Algumas pessoas talvez já tenham sentido a sensação de que as opções parecem sempre as mesmas quando deslizam pela interface das plataformas de streaming. Outras talvez já tiveram a sensação de que todos os filmes que vêem ali são praticamente (ou exatamente) iguais. Ou talvez seja só o caso de procurar outras possibilidades que simplesmente não existem nas principais plataformas. Se por acaso você se identificar com alguma dessas situações: aqui vão 10 sugestões de filmes para começar a explorar o catálogo da FILMICCA.
“A paixão de Joana d’Arc” (França, 1928) – Direção: Carl Theodor Dreyer

Sinopse: A jovem camponesa Joana D’Arc é condenada à morte por ter liderado o povo francês contra o exército invasor inglês. Ela passa pelas suas últimas horas de vida capturada pelos ingleses e vai à julgamento por heresia.
Carl Dreyer vira do avesso e subverte os documentos oficiais da Santa Inquisição para reconstruir exatamente a memória que o processo histórico de produção desses documentos tinha como objetivo destruir; e faz isso desobedecendo praticamente todas as regras de linguagem cinematográfica institucionalizadas pela domesticação da narrativa clássica. Trabalho impecável de genealogia da história e simplesmente um dos melhores filmes já feitos na história do cinema.
“Hiroshima” (Japão, 1953) – Direção: Hideo Sekigawa

Sinopse: O antes e depois do bombardeio atômico em Hiroshima visto através de uma combinação de realismo documental e drama humano. Umama história de sobrevivência de um grupo de professores e de seus alunos com suas famílias.
Um filme perfeito para se assistir em tempos que o ápice do filme técnico colonialista recebe o prêmio máximo da meritocracia industrial ao glorificar o criador de uma arma de destruição/assassinato em massa imerso em uma pira de realismo aficcionado com a recriação prática da explosão de uma bomba atômica.
“Jeanne Dielman, 23, quai du Commerce, 1080 Bruxelas” (Bélgica, 1975) – Direção: Chantal Akerman

Sinopse: Três dias na vida de uma dona de casa viúva e solitária. Suas tarefas vão de arrumar as camas a preparar o jantar para seu filho; incluindo também alguns truques para sobreviver.
Chantal Akerman faz aqui o que verdadeiros mestres do cinema fazem: uma recriação própria do tempo traduzido em forma fílmica; a inscrição de uma anti-dramatização – através da subversão do potencial de tédio dos planos longos – constroem a rotina angustiante de uma mulher que tem a energia vital de sua vida sugada nas funções do trabalho doméstico.
“A última ceia” (Cuba, 1976) – Direção: Tomás Gutiérrez Alea

Sinopse: Semana Santa. Final do século XVIII. Um conde visita seu engenho de açúcar em Havana no mesmo dia em que um escravo fugiu. O conde deseja trazer a luz da religião para a vida de seus escravos e decide compartilhar o poder do cristianismo através de uma encenação da Última Ceia com doze de seus escravos.
O passado colonial é retomado como metáfora para a construção de um manifesto revolucionário anticapitalista/imperialista nesse filme que talvez seja o que em toda a história do cinema melhor compreendeu e dissecou a mentalidade cristã impregnada nos discursos da colonização e escravidão negra da América católica. E a recriação da iluminação de pinturas barrocas para a cena da ceia é um primor por si só.
“Ao caminhar, entrevi lampejos de beleza” (Estados Unidos, 2000) – Direção: Jonas Mekas

Sinopse: Uma compilação de mais de 30 anos de filmagens caseiras particulares feitas pelo diretor de vanguarda lituano-americano Jonas Mekas. As filmagens são reunidas por ele “puramente ao acaso” e sem preocupação com sua ordem cronológica.
Os grandes e pequenos acontecimentos registrados ao longo de três décadas de filmagens caseiras são convertidos em forma cinematográfica em um filme que anuncia de antemão que nada acontece nele; e ao mesmo tempo tudo (a própria vida em si) acontece. Tudo e nada são complementaridades nessa obra-prima irretocável de Jonas Mekas em que cada uma das imagens é incapaz de ser menos do que hipnótica e a montagem alcança a proeza de recriar o ritmo e o fluxo da memória humana.
“Inferninho” (Brasil – CE, 2018) – Direção: Guto Parente e Pedro Diógenes

