizado, Kitagawa escolhe trabalhar sempre numa paleta entre tons pretos e cinza. Seu estilo me remete a uma mistura entre os traços de Sergio Toppi, que combina milhares de traços finos e organizados, criando volume e cenários tridimensionais, e Lorenzo Mattotti, conhecido pelo uso direto de giz para construir a profundidade e a luz das cenas.
Um dos grandes diferenciais de Kitagawa em Risca Faca é a construção do cenário. É possível identificar alguns prédios de São Paulo, e em alguns casos o detalhe é tão preciso que chega a confundir se estamos falando de um desenho ou de uma foto em preto e branco.
Risca Faca é mais do que uma reunião de três contos: é um painel coeso e implacável sobre a vida nas margens. André Kitagawa equilibra humor ácido, crítica social e uma estética rigorosa para criar personagens que, mesmo marcados por vícios, traumas e derrotas, nos soam dolorosamente reais. Ao transformar São Paulo em cenário e, de certo modo, em personagem, o autor confirma seu retorno em grande estilo aos quadrinhos e entrega uma obra que merece ser lida, e relida, por quem busca uma HQ brasileira com identidade, profundidade e coragem. Risca Faca não oferece respostas fáceis nem consolo, mas oferece algo mais valioso: um espelho incômodo, desenhado com precisão cirúrgica.

