Embaixador norte-americano no Brasil durante a deposição de João Goulart foi um dos principais defensores, em Washington, do apoio à ruptura democrática. Universidade considerou incompatível manter homenagem concedida durante a ditadura
Mais de seis décadas depois do golpe que derrubou o presidente João Goulart e deu início a 21 anos de ditadura militar no Brasil, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) decidiu retirar uma de suas maiores honrarias de um personagem diretamente associado à participação dos Estados Unidos na ruptura democrática de 1964.

O Conselho Universitário (Consuni) aprovou por unanimidade, na última quinta-feira, a cassação do título de Doutor Honoris Causa concedido ao diplomata norte-americano Lincoln Gordon, embaixador dos Estados Unidos no Brasil entre 1961 e 1966 e figura central na articulação do apoio de Washington ao golpe.
A proposta havia sido apresentada pelo Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) em 2024. Ao justificar a decisão, a UFRJ considerou que continuar homenageando Gordon seria incompatível com os princípios democráticos e de defesa dos direitos humanos que orientam uma universidade pública.
“A revisão da homenagem não implica apagamento histórico nem censura, representa o reconhecimento de que uma universidade pública pode preservar criticamente sua memória institucional, distinguindo entre estudar historicamente determinado personagem e manter-lhe uma distinção honorífica institucional”, afirmou no parecer a relatora do processo, Gilda Avarenga.
A distinção é importante. A decisão não pretende retirar Gordon dos livros de história – algo que seria, além de absurdo, impossível. Ao contrário: é justamente o que se conhece hoje sobre sua participação nos acontecimentos de 1964 que levou a universidade a concluir que não havia razão para continuar lhe concedendo uma homenagem.
O embaixador americano e o golpe de 1964
Lincoln Gordon chegou ao Brasil em 1961, indicado pelo governo do presidente norte-americano John F. Kennedy. Economista formado por Harvard e diplomata experiente, permaneceu no posto durante a crescente crise política do governo João Goulart e se transformou em um dos principais interlocutores entre setores da oposição brasileira e Washington.

O período coincidia com um dos momentos mais tensos da Guerra Fria. A Revolução Cubana de 1959 havia alterado profundamente a política dos Estados Unidos para a América Latina, e Washington passou a enxergar governos reformistas da região sob a lente permanente do temor de uma expansão comunista.
Goulart não era comunista. Seu governo, entretanto, defendia as chamadas Reformas de Base, um conjunto de propostas que incluía reformas agrária, urbana, bancária, fiscal e educacional. Em meio à polarização do período, essas políticas foram apresentadas por seus adversários como sinais de uma suposta radicalização revolucionária.
Gordon desempenhou papel importante nessa leitura. Comunicações diplomáticas posteriormente conhecidas e a documentação histórica sobre a atuação dos Estados Unidos no período demonstraram a participação ativa da administração norte-americana na crise que culminaria na derrubada de Goulart. Gordon defendia em Washington uma avaliação particularmente alarmista da situação brasileira e apoiava setores que se opunham ao presidente.
Quando os militares se movimentaram contra o governo no fim de março de 1964, os Estados Unidos estavam preparados para ajudá-los. A manifestação mais explícita dessa disposição recebeu o nome de Operação Brother Sam.
Operação Brother Sam
Preparada pelo governo norte-americano, a operação previa apoio logístico às forças que se levantaram contra João Goulart caso encontrassem resistência suficiente para transformar o golpe em um confronto prolongado.
Uma força naval foi mobilizada em direção à costa brasileira, com previsão de fornecimento de combustível e outros recursos aos golpistas. O apoio acabou não sendo necessário: Goulart optou por não desencadear uma resistência armada, e o golpe avançou rapidamente.
O fato de a operação não ter chegado a intervir diretamente no território brasileiro não diminui sua importância histórica. A Brother Sam demonstrava que Washington estava disposto a dar suporte material ao movimento que derrubaria um presidente constitucional.
Gordon teve papel relevante nos preparativos e na articulação política que antecedeu a operação.
O governo de Lyndon B. Johnson, que havia assumido a Presidência dos Estados Unidos após o assassinato de Kennedy em novembro de 1963, reconheceu rapidamente o novo governo brasileiro. O golpe de 31 de março e 1º de abril inauguraria uma ditadura que permaneceria no poder até 1985.
João Goulart deixou o país. Direitos políticos foram cassados, opositores passaram a ser perseguidos e as instituições democráticas foram progressivamente desmontadas. Nos anos seguintes, prisões políticas, torturas, assassinatos e desaparecimentos fariam parte da máquina repressiva do Estado brasileiro.
Foi nesse regime que Lincoln Gordon recebeu a homenagem da UFRJ.
Uma homenagem concedida durante a ditadura
O título de Doutor Honoris Causa foi concedido a Gordon em 1968, quatro anos depois do golpe e dois anos após o encerramento de seu período como embaixador.
Há, aliás, uma correção histórica importante em relação ao texto que serviu de base para esta matéria: 1968 já não correspondia ao governo de Humberto de Alencar Castelo Branco, que deixou a Presidência em março de 1967. O presidente naquele momento era Arthur da Costa e Silva.

