É curioso como a memória age em relação a certos episódios. Por exemplo: meus encontros com Marília Pêra. Fui reparar em sua existência pela primeira vez quando eu tinha 11 anos e um interesse desenfreado – hiperfoco não diagnosticado – pela novela “Começar de Novo”. O que justificava esse interesse? Talvez o fato de a mocinha, interpretada por Natália do Vale, se chamar Letícia como eu. Mas o que importa é que pela primeira vez vi atuando, num papel cômico como ela tanto gostava, Marília Pêra. Ela era Janis, a “Vó Doidona” que fazia par e palhaçadas com Luis Gustavo. Em um par de anos a encontraria novamente em outra novela das sete, “Cobras & Lagartos”, pela qual me interessei por causa da presença de um ator que hoje tenho entre meus amigos do Facebook – o que talvez não diga muita coisa. Mas o que importa é que conheci Marília através de sua veia cômica.
Pouco mais de dez anos mais tarde, Marília Pêra faleceu. Fiquei sabendo de um jeito único: a notícia foi proferida por uma colega no meio do laboratório de informática da PUC Minas, onde tínhamos mais uma aula do curso de pós-graduação em Comunicação e Marketing em Mídias Digitais. Enquanto outro colega, tentando fazer piada, comentou que “quem nunca morreu está morrendo”, eu me vestia de luto por dentro. Depois de meu primeiro encontro com a atriz, tive muitos mais. O mais recente foi com o documentário “Viva Marília”.
As primeiras imagens que vemos depois do título foram gravadas por Manoel Pêra, pai de Marília, imigrante português que aos 17 anos foi ser ator. Como outras tantas que nasceram nos bastidores – “Born in a trunk” é o termo para isso, e tem até música sobre – ela estreou no teatro quando precisaram de um bebê para uma cena e decidiram seguir com um bebê de verdade. A estreia oficial de Marília veio entretanto aos quatro anos, como a filha de Medeia, interpretada pela famosa atriz Henriette Morineau, que muito ensinou à juveníssima atriz.

Manoel, que aprendeu a atuar por intuição, não queria que a filha fosse atriz. Mas ela já estava decidida a tornar o nome da família Pêra conhecido por todos, nacionalmente. Antes disso, foi pianista por dez anos e bailarina na juventude, se apresentando em circo.
Em meados dos anos 60 e pelos anos 70 afora foi mocinha de incontáveis novelas da recém-inaugurada TV Globo. Foi na televisão que conseguiu chegar a milhões de lares, mas o fim do anonimato pesou e ela decidiu voltar a se dedicar ao teatro. Ela declara que o teatro brasileiro é um matriarcado, pois necessita de divas para adorar. Mesmo preferindo comédia à tragédia, Marília foi uma dessas divas.

Numa carreira de muitos pontos altos, um deles foi a participação na montagem da peça “Roda Viva”, aquela mesma do Chico Buarque, em pleno ano de 1968. Lidou com a censura e, mais tarde em entrevista, declarou que “o ator tem a obrigação de ser um revolucionário”. Nos palcos, ademais interpretou inclusive as canções de Carmen Miranda e Dalva de Oliveira.
A menina que estreou em fraldas no teatro demorou a fazer cinema, mas não por falta de vontade. Em seus primeiros trabalhos na sétima arte foi contida, mas extravasou em sua atuação em “Pixote, a lei do mais fraco” (1980) e isso lhe rendeu diversos prêmios, entre eles o National Society of Film Critics Awards.
Vendo “Viva Marília” me lembrei de seu papel em “Central do Brasil” (1997), sendo que ela é a personagem que convence Fernanda Montenegro como Dora a levar o menino Josué para conhecer o pai. Marília é quem coloca em movimento a trama de um dos filmes mais importantes da nossa História, um verdadeiro MacGuffin.
E qual não foi minha surpresa ao descobrir que Marília foi também diretora? No teatro, ficou nos bastidores dando forma, mesmo que ela declarasse que era uma tarefa dificílima, a diversos espetáculos, entre cômicos e musicais.

Como na infância, vida pessoal e profissional se misturam e se confundem. Ao falar sobre os cuidados com os três filhos, Marília diz que refletiu e percebeu que tudo, carreira e maternidade, eram parte da mesma coisa chamada vida. Os três herdeiros também seguiram carreira artística, mas sem carregar o sobrenome Pêra que a mãe tornou conhecido. Uma filha, Esperança Motta, é inclusive co-diretora do documentário.
A linha narrativa do documentário é tradicional, linear. Para contar os fatos, entrevistas da própria Marília são usadas, de modo que ela mesma narra sua história, com uma única exceção: um depoimento em áudio de Héctor Babenco contando como ela o havia chamado, no primeiro filme que fizeram juntos, de diretor cru! Fora isso, é Marília quem é dona de sua história.
Logo no começo, Marília declara que acha importante ser atriz porque é possível ser “contraditória, louca e rica” em cima de um palco, pois o mundo é também contraditório, louco e rico. Perto do final, de uma peça filmada vem a frase “espero que tenhamos deixado o mundo um lugar mais rico e mais sábio por ter escolhido o caminho da arte”. Com certeza, esse foi o caso de Marília Pêra, sobre quem devemos falar sempre: Viva Marília!
“Viva Marília” chega aos cinemas em 10 de setembro. Confira o trailer:
Ajude a manter o Nota vivo! Contribua no Apoia.se!


