Em meio a um calendário cada vez mais saturado, 2025 mostrou que ainda há espaço para séries que apostam em ambição formal, densidade temática e um olhar menos apressado sobre suas histórias. Entre adaptações literárias, dramas históricos e produções contemporâneas dispostas a encarar temas incômodos sem simplificações, o ano trouxe títulos que escapam do consumo automático e pedem algum grau de atenção do espectador. A seguir, seis séries lançadas em 2025 que valem ser conhecidas:
O Leopardo
Inspirada no romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, O Leopardo é uma ambiciosa adaptação que busca traduzir para a linguagem seriada um dos grandes livros do século XX. Ambientada na Sicília do período do Risorgimento, a série segue o drama e declínio da nobre família Salina, e parte do colapso da aristocracia tradicional diante de um mundo em transformação, acompanhando a lenta obsolescência de uma classe que percebe que sobreviver pode significar tornar-se irreconhecível. Diferente da adaptação clássica de Visconti, a série se permite um olhar mais dilatado sobre personagens secundários e tensões políticas, apostando menos no épico solene e mais no desgaste cotidiano de quem entende, tarde demais, que o poder mudou de mãos.
Melancólica, grandiosa e cinematográfica, com cinematografia e figurino impecáveis e uma trilha sonora belíssima assinada pelo sempre brilhante Paolo Buonvino (que se superou aqui, com peças magníficas – aqui, dou especial destaque às três versões de Spunta Lu Suli, à valsa tema, chamada Il Valzer del Gattopardo, as duas versões de L’incanto Sospeso, e à uma peça de nome Lettere dal Fronte, mas a trilha sonora inteira vale ser ouvida) é certamente um dos melhores lançamentos de 2025.
House of Guinness
Em House of Guinness, o que poderia ser apenas uma dramatização elegante sobre uma família bilionária transforma-se em um retrato bastante mais ácido da relação entre capital, identidade nacional e poder simbólico. Dos mesmos criadores de Peaky Blinders – e com abordagem estética similar, incluindo a trilha sonora cheia de músicas atuais – , ambientada na Irlanda do século XIX e seguindo os irmãos Arthur, Benjamin, Anne e Edward Guinness após a morte de seu pai e uma divisão polêmica da herança, a série usa a história da cervejaria como fio condutor para discutir colonialismo, respeitabilidade, filantropia e controle social – tudo embalado por uma reconstituição histórica meticulosa.
Altamente ficcionalizada, a série foge bastante da vida real dos personagens retratados, mas trata de eventos históricos muito reais – e, particularmente, da instabilidade, miséria e do movimento revolucionário na Irlanda vitoriana – e os mistura com altas doses de dramas familiares, escândalos sexuais e tramoias políticas.
O elenco é maravilhoso, os figurinos muito bons, e a cinematografia e trilha sonora idem. Além disso, é a primeira série da Netflix a ganhar legenda em irlandês, e já se tornou célebre na comunidade LGBTQIA+ por uma representação interessantíssima das experiências do irmão mais velho, Arthur, como um homem gay na alta sociedade irlandesa do século XIX, com direito à um inusitado casamento lavanda, e pela indicação de um possível arco de personagem relacionado à asexualidade envolvendo Adelaide Guinness na segunda temporada.
Aqueles Prestes a Morrer
Criada por Roland Emmerich e baseada no mesmo livro que nos deu Gladiador, Aqueles Prestes a Morrer mergulha na Roma Antiga a partir de um ponto de vista dos mais interessantes: o entretenimento como engrenagem política. Gladiadores, corredores, escravos, nobres decadentes e imperadores dividem espaço em uma narrativa fragmentada, que entende o Coliseu como centro nervoso de uma sociedade obcecada por espetáculo.
Longe de idealizações heroicas, a série insiste na brutalidade sistêmica de um mundo onde a morte é produto, e o público, cúmplice. Além de trazer algumas figuras menos exploradas, mas fascinantes, da história romana para o centro do elemento político – os imperadores Vespasiano, interpretado pelo sempre brilhante Anthony Hopkins, e Tito, vivido pelo muito subapreciado mas também excelente Tom Hughes, e o futuro imperador Domiciano, que tem como intérprete um assustador Jojo Macari – a série também é cheia de personagens ficcionais cativantes, com Tenax – interpretado de maneira tão carismática por Iwan Rheon que quase nos esquecemos de suas crueldades como Ramsay Bolton em Game of Thrones -, um ambicioso chefe do crime, no centro deles.
Uma das mais caras séries europeias da história, a produção é grandiosa, com excelentes nomes no elenco, visuais bem-feitos e uma trilha sonora excelente pelo italiano Andrea Farri (com destaque para peças como Citizens of Rome e Caput Mundi). O resultado é desigual em ritmo, mas interessante em ambição.