E 1968 se tornaria precisamente um dos anos mais violentos e decisivos da ditadura.
Foi em dezembro daquele ano que o governo Costa e Silva decretou o Ato Institucional nº 5, o AI-5, instrumento que aprofundou radicalmente o caráter repressivo do regime. O ato permitiu, entre outras medidas, o fechamento do Congresso Nacional, a cassação de mandatos e a suspensão de direitos políticos e do habeas corpus para determinados crimes políticos.
As universidades também foram atingidas pela repressão. Professores foram perseguidos e afastados, estudantes presos e organizações estudantis reprimidas. A própria UFRJ, portanto, não permaneceu à margem da estrutura autoritária que governava o país no momento em que Gordon recebeu sua homenagem.
É sob essa perspectiva que o Conselho Universitário decidiu reavaliar o título mais de meio século depois.
“A Constituição Federal de 1988 estabeleceu a democracia, a dignidade da pessoa humana e a prevalência dos direitos humanos como fundamentos da República. A manutenção de homenagem oficial à personalidade com atuação relacionada ao apoio da ruptura da ordem democrática mostra-se contraditória com esses mesmos princípios constitucionais”, afirma o parecer.
Não é a primeira cassação na UFRJ
Lincoln Gordon também não é a primeira personalidade associada à ditadura a perder um título honorífico concedido pela UFRJ.
Em 2015, a universidade cassou a homenagem concedida ao general Emílio Garrastazu Médici, presidente do Brasil entre 1969 e 1974 e responsável pelo governo que coincidiu com alguns dos anos de maior repressão política do regime.
Médici posteriormente perdeu honrarias semelhantes em outras instituições brasileiras. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) cassou seu título em 2022, e a Universidade Federal de Pelotas (UFPel), em 2024. Em 2025, decisões semelhantes foram tomadas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
Em 2021, a própria UFRJ retirou o título de Doutor Honoris Causa de Jarbas Passarinho, ex-ministro e ex-senador que integrou o governo militar e foi um dos signatários do AI-5.

Outros presidentes da ditadura também tiveram títulos cassados por universidades brasileiras, entre eles Castelo Branco, Costa e Silva e Ernesto Geisel.
As decisões fazem parte de um processo mais amplo de revisão da memória institucional das universidades. Durante a ditadura, instituições de ensino não foram apenas espaços atingidos pela repressão: como organismos submetidos ao Estado e às relações políticas de cada período, também concederam títulos e homenagens a integrantes e aliados do regime.
Reexaminar essas distinções décadas depois significa confrontar essa parte de sua própria história.
Das homenagens aos responsáveis aos diplomas das vítimas
O movimento ocorre também no sentido contrário. Enquanto universidades retiram homenagens concedidas a figuras associadas à ditadura, algumas instituições passaram a reconhecer postumamente estudantes e professores que tiveram suas trajetórias acadêmicas interrompidas pela perseguição política.
Em julho, a UFRJ concedeu postumamente o diploma de bacharel em Ciências Econômicas a Stuart Angel Jones, estudante da instituição assassinado pela ditadura em 1971.
Filho da estilista Zuzu Angel, Stuart militava contra o regime e foi preso por agentes da repressão. Seu corpo jamais foi entregue à família. Zuzu transformou a busca pelo filho em uma campanha pública contra a ditadura brasileira, inclusive no exterior, até morrer em um acidente de carro em 1976.
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A Comissão Nacional da Verdade concluiria décadas depois que sua morte não foi acidental e que agentes da repressão participaram do atentado.
Em fevereiro deste ano, a Universidade de São Paulo (USP) aprovou também a concessão do título de Doutor Honoris Causa ao jornalista Vladimir Herzog, assassinado em 1975 nas dependências do DOI-Codi, em São Paulo.
Na época, os órgãos da repressão alegaram que Herzog havia cometido suicídio. A versão oficial tornou-se um dos símbolos mais conhecidos das tentativas da ditadura de encobrir torturas e assassinatos de presos políticos.
Esses reconhecimentos não devolvem às vítimas as carreiras, os anos ou as vidas que lhes foram retirados. Funcionam, porém, como uma correção institucional possível décadas depois: universidades que atravessaram o período autoritário podem decidir quem continua ocupando seus espaços simbólicos como homenageado e quem merece ter finalmente reconhecido aquilo que a repressão lhe impediu de concluir.
Memória não é homenagem
A decisão envolvendo Lincoln Gordon toca ainda em uma discussão recorrente sempre que instituições retiram nomes de prédios, monumentos ou honrarias concedidas no passado: a acusação de que essas revisões representariam uma tentativa de apagar a história.
O parecer da UFRJ responde diretamente ao argumento ao separar duas coisas bastante diferentes: lembrar alguém historicamente e homenageá-lo institucionalmente.
Cassando o título, a universidade não altera documentos de 1968, não elimina Gordon dos arquivos e muito menos nega sua importância histórica. A participação do embaixador norte-americano na conjuntura que levou ao golpe continua sendo objeto de pesquisa, ensino e debate.
A diferença é que um título de Doutor Honoris Causa não é um documento neutro sobre o passado. Trata-se de uma distinção concedida por uma universidade a alguém que considera digno de reconhecimento excepcional.
No caso de Gordon, o conhecimento histórico acumulado desde 1964 torna particularmente difícil separar a trajetória do diplomata da intervenção norte-americana que ajudou a derrubar um governo constitucional brasileiro.
Sessenta e dois anos depois do golpe e 58 anos depois da concessão do título, a UFRJ decidiu que preservar sua memória não exige preservar também a homenagem.