Sinopse: Deusimar é a dona do bar Inferninho. Ela quer deixar tudo para trás e ir embora para um lugar distante. Jarbas é um marinheiro que acaba de chegar e sonha em fincar raízes. O amor que nasce entre os dois vai transformar por completo o cotidiano do bar.
Hibridez perfeita entre as linguagens do cinema e do teatro: os deslocamentos que teatral/cinematográfico forçam um ao outro potencializa a força de cada uma dessas essências ao mesmo tempo que resultam em um universo fascinantemente novo. “Inferninho” transforma a evidência de seus artifícios em tecnologia artística; e faz isso em um mundo cada vez mais fanático por uma tradição realista escravizada pela condição ilusionista de seus instrumentos tecnológicos.
“Breve história do Planeta Verde” (Argentina, 2019) – Direção: Santiago Loza

Sinopse: Tania embarca com seus amigos numa jornada por uma pequena cidade argentina após a descoberta de que sua avó passou os últimos anos de vida como cuidadora de um alienígena roxo de olhos pretos. Juntos vão enfrentar seus próprios vazios emocionais ao tentar levar a criatura de volta ao local de origem.
Um road movie em que a narrativa é guiada por personagens vivos e não por um percurso pré-definido no qual as descobertas e o caminho já estão postos de antemão como uma mera lista a ser cumprida. Um filme que abraça sua própria estranheza da mesma forma que nenhum personagem trata de forma antinatural a existência de um extraterrestre que precisa ser levado de volta para casa.
“Sete anos em maio” (Brasil – MG, 2019) – Direção: Affonso Uchôa

Sinopse: Rafael chegava em casa depois do trabalho em uma noite de maio a sete anos atrás. Alguém chamou seu nome quando ele abria o portão. Ele olhou para o lado e viu pessoas que não conhecia. Rafael saiu da sua casa carregado pelos desconhecidos e nunca mais voltou. Desde então ele vive como se aquela noite nunca tivesse terminado.
“Sete anos em maio” transcende as convenções de encenação e de relato documental para realizar um feito no qual toda uma tradição do cinema brasileiro falha: inscrever no filme a dimensão real dos ciclos de violência e corrupção policial sem no entanto reproduzir ou espetacularizar a mesma lógica de violência que se coloca na tela.
“Letícia, Monte Bonito, 04” (Brasil – RS, 2020) – Direção: Julia Regis

Sinopse: Interior do Rio Grande do Sul. Laís conhece a intensa Letícia e passa com ela uma tarde letárgica de verão.
Alguns filmes têm a capacidade de capturar um sentimento ou momento específicos e traduzir isso em forma fílmica: é exatamente o caso desse curta-metragem que consegue pôr em tela a sensação de quando se é adolescente e você encontra outra pessoa esquisita com quem é possível se sentir à vontade e compartilhar toda a sua estranheza; e ainda consegue produzir a magia de manipular o tempo e fazer um pedaço de tarde de verão parecer durar um período de férias inteiro.
“Bem-vindos de novo” (Brasil – SP, 2023) – Direção: Marcos Yoshi

Sinopse: Virada do milênio. Os descendentes de japoneses Yayoko e Roberto Yoshisaki foram tentar uma vida melhor no Japão enquanto seus três filhos ficaram no Brasil com os avós. O casal retorna 13 anos depois e a família passa por uma complexa reconstrução afetiva que é documentada pelo filho Marcos Yoshi.
Um filho faz um filme para conhecer seus pais que passaram 13 anos trabalhando no Japão no período de passagem dele e de suas irmãs da adolescência à vida adulta. Do micro (uma família) para o macro (um país) encontramos sonhos e relações que nunca se concretizam perante ciclos recorrentes de crises econômicas em um filme que entende que a honestidade é mais importante do que a estetização e a megalomania autocondescendente da memória familiar.