Mil Golpes
Mil Golpes se passa no submundo do boxe e crime da Londres do século XIX, mas sua força está menos no esporte e mais no que ele revela sobre classe, raça e sobrevivência. A série acompanha personagens empurrados para a violência não por glória, mas por falta de alternativas, em uma cidade onde o progresso industrial convive com miséria extrema.
Seguindo três personagens principais – o jamaicano Hezekiah Moscow, que vai para Londres em busca de oportunidades e acaba sendo empurrado para o boxe quando todas as portas são fechadas para ele por conta da cor de sua pele; a ladra Mary Carr (que realmente existiu!), líder da gangue criminosa feminina (real, que esteve em atividade desde meados do século XIX até a década de 1950) Forty Elephants; e Sugar Goodson, lendário boxeador e chefão do East End tornando-se cada vez mais obsoleto à medida que o esporte evolui, e ele continua o mesmo.
Criada por Steven Knight, a narrativa herda algo de Peaky Blinders no clima e na aspereza, mas não se compara em termos de qualidade narrativa. A série é mais ambiciosa do que consegue sustentar, e entretanto vale a pena tanto por suas representações muito originais e verdadeiras de questões de raça e classe na Inglaterra vitoriana – com imigrantes jamaicanos e chineses, criminosos e órfãos como protagonistas, participações frequentes da (também real, embora pouco conhecida hoje) aristocrata negra mais famosa da Inglaterra, Victoria Davis, afilhada da Rainha Vitória, e discussões sobre pobreza e colonialismo no cerne da história – quanto por seu trânsito entre ambientes e gêneros, tendo um pouco de Oceans Eleven e um pouco de Rocky num cenário inusitado. As atuações são excelentes, com destaque para os sempre brilhantes Stephen Graham e Erin Doherty como Sugar e Mary.
Lázaro
Parte da parceria contínua entre Harlan Coben e o Prime Video, Lázaro retoma o território familiar do autor — segredos enterrados, famílias corroídas pelo silêncio e crimes que se recusam a permanecer no passado — mas com um verniz mais sombrio. Joel “Laz” Lazarus retorna à cidade natal após a morte do pai para descobrir que a história familiar é construída sobre lacunas cuidadosamente preservadas.
O ponto de partida reside em dois assassinatos – o do pai de Joel, no presente, e o de sua irmã gêmea, Sutton, quase vinte anos antes -, mas a série rapidamente desloca o mistério do campo policial para o íntimo: o que se investiga não é apenas quem matou, mas o que foi conscientemente ignorado durante décadas.
Quando pessoas há muito tempo mortas começam a aparecer para Laz, a série também coloca a sanidade de seu protagonista em questão: estará ele de fato vendo fantasmas, ou há outra explicação para essas aparições? Com um elenco muito bom liderado por Sam Claflin, em uma interpretação excelente e cheia de nuances, e apoiado pelo grande Bill Nighy, Lázaro funciona menos como quebra-cabeça e mais como estudo sobre herança emocional, culpa e a persistência do trauma.
Adolescência
Adolescência é uma das séries mais perturbadoras e premiadas de 2025 justamente por se recusar a transformar seu crime central em espetáculo. Criada por Jack Thorne e Stephen Graham — que também atua como o pai do garoto acusado —, a minissérie acompanha as consequências do assassinato de uma adolescente a partir do núcleo familiar de Jamie, um menino de 13 anos preso pelo crime. Filmada integralmente em planos-sequência, cada episódio aprofunda a sensação de claustrofobia emocional, obrigando o espectador a permanecer dentro do desconforto. O foco está menos na investigação tradicional e mais no “como chegamos até aqui”: masculinidade adolescente, violência simbólica, redes sociais e a falência silenciosa dos adultos em perceber o que se passa diante deles.
Pesada, rigorosa e sem concessões, Adolescência foi universalmente aclamada, rendeu prêmios importantes para seus três protagonistas – consolidando Stephen Graham como um dos grandes nomes da atuação britânica da atualidade (título esse muito merecido, e já atrasado), confirmando o lugar de Erin Doherty, já estabelecido desde sua muito elogiada participação em The Crown, como uma das mais sólidas atrizes de sua geração, e fazendo Owen Cooper, o aclamado intérprete do adolescente Jamie, despontar como um dos mais promissores jovens atores trabalhando hoje, com uma grande performance inaugural e o feito histórico de ser o homem mais jovem da história a receber o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante – e deu início à uma série de conversas e iniciativas ao redor do mundo, e principalmente no Reino Unido. A série é não somente uma das produções mais aclamadas da televisão recente, como entra para o cânone televisivo também como fomentadora de impacto real na cultura.

