Um dos maiores pensadores do teatro no século XX, Antonin Artaud, escreveu em seu livro “O Teatro e seu Duplo”, um dos textos mais seminais para quem quer desfazer uma compreensão tradicional sobre a nossa relação com as obras-primas. No texto-manifesto “É preciso acabar com as obras-primas”, Artaud sentencia que a nossa relação com os clássicos é sempre hierarquizada e isso, de certa forma, sufoca nossa criação viva, o que nos impede de ter uma relação direta com os sentimentos do presente.
Acabar com as obras-primas para Artaud não significa não considerá-las como importantes, ao contrário, mas é ter uma relação de aproximação com elas não pelo que as constituiu em monumentos do passado, mas naquilo delas que ainda faz sentido no presente. Afinal, por que elas ainda estão vivas? O que elas ainda nos dizem? O que há de contemporâneo em um clássico? Pois é desencaixá-las da tradição para vê-las redizer tudo em outros tempos. Acredito que este é o procedimento que Gilberto Arsiolli mais faz uso em seu romance Capitolina.

Capitolina é uma adaptação do romance Dom Casmurro de Machado de Assis feita pelo autor sul-matogrossense Gilberto Arsiolli. Nascido em Três Lagoas, o escritor que atualmente vive em Brasília é também autor do romance “Volte Quando o Eco Acabar” e do livro de poesias “Poemas para Assistir ao Fim do Mundo”.
No caso de Capitolina, Gilberto faz como propõe Artaud: desmonta a narrativa tradicional de Machado e remonta um novo romance: aqui, quem narra a história é Capitu. Porém, a própria narrativa inteira é outra, sobrando pouca, ou apenas verossimilhanças ou similaridades da história tradicional que são apenas a própria estrutura básica: a família de Bentinho: Dona Glória, Pedro de Albuquerque, Tio Cosme, Prima Justina e, claro, o Agregado José Dias; a família de Capitu, o Senhor Pádua e Dona Fortunata e claro, o triângulo amoroso entre Capitu, Bentinho, Escobar, além de seu filho. Mas não só…o que vamos ver são personagens marcantes da história do Brasil do começo do século XX e mais outros inventados e imaginados pelo próprio autor.
Dividido em 8 partes e 486 páginas, o livro começa quando Ezequiel, pretensamente filho de Bentinho e Capitu, que estava em trabalho de escavação no Cairo, no Egito, local em que sua mãe Capitolina teria morrido, encontra duas caixas com seus diários. Diante de seus colegas de trabalho, finalmente Ezequiel pode ler a versão de sua mãe da história. Esta, naquela narrativa, é um momento-chave, pois durante a vida ele só havia conhecido a versão de Dom Casmurro, livro que havia ficado famoso durante sua infância. É em voz alta, então, a partir de uma narrativa oral, diante da incerteza do deserto que muda com os ventos e os humores da natureza, que descobrimos a versão dos fatos de Capitu.
Na narrativa de Gilberto, porém, a história não se passa no Rio de Janeiro, mas em São Paulo, nem tampouco na Rua de Matacavalos, mas na Rua das Ciganas, uma rua muito mais afeita aos ares de Capitu, em que os primeiros ares da narrativa de uma das personagens mais intrigantes da história da literatura brasileira será narrada.
E esta é uma das propostas que chamam a atenção em Capitolina: a todo instante, nos deparamos com um projeto de invenção e imaginação de uma história diversa da original à qual estamos acostumados. Gilberto escreve sua Capitolina, inventa, imagina, tece, amarra, arruma, arranja, sim, mas não contra ela, mas tal como uma paródia. E digo uma paródia no melhor sentido do conceito grego: para – ao lado – odes – canto: algo que vai sendo cantado ao lado; que vai ativando nossa memória do original, mas que passa ao largo com suas (des)semelhanças.
É um procedimento curioso de se ler que ainda não me tinha deparado em literatura que faz releituras dos clássicos – e que funciona em muitos aspectos. Traz frescor, traz novidades e mais que isso: melhora tanto o original quanto a releitura, pois deixa ambos vivos e ativados em nossa memória. Voltando ao texto.
