O Sr. Barriga, personagem do famoso seriado Chaves, dizia que um homem deve ser “feio, forte e formal”. Escolhi essa frase, talvez um bocado anacrônica, para falar do espetáculo teatral “Feio”, da Companhia Teatral Dobra com direção de Helena Marques e texto de Cecilia Ripoll.
Para quem não conhece, “Feio” parte da fábula “O Patinho Feio”, de H.C Andersen para contar a história de uma família tradicional cuja mãe engravida de duas crianças: “Feio” e um outro filho, chave para a narrativa. De forma lúdica e também fabular, o espetáculo brinca e discute com a nossa dependência e subserviência com as tecnologias, assim como a nossa construção subjetiva de quem somos com e sem a mediação tecnológica. Sobra também para o excesso de medicalização de crianças e adultos que é visto em “Feio” como uma espécie de reprodução medicamentosa dos filtros das redes que buscam “corrigir” desvios das pessoas.

“Feio” é formal não porque se adequa às formas, mas porque sabe fazer uso e brincar com elas. Mais do que isso, mostra que o jogo com a forma é, talvez, uma das únicas saídas contemporâneas para dilemas de como contar histórias em nosso mundo sem cair em armadilhas próprias das tecnologias de nosso tempo. Alguém que estudou teatro identifica as diversas técnicas de “Feio”, do teatro físico, do view point, entre outras, porém o uso é sempre potencializador do jogo que se instaura.
O espetáculo é forte, e nisso talvez guarde o mais importante, porque reatualiza a forma fabular de contar histórias. O cenário mínimo, uma espécie de gradeado que manipulado pelos atores se metamorfoseia em quase tudo, a expressão dos corpos, a inserção das personagens diferenciadas por pequenos detalhes irrelevantes, tudo isso abre espaço para um jogo cênico em que cabe quase tudo e uma vez instaurado pode ir fundo naquilo que pretendeu pesquisar. E o resultado é igualmente divertido e forte e tem potência porque mantém o jogo sempre vivo.

O mais curioso de tudo é pensar que antigamente tínhamos aqueles que viviam na “norma” e os patinhos feios, contexto que inspirou a fábula de H.C Andersen, mas que isso hoje mudou. A tecnologia com sua força ubíqua transformou todo mundo em patinhos feios perdidos pelos rios da vida e buscando a referência de beleza em alguém que não existe e a saída pros nossos problemas em um lugar que não está em lugar nenhum. Ao mesmo tempo, a feiura é um ponto inexistente do mundo porque num mundo de filtros e de academia como atividade pública coletiva o feio é cada vez mais ocultado, escondido, banido. Num paradoxo absoluto, amamos a feiura, mas banimos o feio numa distopia quase que impossível.
Por fim, só dizer que “Feio” não cumpriu sua promessa de ser “feio” porque divertido, bonito, irônico, complexo, gentil.
