Todo livro de poesia me faz pensar sobre o que é poesia e sobre quando é poesia. Alguns fazem isso de um modo bem sucedido, outros nem tanto. E o caso de Mar Becker, em especial neste Sal, é aquele que mais me perturba de todos porque me faz perceber que a poesia, ou melhor, a poesia quando é poesia, é tão poesia que desaparece diante das coisas e de si própria.

Sal, de Mar Becker, poeta do Rio Grande do Sul que também publicou recentemente Canção Derruída, é uma obra poética (ou de cunho poético, pra fugir do cerco da poesia) publicada pela Assírio e Alvim. E se o sal que dá o título ao livro se forma na passagem do vento pela água do mar, este Sal, o livro, também pode ser visto como uma espécie de geografia do todo. Geografia como procedimento, geografia como horizonte. Muitas vezes me percebi em uma Geografia Aérea, como no livro de poemas de Manoel Ricardo de Lima, mas ainda trazendo outros aspectos. A geografia de Mar não busca cartografar a existência ou traçar linhas e margens das coisas que ela olha, sente e toca: aqui o exercício parece ampliado, esgarçado: trata-se de uma geografia que as vezes vira endoscopia e, porque não, colonoscopia enquanto em outros vira uma sonda espacial.
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Digo isso porque no exercício de passar do todo ao infimo e do infimo ao todo, tarefa comum nos trabalhos de Mar Becker, as coisas perdem escalas e a linguagem passa a tratar tudo com a mesma materialidade: a matéria das coisas sem tamanho em que meninas, insônias, dentista e Titanic recebem o mesmo peso de palavras. Para ser mais específico sobre o livro: na primeira parte o leitor começa a adentrar um universo que dá a impressão de que estamos no começo de uma possível totalidade diante do fragmento. E ali, é possível perceber uma tentativa de vínculo com uma gênese, com algo que nasce. Temos a ideia de que “em desabrigo venho” e de que “no amor tudo nasce frágil”. Neste primeiro momento (porque me recuso a usar a palavra ciclo hoje em dia), a poesia habita um espaço “na divisa entre a noite e a manhã”.

Não acho que Sal esteja sempre e somente a procura do infimo, pois creio que esse caminho prescindiria encontrar também uma espécie de unidade. Eu trouxe a palavra “geografia” porque, embora inadequada, me ajuda na busca deste procedimento de Mar Becker que, a meu ver, habita o movimento. Não um movimento como os dromopoemas da geração beat, mas um movimento de deslocamento constante. O infimo não repousa porque uma hora está num varal, outra paira uma cidade incendiada (que é o amor) e outra até na busca de um vocabulário que contenha a cesura desse amor.
Ela mesma escreve sobre:
Duas linhas do tempo
Uma, do imenso
A outra, do infimo
Mas a poesia de Mar habita, a meu ver, justamente na passagem de ambos. Do imenso ao infimo e do infimo ao imenso de modo que nos percamos nesse trajeto e vejamos ambos como parte de um mesmo mesmo jogo.
Para finalizar, me foi uma grata surpresa ler ao final alguns poemas mais metalinguísticos, como se a menina do começo que buscava nas palavras a explicação pra dores e ausências do mundo, agora se voltasse agora pras buscas impossíveis da poesia. Isso, claro, bailando uma poesia amorosa que não desiste, afinal, tudo vai se manter “mesmo que o amor desabrigue”.
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