Em “O coração é desses pormenores”, novo romance de Ana Paula Moreira lançado pelo selo Auroras (Editora Litteralux), a dor do luto se acomoda na água que ensopa um avental de faxina várias vezes durante a lida e na cutícula roída até sangrar.

A história se constrói a partir do que cabe no singelo. Ao narrar a vida de Sílvia e de sua filha Lúcia, duas sobreviventes de uma linhagem de perdas que atravessa gerações de mulheres (Teresa, Francisca, Rita e Irene), a autora foge da tentação do melodrama e cria, lentamente, uma trama cotidiana em que a dor infiltrada vive represada na alienação de uma rotina feita pela repetição do trabalho doméstico.
O luto aparece no texto composto por procedimentos lentos, quase automatizados, uma dor diária que se confunde com o próprio ato de esfregar o chão numa tentativa vã de mantê-lo sempre limpo. É um trabalho de Sísifo adiar o desmoronamento, logo entendemos. Não por acaso, Sílvia anota nas margens de um livro que “há entre a faxina e a escrita uma continuidade”, compreendendo que escrever e limpar exigem o mesmo corpo que faz, faz e faz. É nessa banalidade aparente que envolve cozinhar uma refeição, se alimentar, alimentar o outro e lavar a louça acumulada antes da próxima fome que Ana Paula dá as pistas necessárias para o leitor perceber o ciclo de dor e isolamento que envolve mãe e filha.
Lúcia, uma menina de doze anos, descobre o mundo ao mesmo tempo em que vigia a respiração da mãe para garantir que ela não desapareça na escuridão do quarto. Sílvia trabalha em tempo integral, ora cuidando de uma casa de família, ora cuidando de sua filha, tendo apenas o banho como possibilidade de deixar a memória fluir.

Ambas sentem que não podem dar vazão à própria dor, porque o luto, se completamente exposto, machucaria a solidão da outra. Afinal, elas não têm mais ninguém. Chupando o sangue da cutícula mordida, Lúcia tenta compreender conceitos abissais e abstratos, como abandono, morte e desigualdade, com o pouco que conhece da vida como ela é. Para ela, um caixão pode parecer uma bala de coco embalada em cetim, por exemplo, porque seus olhos já se acostumaram a ver morte até onde não há. Sua história pessoal, como a de sua mãe, a obrigou a vivenciar a precariedade da existência e do universo adulto muito antes de saber nomeá-los.
Com sutileza, as tensões de classe parecem sustentar parte da narrativa. Parte do desamparo de Lúcia ganha forma quando ela constata “eu ainda não entendi se eu não conto como criança ou se eu não conto como criança nessa casa”. Morando de favor nos fundos da residência de Dona Leda e do “Doutor”, Sílvia paga sua estadia sendo a empregada doméstica da família. A distância entre a casa principal e a edícula não é apenas métrica, é um abismo social demarcado em detalhes: a festa de quinze anos de Elisa, filha do casal, com bolo roxo e banda em contraste com a sopa de batatas servida na cozinha das protagonistas; o caderno espiral de girassóis cedido sem querer pela sensação de obrigação que Lúcia sentiu; os sapatos furados de Sílvia e o vestido amarelo de segunda mão que aperta o corpo de sua filha que agora está adolescendo.
A inveja e a amargura de Dona Leda, assim como a raiva represada de Sílvia ou os nós históricos deixados por Francisca, são tratadas como vícios de pensamento, cicatrizes (de)formadas por dores antigas que, sem espaço para serem encaradas de frente, continuam gerando mais isolamento, mais dano e uma perigosa expectativa de servidão e merecimento. Uma engrenagem que ganha ainda mais força quando tensionada pela desigualdade social. Ainda assim, há uma compreensão compassiva de que ninguém ali é imune à putrefação emocional quando o amor e o reconhecimento de suas dores foram negados.

Diante disso, a relação entre Sílvia e Lúcia comove. Em nenhum momento, a história cede à conveniência de confissões artificiais, elas encontram a companhia da solidão da outra a partir de um momento que envolve o imprevisível como elemento central. Debaixo da mesa, comendo sobras de um pudim cheio de simbologia, mãe e filha encontram uma linguagem comum e se percebem espelhadas. É ali, com a rotina delas modificada, que elas conseguem, enfim, se mostrar sem a máscara do medo de, ao expor seu próprio sofrimento, não serem mais amadas.
A confissão da menina sobre o medo da tristeza materna, feita diante do calor das batatas assadas numa pequena fogueira de quintal, atinge o leitor pelo reconhecimento mútuo de que a tristeza existe, que o luto continua a doer mesmo com o passar do tempo, mas que isso não pode impedi-las de viver suas vidas como devem ser vividas.
Assim, Ana Paula Moreira constrói um romance que coloca o afeto na palma da mão, sendo exibido como artefato poderoso, mas frágil e também essencial à vida. Sendo o coração do tamanho de um punho, mãe e filha aprendem juntas que é possível, a partir do amor e da troca, fazer a dor da perda e do medo de perder coexistir com o direito de viver uma nova história.
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Thaís Campolina (Divinópolis/MG) é escritora, poeta e mediadora de leitura nos clubes Cidade Solitária, Leia Mulheres Divinópolis e Casa das Poetas. Publicou os livros de poesia “eu investigo qualquer coisa sem registro” (um dos vencedores do Prêmio Poesia InCrível de 2021, organizado pela Crivo Editorial) e “estado febril” (Macabéa, 2024), além de plaquetes e zines. O poemário “Enxame” (Orlando, 2026) é seu lançamento mais recente.

