Em 1922, o Conde Aleksandr Ilitch Rostov comparece diante de um tribunal bolchevique e é condenado — não ao fuzilamento, como seria de esperar de um aristocrata russo no auge do expurgo pós-revolucionário, mas à prisão domiciliar perpétua no Hotel Metropol, um dos mais suntuosos de Moscou, onde já havia se instalado por conta própria.
Alguns escalões do Partido o consideram um herói pré-revolucionário por conta de um poema de juventude, o que o torna difícil de eliminar sem constrangimento; o Metropol é suficientemente luxuoso para que confiná-lo lá pareça uma complacência e suficientemente fechado para que constitua, de fato, uma prisão. Se sair, será baleado.

Assim começa Um Cavalheiro em Moscou, o segundo romance de Amor Towles, publicado em 2016 — e assim começa também uma das mais generosas, engenhosas e, em última análise, profundas meditações sobre o que significa viver uma vida que vale a pena que a ficção contemporânea produziu nos últimos vinte anos.
A premissa tem uma qualidade que imediatamente separa o livro da maior parte do que o circunda nas prateleiras: em vez de seguir o arco habitual do protagonista que parte ao mundo em busca de algo, Towles escolhe a imobilidade radical, e faz dela o motor de tudo. Rostov não vai a lugar nenhum; é o mundo que vem até ele. Durante a narrativa, o Conde envelhece de seus trinta e tantos anos até os sessenta e poucos sem pisar além da soleira do Metropol — e enquanto ele permanece, a Rússia inteira – e o mundo inteiro – atravessa o saguão, sobe as escadarias, senta-se às suas mesas.

É 1922, e a revolução acabou de se consolidar; é 1930, e Stalin está se firmando no poder; é 1941, e a Alemanha invadiu; é 1953, e Stalin morreu; é 1954, e algo, vagarosamente, começa a mudar. O Metropol é a Rússia em miniatura, e Rostov — que lê os jornais, escuta as conversas, observa quem entra e quem sai, conversa com hóspedes, presta atenção em quais vinhos desaparecem do cardápio e quais títulos somem das prateleiras — é seu cronista mais involuntário e mais preciso.
Isso é o que o livro faz estruturalmente, e é já uma conquista considerável; mas o que torna Um Cavalheiro em Moscou algo além de um romance histórico inteligente é o que Towles faz com a interioridade de seu personagem diante dessa situação. Rostov é, desde o início, um homem de gostos refinados e educação vasta — conhece vinhos, poesia, gastronomia, línguas, literatura, história; é o produto da cultura e do ócio de uma classe que a revolução liquidou com intenção declarada e eficiência considerável — e a questão central dos primeiros capítulos é: o que acontece com um homem assim quando tudo aquilo que definia sua posição no mundo desaparece e o que sobra é um quarto de sótão de nove metros quadrados, o acesso ao restaurante do hotel, e a proibição de sair?
A resposta de Towles, desenvolvida com uma paciência e uma leveza que recusam o melodrama a cada esquina, é que o que acontece depende inteiramente do que o homem decide fazer com isso — e é aí que o livro revela sua verdadeira aposta: a tese de Rostov, explicitada logo no início de seu confinamento, é que “um homem deve dominar suas circunstâncias, ou será dominado por elas.”

Rostov não colapsa, não amargura, não se deprime, não se converte em um ressentido que passa os anos ruminando o que perdeu; tampouco Towles o torna implausivamente sereno, como se a resignação fosse uma forma de sabedoria. O que o Conde faz, de maneira determinada e natural, é escolher, continuamente e com uma consciência crescente de que se trata de uma escolha, quais aspectos da vida dentro daquelas paredes merecem atenção, cuidado, e o que o narrador chama, em certo momento, de “entusiasmo”..
O Conde aprende a ser maître do restaurante do hotel, não por necessidade econômica mas porque percebe que aquele é um trabalho que permite observar, conectar, servir, usar seus conhecimentos — e que tem, portanto, uma dignidade própria, independente de qualquer hierarquia social que a revolução tenha ou não abolido.
Ele cultiva amizades com o cozinheiro, com a costureira do hotel, com o gerente, com os hóspedes; envolve-se com uma estrela de cinema soviética, faz amizade com um jornalista americano, reencontra amigos aristocratas que se tornaram músicos e professores, e desenvolve um relacionamento improvável de professor e aluno com um agente de Stálin que precisa se tornar mais refinado; torna-se, em suma, parte de uma comunidade pequena e improvável, e encontra nessa comunidade algo que sua vida anterior, com toda a sua liberdade e todos os seus privilégios, talvez não lhe tivesse dado com a mesma intensidade.
O ponto de inflexão mais importante da narrativa em relação aos relacionamentos do Conde, porém, reside em duas crianças – as meninas Nina e Sofia, a primeira mãe da segunda.

