Muitas vezes me pergunto qual o papel do artista no século XXI, o que ele está fazendo para uma sociedade “melhor”? Temos olhado para a arte com um foco de transformação social, ou apenas com um viés criativo focado no ego de quem produz?
O espetáculo Baal – O Mito da Carne conta a história do amor dilacerado entre Baal (Fonseca) e Ekart (Daniel Ortega), com referências ao tórrido romance vivido entre Rimbaud e Verlaine. Juntos, eles caminham pelo mundo deixando corpos e poesias por onde passam, ao mesmo tempo em que são consumidos por esse mundo. Formando um triângulo amoroso com Sophie (Stella Rocha), estendem ao público uma conturbada discussão dialética sobre empatia. “Baal e Ekart não se encaixam em nenhuma definição de gênero, e para eles pouco importa. Isso quer dizer que não é possível rotula-los, defini-los”, comenta o diretor. O espetáculo sugere que, numa sociedade controlada pelo capital, onde as atitudes se tornam mecânicas e insossas, só uma força transgressora pode despertar as pessoas para a vida.
A dramaturgia de Baal – O Mito da Carne revela-se de notável qualidade ao resgatar a radicalidade do texto juvenil de Brecht e atualizá-la para o século XXI, construindo uma narrativa em que o amor dilacerado entre Baal e Ekart, inspirado no romance de Rimbaud e Verlaine, funciona como dispositivo crítico contra a mecanização das relações e a moral burguesa. A recusa sistemática de rótulos de gênero e a ênfase na corporalidade como força vital transgressora conferem aos personagens uma complexidade que escapa ao maniqueísmo, ao mesmo tempo em que a discussão dialética sobre empatia exposta no triângulo amoroso com Sophie amplia o conflito para além do individual, inserindo-o numa crítica ao controle capitalista dos afetos.
Dessa forma, a peça mantém a essência da dramaturgia brechtiana — a desmistificação do artista como gênio superior e a devolução da poesia à vida material —, transformando-a em um espelho incômodo que questiona não apenas o papel da arte, mas a própria possibilidade de despertar para uma existência autêntica em um mundo embrutecido.

O elenco de Baal – O Mito da Carne possui uma grande qualidade na coesão com que os atores sustentam o distanciamento crítico proposto pela encenação, evitando a catarse e o envolvimento hipnótico do espectador para privilegiar uma postura de observação lúcida e questionadora. Ao mostrarem os personagens em vez de simplesmente encarná-los, o elenco demonstra domínio da teatralidade brechtiana, mantendo uma distância crítica que impede a identificação passiva e reforça a dimensão reflexiva da obra. O conjunto apresenta um trabalho de boa qualidade, com destaque para a segurança e a presença cênica de Lucas Costa e Stella Rocha, que conferem solidez à discussão dialética sobre empatia e à força transgressora que o espetáculo busca despertar no público.
A qualidade técnica de Baal – O Mito da Carne evidencia-se principalmente pela música ao vivo executada por Dedéco e Xantilee Jesus, que acompanha a encenação com notável precisão e, em alguns momentos, extrapola a função de trilha sonora ao integrar-se às atuações, ampliando a organicidade e a força transgressora do espetáculo. O figurino, desenhado por Olivia Albergaria e Stella Rocha, reforça essa dimensão ao propor um hibridismo entre indumentária do século XIX e design contemporâneo, criando uma visualidade anacrônica que dialoga diretamente com a recusa de rótulos e com a atualização da dramaturgia brechtiana. Dessa forma, a técnica não se limita a um papel ilustrativo, mas atua como elemento cênico-dramatúrgico que potencializa a crítica ao capital e a reflexão sobre empatia, colaborando para a construção de uma experiência estética coesa e provocadora.

A direção de Marcelo Marcus Fonseca destaca-se pela capacidade de articular organicamente todos os elementos do espetáculo em torno de uma mesma proposta crítica, sem que nenhum componente se sobreponha de forma isolada ou meramente ilustrativa. Ao conduzir a encenação para o distanciamento brechtiano, Fonseca garante que a recusa de rótulos de gênero, a corporalidade transgressora e a discussão dialética sobre empatia se traduzam em uma experiência cênica coesa, na qual a música ao vivo e o figurino híbrido deixam de ser apoios técnicos para se tornarem extensões do próprio discurso dramatúrgico. Essa organicidade permite que a crítica ao capital e à mecanização das relações seja construída não apenas pelo texto, mas pela própria arquitetura cênica, reforçando o convite do espetáculo a uma postura lúcida e questionadora diante da vida embrutecida.
Em suma, Baal – O Mito da Carne cumpre com rigor a provocação do jovem Brecht ao questionar a mentira fundamental da estética burguesa: a sacralização do artista como gênio, visionário ou profeta, que separa a arte da vida material e neutraliza seu potencial transformador. Ao devolver a poesia ao corpo, à voracidade e à imperfeição humana, o espetáculo recusa o pedestal inalcançável e afirma a arte como prática viva, enraizada nas contradições do presente. Nesse sentido, a montagem responde à pergunta que abre a resenha: o papel do artista no século XXI não é oferecer consolo ou elevação, mas desestabilizar as certezas, expor as mecânicas do capital e despertar o espectador para uma existência mais lúcida e autêntica. É exatamente essa força transgressora, articulada de forma orgânica pela dramaturgia, pelo elenco, pela técnica e pela direção, que faz de Baal um espelho incômodo e necessário.
Ficha Técnica:
Texto: Bertolt Brecht.
Dramaturgia e direção geral: Marcelo Marcus Fonseca.
Direção musical: Dedéco.
Elenco: Daniel Ortega, Marcelo Marcus Fonseca, Josemir Kowalick, Anna Bia Viana, Stella Rocha, Cristiano Sales, Isabella Imparato, Lucas Costa, Rafaella Thomé e Leonardo Chagas.
Assistência de direção: Stella Rocha.
Iluminação: Rodrigo Sawl e Isabella Imparato.
Música ao vivo: Dedéco e Xantilee Jesus.
Trilha mecânica: Marcelo Marcus Fonseca e Dedéco (edições).
Versão das músicas: Wanderley Martins.
Versão das canções “A Moça Afogada” e “Canção da Privada”: Marcelo Marcus Fonseca.
Figurinos e adereços: Olivia Albergaria e Stella Rocha.
Costureira: Tereza Valério.
Fotos: Kym Kobayashi.
Assessoria de imprensa: Eliane Verbena.
Produção: Vanda Dantas e Marcelo Marcus Fonseca.
Realização: Teatro do Incêndio

