Uma matéria da BBC News Brasil em 2025 realizou uma estimativa do panorama religioso no país e qual será a religião predominante nos próximos 30 anos. A análise aponta que, até 2049 os evangélicos serão os predominantes do país. Dessa forma, filmes como Virtuosas são de extrema importância para avaliar nossa sociedade e comportamento.
O filme acompanha um grupo de mulheres cristãs que são selecionadas, por meio de um sorteio, para fazerem parte de um seleto grupo exclusivo em que teriam a oportunidade de participar de uma imersão que tem por objetivo aumentar a feminilidade.
O roteiro assinado por Cíntia Domit Bittar e Fernanda De Capua é inteligente e sofisticado por subverter a lógica convencional dos thrillers americanos: em vez de apostar na angústia e no medo, ele constrói a tensão pela curiosidade, ao revelar desde cedo que a seleção das participantes é manipulada e, ainda assim, preserva o conflito central, exigindo sutileza e exploração das dualidades das personagens. Além disso, dentro da escolha de argumentos do roteiro, temos uma crítica ácida a esse movimento “coach” que vem tomando as igrejas, manipulando fiéis que buscam senso de comunidade em prol de objetivos individuais. Dentro desse ambiente, temos a exploração de uma estrutura machista que vende a submissão como produto a ser entregue à sociedade.

O trabalho que foi realizado com o elenco me surpreendeu com algumas escolhas que elevaram visualmente o longa-metragem. A composição de Bruna Linzmeyer me remete a uma ex-primeira-dama, que se posiciona como uma líder religiosa frente a um grupo de seguidoras. Linzmeyer dá vida à Virgínia Heinzel, uma coach que tem como foco o público feminino conservador. A escolha do figurino, os gestos contidos e performados em cena contribuem para uma exploração quase teatral que favorece a percepção de gestos mais artificiais, nesse sistema que busca criar influenciadores religiosos, com foco numa doutrinação de novos fiéis. Ao lado dela, Juliana Lourenção também se sobressai como Lorena Canollo, fiel radical influenciada por extremistas, que precisa lidar com estresse pós-parto e com uma criança doente sozinha; a personagem busca na fé a explicação para problemas que poderiam ser resolvidos pela ciência, tratando as dificuldades cotidianas como provações divinas. Assim, a qualidade do elenco não está apenas na competência individual, mas na capacidade de sustentar as dualidades das personagens.
Tecnicamente, Virtuosas é marcada por uma execução eficiente e profundamente integrada ao projeto crítico do filme: a fotografia utiliza muito recurso do plano americano, acredito que com o objetivo de expor as contradições entre discurso e prática e equilibra humanização e poder institucional, enquanto os closes utilizados em Bruna Linzmeyer reforçam a composição de sua personagem e a rigidez emocional de sua imagem pública.
A direção de Cíntia Domit Bittar é eficiente ao apresentar uma condução autoral e integrada, que articula roteiro, elenco e montagem a serviço de uma crítica social sofisticada, destacando-se por construir uma obra coesa e crítica, na qual cada escolha serve à narrativa e à análise das estruturas religiosas e machistas retratadas.
Já a montagem, também assinada por Bittar, aposta em transições suaves e privilegia o roteiro em vez das sensações do espectador, o que demonstra uma técnica que não busca ostentação formal, mas sim servir à narrativa, à tensão construída pela curiosidade e à crítica às estruturas religiosas e machistas retratadas.

Virtuosas não se limita a narrar uma imersão religiosa ou a subverter o thriller: ele se afirma como uma obra crítica e necessária porque transforma o desconforto em análise social. Diante da estimativa de que os evangélicos serão predominantes no Brasil até 2049, o filme escancara como a fé pode ser capturada para o interesse de alguns, pela lógica de mercado e por uma estrutura machista que vende a submissão como virtude.
A direção de Cíntia Domit Bittar, o roteiro inteligente, o elenco primoroso e a técnica integrada à crítica constroem um retrato coeso e perturbador, que não aposta no susto, mas na reflexão. Assim, mais do que uma previsão do futuro, Virtuosas funciona como um espelho incômodo do presente, e é precisamente por isso que essa resenha não poderia terminar sem registrar o receio de que aquilo que parece ficção esteja, na verdade, apenas antecipando o que já começa a se consolidar.