Enquanto narradora, Capitu é descrita como uma menina e uma mulher administradora. Que desde jovem aprende a mediar a vida e, principalmente, a presença masculina que dominava o mundo. Sem ser afeita a sentimentos, ela comandava aqueles que os sentiam, principalmente os que sentiam demais, como Bentinho. Gilberto descreve-a, assim:
“Eu era magra, viva, morena de sol e de rua, com cabelos que davam trabalho e uma impaciência natural contra o que me quisesse apertada demais. (…) Não era exatamente bonita no modo pacífico das meninas que inspiram bênçãos; mas era dessas que chamam atenção sem pedir licença. Isso inquietava umas senhoras e atraía quase todos os meninos. A fama veio logo, embora em escala de bairro.”
Em seguida, ela trata da fama que foi sendo construída dela no bairro, aquilo que constituiu muito também a memória de Bentinho para uma futura suspeita de traição:
“Não era fama de pecadora, como mais tarde alguns gostariam de me dar, mas de menina desembaraçada. Eu sabia conversar com os garotos sem baixar os olhos ao primeiro gracejo; sabia rir deles sem crueldade; e recompensá-los com um favorzinho calculado”
E por fim, como que Capitu foi desenvolvendo o seu talento principal, e aí entra a literatura como ponto principal da questão: a linguagem como vetor de transformação. Capitu passou a dominar a linguagem:
“O mundo estava organizado para ser administrado por homens; eu, que não podia mandar no mundo, exercitava-me nos seus aprendizes. Não se pense, porém, que eu fazia de tudo mero jogo. Havia em mim gosto sincero pela companhia, pela disputa, pela circulação. Eu preferia a conversa ao bordado, o exame à obediência mecânica. Gostava de saber o que se dizia de uma família, por que uma moça fora bem-casada e outra malvista; por que certa viúva recebia muitas visitas e pouca estima; por que um sobrenome abria janelas e outro fechava salões.”
Por outro lado, a visão de Capitu para Bentinho era toda feita a partir de um recorte de classe. Bentinho era quem era porque não precisava ser outro: sua família e seu dinheiro permitiam que ele fosse assim, um menino sensível a quem era permitido não dar as caras na rua, a quem era permitido ser protegido, a quem podia ter medos excessivos:
“Se eu fosse injusta, diria apenas que Bento era um bobo. Como procuro ser exata, direi melhor: era um menino criado para não precisar entender depressa. E isso, nas casas ricas, produz criaturas muito semelhantes à inocência.
A inocência verdadeira é rara; o costume de ser poupado, não. Bento fora poupado de apertos, de negativas secas, de humilhações miúdas, de contar tostões, de ouvir atrás da cortina coisas que aprendi a ouvir desde a infância.
Por isso parecia mais puro do que era.
A pureza, nele, tinha muito de proteção.”
Na versão de Capitu, Capitolina é um romance sobre um triângulo amoroso entre Bentinho, Capitu e Escobar. O romance é deslocado do século XIX para o começo do século XX e a bissexualidade de ambos é explícita e marcante, embora o termo não apareça no livro. Capitu é uma militante feminista, Bentinho faz carreira política no direito, subindo aos tribunais, enquanto Escobar se torna um grande empresário.
Diante dessa relação, temos também um ambiente político e cultural efervescente: Gilberto nos dá um panorama cultural da Semana de 22, sendo um dos personagens principais e possíveis amantes de Capitu, o atraente Oswald de Andrade. Capitu, inclusive, chega a compará-lo a Bentinho:
“Oswald de Andrade era o contrário de Bento em quase tudo, exceto numa coisa essencial: ambos queriam ser autores publicados. Oswald queria-o com riso, escândalo, jornal, frase bem dada, caricatura, fumaça e teatro. Bento queria-o com diploma, tribuna, citação e argumentação jurídica. Foi assim que se aproximaram.”

A formação da figura de Capitu, a que tem olhos de ressaca, é menos misteriosa no livro do que aparece em outros: ela é quem decide mediar a relação entre Escobar e Bento. Do amor dos dois, entre o cerebral Escobar e o sensível Bento, ela é o eixo. Quando Bentinho começa a demonstrar ciúmes irascíveis, inclusive fazendo cenas patéticas e imaginando cenários a ponto de romper com Escobar, Capitu silencia não por medo, mas por cálculo.
