“Folha de Rosto”: o campo de batalha poético de Leonardo Simões

Wislawa Szymborska, no poema Autotomia, traduzido por Regina Przybycien, começa escrevendo sobre a divisão que a holotúria, também conhecida como pepino-do-mar, põe em prática quando está em perigo. Uma metade foge em direção à vida e ao futuro enquanto a outra é entregue à morte e à dissolução. “No meio do corpo da holotúria se abre um abismo”. 

Nós, seres humanos, não somos capazes de tal resposta física, mas isso não significa que não sabemos nos dividir. Resta a nós, ainda fazendo referência a poeta, nos partir “em corpo e sussurro interrompido”, “em corpo e poesia”, o abismo nos circundando, fazendo parte de quem somos.

Em Folha de Rosto, escrito pelo jornalista Leonardo Simões e publicado pela Editora Mondru, em 2023, o eu-lírico parece também lutar pela sobrevivência, mas sem conseguir se dividir, fugir e ficar, se desmontar fisicamente, como a holotúria. Para tal enfretamento, ele usa a poesia como instrumento de reelaboração não só do abismo que agora habita, mas também de si. 

Os poemas, aqui, funcionam como capítulos: núpcias, fascismo, ex-filho, parto, sexo, dr e etc. Através deles acompanhamos uma ruptura, uma separação de corpos, mentes e desejos em um cotidiano esgarçado por viver a História. 

A História de um país que flerta com o fascismo, que sangra à beira do precipício enquanto um casal se desfaz em meio ao turbilhão de acontecimentos e mudanças sociais, políticas e também internas.

A complexidade do amor e das relações escancarada, sobretudo em tempos de tamanho mal-estar. Os vínculos todos rasgados, abertos, em carne viva. Como restabelecer tais conexões? É possível? Leonardo explora essas questões, inclusive, das relações do eu-lírico com ele mesmo.

Para além dessa complexidade, há a contradição, inerente à contemporaneidade e da qual não escapa o eu-lírico. Em meio à ebulição social, ele também se vê em busca de realização pessoal, dividido entre o individual e o coletivo, em constante conflito, ao mesmo tempo em que sua voz é interrompida e atormentada por uma outra voz, que entra no fluxo de forma oponente através de colchetes. Colchetes que podem ser amáveis, mas que também atacam e ridicularizam. 

“Vai ser assim

Não dá mais pra fazer outra faculdade, andar na cidade e procurar

        saídas na estrada. Dinheiro é feito para realizar sonho.

[Calma, bem.]

(…)

Não espera ver desmontarem o mundo, não.

eu já te disse, eu vou ficar                              alforriado.

A pele que moro é de aluguel.

[O fim é um eclipse no teto do quarto.

Quanta bobagem!]”

O livro vira campo de batalha através de estrofes, versos, espaços e um algo a mais que escapa. Choques de realidade, de origem e de cor da pele. 

“Chama-me pretinho, e eu obedecerei. Num é?

Pois foi.

E aí, ficou nisso a vida inteira…

Essa indecisão de cor.

Pretinho é camaleão, sabe?

Fica mais claro conforme o ambiente onde o colocam. (…)”

Uma batalha que se internaliza ainda mais na busca por identidade e por um lugar de pertencimento, mas que não deixa o texto com cara de panfleto ou espelho. A introdução, por sinal, deixa bem claro que “Folha de Rosto não pretende ser um espelho da realidade. Os estilhaços vêm primeiro”.

Leia também: Mapeando as fronteiras do infinito: “Exílio: Paisagens”, de Fernanda Fatureto

Esse movimento, de olhar mais para dentro, ocorre principalmente após a mais longa poesia da coletânea, biopoesia. Nela, há realmente a quebra do relacionamento de vez, o rompimento definitivo, o fim em meio a um país que pega fogo. Até a voz do oponente parece dar uma trégua. Depois temos it’s a long way que aborda a questão do pertencimento, de ter uma Terra para chamar de sua, seguido de pretinho, parcialmente reproduzido acima, e que entra na questão da identidade de quem “ ‘Não passou no teste da melanina’”. Nos dois últimos poemas, ansiedade e eleições, encerra-se o ciclo que teve início lá em núpcias, a poesia de abertura.

Nesse fim, o eu-lírico entrega-se ao exercício de romper, retalhar, para, como Wislawa Szymborska disse, também em Autotomia

“Morrer só o necessário, sem exceder a 

medida.

Regenerar quanto for preciso da 

parte que restou.”

Despertar uma nova e própria voz, “tomar fôlego” e então responder à provocação: “Quem é que tem coragem de fazer poesia com o mundo desse jeito?”. 

Leonardo Simões disse: eu. non omnis moriar.

Sobre o autor: 

Nascido em Patrocínio, Minas Gerais, mora em São Paulo desde 2010. Cursou Jornalismo e trabalha com redação publicitária. Foi finalista do Núcleo de Dramaturgia do Sesi-SP em 2019 e 2021. É mestrando em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Folha de Rosto é seu primeiro livro.

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