CRÍTICA: “A paixão segundo G.H.” traz Maria Fernanda Cândido em seu auge

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“Eu fora obrigada a entrar no deserto para saber com horror que o deserto é vivo, para saber que uma barata que é a vida.” O deserto de G.H. é o quarto da empregada Janair que acabou de pedir demissão. É nesse cômodo que a protagonista encontra a vida: a barata. E também com a alteridade mais atroz: a que está dentro dela.

Essa é a grande descoberta da protagonista do filme A paixão segundo G.H. e a “trama” da grande obra de Clarice Lispector, versão cinematográfica de um dos livros mais “infilmáveis” da literatura brasileira. O que não é novidade para Luiz Fernando Carvalho, que conseguiu transportar para o meio audiovisual o desafiador Lavoura arcaica, de Raduan Nassar, tornando-o um dos mais belos filmes do cinema brasileiro.

Se em um primeiro momento pensamos no teatro como principal influência para a obra, uma vez que é um longo monólogo e que passa uma sensação de claustrofobia tal como a caixa cênica do espaço teatral, em uma outra mirada percebe-se um filme bastante calcado na literatura e no próprio cinema, pois a montagem oferece novas camadas para o livro de Lispector. Um exemplo esplêndido disso é o momento em que G.H. começa a se transformar na alteridade que existe dentro dela mesma. O jogo de cortes e a troca de ângulos da câmera do rosto de Maria Fernanda Cândido deixam claro o diálogo interno/externo que acontece entre as várias G.H.s.

A presença de Janair (interpretada pela novata Samira Nancassa, nascida em Guiné-Bissau), a empregada que pede demissão e desencadeia toda a catarse de G.H., também ganha novos contornos, ao trazer para o centro a tensão social e racial entre as duas mulheres já presentes no livro, mas que é até hoje bastante invisibilizada. Também ganha materialidade o mural feito por Janair que causa um alvoroço interno em G.H., descrito como o talking back da “negra africana” pelo pesquisador Francisco Quinteiro Pires.

Leia também: 5 motivos para assistir o filme A Paixão Segundo G. H., baseado na obra de Clarice Lispector

Via crucis

Outro aspecto que a direção e o roteiro (assinado por Luiz Fernando Carvalho e Melina Delboni e com uma longa lista de consultores literários) salientam é o título: A paixão segundo G.H. faz uma alegoria clara à paixão de Cristo.

As referências bíblicas e de paisagens desérticas aparecem tanto no texto quanto na janela do belo apartamento de G.H., ainda que estejamos vendo praias do Rio de Janeiro dos anos 1960. As neblinas em torno dos montes e as areias em seu encontro com as águas do mar criam uma atmosfera do mistério da criação, ressoada pelo texto: “O deserto tem uma umidade que é preciso encontrar de novo”.

Ou em: “Olhando-a, eu via a vastidão do deserto da Líbia, nas proximidades de Elschele. A barata que lá me precedera de milênios, e também precedera os dinossauros. Diante da barata. Eu já era capaz de ver ao longe Damasco, a cidade mais velha da terra. No deserto da Líbia, baratas e crocodilos? Eu estivera o tempo todo sem querer pensar no que já realmente pensara: que a barata é comível como uma lagosta, a barata era um crustáceo”.

G.H., após seu contato com a barata, passa então a viver sua via crúcis, sua “paixão” de Cristo própria: “Oh Deus, eu estava começando a entender com enorme surpresa: que minha orgia infernal era o próprio martírio humano”. Não é por acaso que a personagem é uma escultora, que tira da pedra formas humanas. Uma Criadora, portanto, como Deus. É esculpindo uma forma humana em pedra branca com um martelo e um cinzel que ela machuca as próprias mãos, deixando o sangue escorrer, lembrando parte das chagas de Cristo.

Seu martírio atinge o clímax ao engolir a barata, transformando-se no próprio inseto – por isso podemos pensar ter sido este um ato de canibalismo. Sua essência humana morre para dar lugar ao não humano, ao divino. “As asas do mesmo negror eu as uso e as suo, e as usava e suava para mim – que és Tu, tu, fulgor do silêncio. Eu não sou Tu, mas mim é Tu. Só por isso jamais poderei Te sentir direto: porque és mim.”

O filme não seria tão bem-sucedido se não fosse o tour de force de Maria Fernando Cândido como G.H., que está no seu auge em um papel difícilimo, não só pelo texto (que vem direto do próprio livro), mas também pelo fato de a câmera estar na maior parte do tempo próximo ao seu rosto e ao seu corpo.

As mudanças no tom de voz, nas expressões faciais e corporais de Cândido (em especial suas mãos, outra alegoria para a criação) mostram as várias escolas de interpretação utilizadas no filme. O cansaço no rosto da atriz condiz com o estado de ânimo de G.H., mas também nos faz pensar quantas vezes ela teve de repetir cada uma das tomadas desse filme fragmentário. Realmente, é possível sentir o martírio vivido por Cândido tendo que se transformar em G.H., na barata em G.H., na outra dentro de G.H. e em Deus dentro de G.H. É, então, que o cinema opera sua mágica, assim como a literatura, e todos nós nos tornamos G.H.

Confira o trailer do filme:

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