Após a morte de Escobar, Bento começa a se transformar a tal ponto que, e aí chega ao momento mais curioso do romance, em que vamos conhecer como nasce o tal Dom Casmurro. Com o perdão do SPOILER, é quando se gera o que chamamos de efeito Droste em que há um romance dentro do romance, dentro de um romance: Bentinho é internado em uma clínica de um Alienista cujo médico é conhecido como Dom Casmurro. Ali, o tratamento é que se escreva sua história até o fim para que na escrita se reconheça seu passado: é ali que Bentinho reconstrói sua história de ciúmes.
O que ele não contava é que sua versão puramente terapêutica se tornaria um sucesso absoluto de vendas, o transformaria em um escritor de sucesso e criaria a Capitu que todos conhecemos até hoje. Do outro lado, nem tampouco Capitu sabia que seria inventada à partir de uma terapia de Bentinho. Os dois, que já pouco se falavam, cessam as conversas e, posteriormente, Capitu vai para Buenos Aires e, enfim, para a Europa.
Veja a beleza narrativa, estamos quase nas Mil e Uma Noites: Ezequiel está lendo cadernos, manuscritos escritos por Capitu com sua versão da história de Dom Casmurro, uma história escrita por Bentinho numa clínica psiquiátrica de um Alienista dentro do romance Capitolina, de Gilberto Arsiolli que, por sua vez é uma versão de Dom Casmurro, Machado de Assis com suas personagens Bentinho e Capitu, mas que também possui um conto chamado O Alienista sobre uma clínica para loucos. Haja fôlego.
Para finalizar, aponto também alguns pontos que Gilberto pode observar para uma próxima obra: Capitolina é um projeto ousado, e pelo seu excesso também pode haver um dispêndio. Em um ponto específico, escapou um cuidado de revisão da edição, trechos repetidos em capítulos diferentes; em diversos outros, as premissas do livro são repetidas em demasia, mesmo quando já temos ela em conta, melhor dizendo, já sabemos como são tais personagens e mesmo assim tais características são reafirmadas ao longo dos capítulos. Talvez pensar num projeto mais enxuto daria conta da mesma potência, o que de forma alguma diminui a beleza da hercúlea épica que nos deparamos aqui.
Capitolina, por fim, é um projeto de uma potência ímpar na literatura brasileira, que encara um dos maiores clássicos da literatura brasileira sem se colocar como uma obra menor a ela. Faz com o necessário cuidado, mas com a ousadia necessária para os grandes livros.

A coragem necessária que pedia Artaud: derrubar a obra-prima em sua edificação de clássico e jogar com suas pedras nas estruturas: transformar Capitu numa ativista feminista lutando ao lado de Pagu; transformar Bentinho num assustado bissexual e Escobar em um forte homem enfrentando sua masculinidade em pleno começo do século XX.
Personagens que habitam nosso imaginário, mas que no livro tiveram suas próprias trajetórias. Nasceram e viveram suas paródias, próximas e díspares das que conhecemos, de modo que a pergunta de que se Capitu traiu não se torna quase um apêndice desnecessário. Ela será eternamente a mulher que traiu sem trair e que não traiu traindo.
Capitu é, como disse mais acima, e Gilberto soube traduzir bem, aquela que transformou o mundo em linguagem, em literatura, é forma e força, por isso seus gestos dizem coisas múltiplas e por vezes traduzíveis demais ou de menos. Para um sensível como Bentinho, Capitu é um poço sem as respostas que ele precisa e ela se recusa a dar. Para Machado de Assis, Capitu é o enigma da esfinge, é Othelo que nunca descobre a verdade na hora certa ou Édipo que entende que descobrir a verdade é morrer.
Capitolina é o livro para dizer, não para revelar. Por isso você precisa ler. Para preencher ainda mais o mistério de palavras. Não para resolvê-lo, mas para dar a ele mais gosto para perguntar.

