Se “Divertidamente” fosse um filme sobre a cabeça do Michel Melamed, um dos roteiristas bem que poderia ser Samuel Beckett. A repetição, a ironia e a obsessão em “furar” a palavra e encontrar o que está detrás são parte do vocabulário usado para escrever “O Funcionário Que Pede Para Não Ser Identificado”.
O novo espetáculo do poeta, ator e diretor carioca está em cartaz no Sesc Consolação, em São Paulo, e, aparentemente, trata de um departamento responsável por aprovar ou reprovar ideias. A criatividade do mundo morreu. As funcionárias não criam nada, mas tiveram a ideia definitiva: criar “a obra de arte total, feita da colagem de todas as obras já recusadas no maldito setor”.
Para dar forma a algo tão abstrato, Melamed dinamita a própria forma, criando um musical esquisito que alterna entre o lúdico e o constrangimento, com letras e melodias que apertam os nossos ouvidos que nem um tapa.

Talvez essa seja uma das suas grandes qualidades. “O Funcionário Que Pede Para Não Ser Identificado” aborda a criatividade de maneiras tão variadas e surpreendentes que a plateia não consegue se dispersar. Está sempre tomando um susto, um “apavoro.
Inez Viana, Simone Mazzer, Thalma de Freitas e Yasmin Gomlevsky interpretam cada um dos personagens com tanta energia que não dá pra eleger um destaque. Se a primeira aparição do grupo me remeteu a Dias Felizes, de Beckett, o momento em que Thalma toma de assalto a plateia cantando “Cordeiro de Nanã”, dos Tincoãs, desenterrou qualquer certeza sobre o que estava por vir. Foi uma das cenas mais bonitas que já vi no teatro.
Espetáculo infantil “A Menina e a Árvore” é uma pequena grande aventura sobre coragem, imaginação e descobertas
A arte e o que fazer com ela – ou a dúvida sobre a sua função no mundo – doam as tintas para Melamed colorir seus tormentos. Alguns deles, inclusive, podem até ser divididos com o espectador: a IA vai substituir a criação? E o que isso tem a ver com o quem assiste?
A cena em que as atrizes conversam com uma inteligência artificial, por exemplo, serve para questionar a própria pergunta, já que há algo de misterioso no processo criativo. Sim, uma IA pode ter milhares de referências, mas o que transforma cada uma delas em algo genial, repulsivo, escandaloso, impactante ou tedioso não cabe num código.
Se a arte é necessária pra vida, é porque não existe uma chave para apertar os parafusos da cabeça do artista. “No universo do utilitarismo, um martelo vale mais que uma sinfonia, uma faca mais que um poema, uma chave de fenda mais que um quadro: porque é mais fácil compreender a eficácia de um utensílio, enquanto é sempre mais difícil compreender para que podem servir a música, a literatura ou a arte”, escreve Nuccio Ordine no livro “A utilidade do inútil: Um manifesto”

Em uma das melhores cenas do espetáculo, a “Obra de Arte Total e “O Monstro das Ideias Horríveis” duelam para definir o que é criatividade. A cada nova repetição de “criatividade para mim é…” crescia a sensação geral de despencarmos dentro de um buraco negro. E talvez seja isso mesmo a criatividade, uma infinitude finita. Ou o contrário. Ou então uma poesia jogada no chão, quebrada em milhões de cacos justamente para gente cortar o pé.
Criatividade pra mim é o que eu vi no Instagram: Keichan, um pianista japonês, transformou o toque de um celular no meio do seu concerto em uma melodia fulminante.
Não importa o que a criatividade seja. O jogo não é pra definir.
“O Funcionário Que Pede Para Não Ser Identificado” mostra um pouquinho do quanto a arte é a viga que sustenta a coisa toda. Sem esse encantamento, o mundo seria uma repartição pública incurável. Então não é função do espetáculo, do texto, da direção ou das atrizes mastigar as cenas. O palco é o convite ao público que a equipe inteira faz. Do som à contrarregra, dos ótimos figurinos de Maika Mano e Penha Maia à cenografia de José Cohen e Lucila Belcic, de Carlinhos Brown à “Fernanda Montedrones”, a montagem quer (talvez) provocar esse público tão programado, super conectado e consciente do mundo a sua volta.
Sentido? Quem liga para isso. O barato está em sentir.
FICHA TÉCNICA
Elenco: Inez Viana, Simone Mazzer, Thalma de Freitas e Yasmin Gomlevsky
Texto, canções e direção: Michel Melamed
Assistente de direção: Luisa Espindula
Cenografia e adereços: José Cohen e Lucila Belcic
Figurino: Maika Mano e Penha Maia
Luz: Adriana Ortiz
Arranjos e coreografias coletivos
Cenotécnico: André Salles
Cenotécnico de luz: Humberto Junior
Técnicos de montagem de luz: Bernardo Bastos e Rodrigo Lopes
Operador de luz: Bernardo Bastos
Operador de som: Rafaelsom Costa
Arte: Grave
Fotos de divulgação: Bruna Sussekind
Assistente de fotografia: Gui Ferrazz
Make: Cidoca Nogueira
Fotos de cena: André Mantelli
Filmagem: Chamon Audiovisuais
Assessoria de imprensa: Daniella Cavalcanti
Produção executiva: Roberta Dias
Assistente de produção: Guilherme Del Piero
Produção: Vocêu

