Leviticus, terror dirigido e roteirizado por Adrian Chiarella, alcançou um certo status viral nos nichos cinéfilos por sua premissa, de fato, muito estimulante: um casal de jovens gays precisa enfrentar uma misteriosa entidade capaz de assumir a identidade daquele que eles mais desejam — um ao outro. Para complicar as coisas, a dupla em questão, Naim (Joe Bird) e Ryan (Stacy Clasen), vive em uma comunidade fortemente religiosa, em que tais vontades são extremamente censuradas e reprimidas.
Há uma clara inspiração em Corrente do Mal (2014), de David Robert Mitchell, nessa ideia, que similarmente trabalha o desejo como algo perigoso. No filme de Mitchell, o monstro era transmitido sexualmente, visível somente para a vítima do momento e capaz de assumir a forma de qualquer pessoa, dando um toque a mais de paranoia à narrativa. Ambos os longas possuem aspectos formais similares, com enquadramentos bem abertos e o uso de pans que acompanham os personagens na tentativa de escapar de uma ameaça invisível para todos os outros.

O plano mais aberto de Leviticus convida também a uma certa hipervigilância. A dupla de protagonistas se ama em uma comunidade que não os aceita; logo, o risco não é só a entidade, mas também qualquer outra pessoa que possa observá-los. Assim, à sua maneira, o filme de Chiarella possui uma crueldade a mais, pois o desejo em si representa um perigo em diversos níveis. O seu amado pode não ser ele mesmo e, mesmo que seja, quem pode estar observando os dois?
É um cenário rico, que se constrói em cima de tropos já muito bem conhecidos do terror: a relação entre desejo e morte, que virou até o foco central de outro filme lançado este ano, Acampamento Miasma.
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Contudo, uma obra é mais do que sua premissa, e, apesar da boa base, Leviticus parece se contentar em não ir muito além em nada a que se propõe. Apesar de ter um forte foco na libido dos seus personagens, é um filme estranhamente casto, que não busca bagunçar as fronteiras entre sexo e perigo. Nas cenas em que Ryan ou Naim se revelam como o monstro, não existe um escalonamento do tesão para o medo, ou uma mistura dos dois, mas uma mudança de chave instantânea que impede o surgimento de conflitos internos mais complexos. Não há um momento no filme em que os personagens se perguntem: o que diz sobre mim buscar esse desejo, mesmo que isso possa representar a minha morte?

A falta desse questionamento pode sugerir uma vontade de Chiarella em evitar histórias queer trágicas, tão comuns no cinema — e o final água com açúcar aponta para este caminho —, ou uma simples falta de imaginação, evidenciada pela repetição de ideias visuais. Há pelo menos umas três cenas em que os atores conversam com uma barreira entre si, expressando a impossibilidade daquele afeto, e o monstro é introduzido ao menos duas vezes da mesma maneira, com Naim observando alguém interagir com uma pessoa invisível.
Assim, Leviticus, mesmo lidando com temas ditos “espinhosos”, parece buscar uma experiência que visa a não criar desconforto excessivo em ninguém. O extremismo religioso é genérico — a ponto de que, se a trama fosse sobre um casal hétero querendo transar antes do casamento e impedido pela entidade, o filme pouco mudaria —, e o casal principal, com exceção de uma única cena, é bem-comportado. O importante é não dar muito na pinta, sabe?