Nos primeiros anos de sua prisão, o Conde conhece Nina, uma garota com predileção por amarelo que reside no Hotel e conhece todos os seus segredos. Nina abre portas – metafóricas e literais; ela tem uma chave mestra, roubada de uma camareira – para Aleksander, levando-o desde o depósito de objetos perdidos – onde Aleksander pode encontrar livros, curiosidades e até mesmo mobília para seus novos aposentos – até o salão de baile, onde, escondidos em uma varanda, os dois podem acompanhar reuniões políticas do partido. Nina, além de se tornar sua amiga, dá ao Conde os primeiros meios de ver sua nova vida por outros olhos: os olhos de uma criança curiosa, inteligente e, também de sua própria maneira, confinada.
Anos mais tarde, em circunstâncias muito distintas, o Conde retribui o favor tornando-se responsável pela filha de Nina, a pequena Sofia, deixada temporariamente no hotel e depois nunca buscada. Essa responsabilidade transforma o que era uma vida de refinada resistência individual em algo com uma dimensão completamente diferente; não porque Sofia resolva algum problema do Conde, mas porque a presença de uma criança que depende de alguém é, por definição, uma ancoragem no futuro, uma razão para pensar além de si mesmo e além do presente. Rostov, que há anos não tinha família alguma, de repente torna-se, por acidente, pai – e nas circunstâncias mais estranhas.
A relação entre os dois é escrita com uma ternura que nunca escorrega para o sentimentalismo, porque Towles tem o cuidado de fazer de Sofia um personagem com sua própria vontade e sua própria inteligência — ela não existe para iluminar o Conde, embora acabe por fazê-lo; existe, antes de tudo, por conta própria. Nos primeiros anos, o Conde precisa aprender não apenas a se adaptar à sua nova realidade, mas também a tornar o hotel um lugar adequado para uma criança; mais tarde, seu trabalho é ajudar Sofia, que se torna uma pianista exímia, a sair desse confinamento – mesmo que precise abrir mão dela.

O Hotel Metropol real, que existe em Moscou desde 1905, foi durante décadas um dos pontos de convergência da vida política e cultural soviética — hospedou delegações estrangeiras, serviu de sede temporária para instâncias do governo bolchevique nos primeiros anos após a revolução, e manteve, ao longo de tudo isso, uma espécie de aura de outro tempo que o tornava simultaneamente atraente e suspeito para o regime.
Towles usa essa ambiguidade histórica com inteligência: o Metropol do livro é um espaço onde as regras do mundo exterior entram, mas entram sempre com algum atraso e alguma distorção — como se as paredes do hotel amortecessem, sem eliminar, o impacto de tudo que acontece lá fora. Os vinhos georgianos desaparecem do cardápio quando a Geórgia é incorporada à União Soviética; hóspedes estrangeiros ora são permitidos, ora barrados; reuniões do partido ocorrem em seus salões, e a ordem dos lugares indica os desígnios da política interna. O hotel é frequentado por políticos, militares, espiões, jornalistas, músicos e celebridades, e cada um diz algo sobre o estado do mundo lá fora.
Rostov observa tudo isso com a atenção específica de um homem curioso, inteligente e cativante que não pode ir verificar as coisas por conta própria e, portanto, aprendeu a ler os indícios — e o leitor, através dele, vai montando um panorama da história soviética que tem, precisamente por ser oblíquo e filtrado, uma qualidade de veracidade que a narrativa histórica direta raramente consegue reproduzir.
Towles é um escritor de frases longas e dicção ligeiramente formal — há uma qualidade deliberadamente antiquada em sua prosa, como se o narrador compartilhasse algo do temperamento do Conde e achasse que a elegância é uma postura que se mantém independentemente das circunstâncias —, e essa escolha de estilo torna o livro particularmente delicioso. O Conde tem um excelente senso de humor, e esse senso de humor aparece também na narração. Sua observações são afiadas, seus personagens cativantes, e seu texto absolutamente encantador.
A história é muito mais sobre personagens do que sobre narrativa – que permanece razoavelmente low stakes pela maior parte do romance, salvo o final; tem, de certa forma, um espírito de seriado antigo com dezenas de episódios — cada capítulo tem seu próprio andamento, suas próprias tonalidades, e o prazer de lê-lo é, em parte, o prazer de reconhecer como cada movimento se encaixa no seguinte. Muitas vezes, cada um deles narra um episódio aparentemente isolado da existência do Conde e de outros personagens dentro do hotel. No final, muitos deles terão se provado mais importantes do que o esperado.
Esse estilo pode decepcionar leitores que chegam ao livro esperando uma narrativa mais propulsiva; para quem se dispõe a entrar no seu ritmo e acompanhar a vida de um homem cativante, entretanto, a experiência é de uma rara satisfação. Através de guerras, ditaduras, reestruturações, amizades, inimizades e amores, Um Cavalheiro em Moscou atravessa trinta anos de história sem nunca deixar de ser, antes de tudo, a história de um homem excepcional em sua leveza, auto-controle e bom-humor. Afinal, aos olhos de Towles, a vida comum – ou, nesse caso, uma vida das mais incomuns, não necessariamente no bom sentido – pode ser extraordinária, e vivida de forma digna e, quem sabe, genuinamente boa, se olharmos com atenção.
O que Um Cavalheiro em Moscou argumenta, em última análise — e é um argumento que emerge do acúmulo da narrativa em vez de ser declarado em qualquer frase ou cena isolada — é que a liberdade de movimentação é apenas uma das formas possíveis de liberdade, e possivelmente não a mais fundamental. Rostov não pode sair do Metropol, mas dentro dele decide, com uma meticulosidade que vai se tornando mais consciente ao longo dos anos, o que ama, o que cultiva, o que protege, o que recusa, com quem fala e o que faz; decide, acima de tudo, quem quer ser diante das circunstâncias que não escolheu.
Há algo de estoico nessa visão — Marco Aurélio habitaria o Metropol com semelhante compostura, embora com menos prazer nos vinhos —, mas Towles não deixa que o livro se torne uma parábola filosófica; mantém Rostov suficientemente humano, com seus momentos de desânimo, suas impaciências, seus apegos, suas perdas genuínas, para que o que ele representa não se converta em abstração.
O Conde não é um sábio; é um homem que aprendeu, por necessidade e por escolha, a viver bem dentro dos limites que o mundo lhe impôs — e o que o livro sugere, sem jamais insistir no ponto com mais força do que o necessário, é que essa aprendizagem talvez seja, no fim das contas, o trabalho central de qualquer vida: o de encontrar alegria, interesse, beleza e propósito através do esforço deliberado, e da incansável vontade humana de resistir, amar e viver.

