Quando Zuenir Ventura faleceu, em setembro de 2026, não me vesti de luto – mas deveria. Na época, ele era só um nome, só mais um nome de uma lista de jornalistas. Assistindo ao documentário sobre ele, “Mestre Zu”, tive um vislumbre da magnitude do homem que viveu de palavras. O jornalista e literato, que só escrevia em cadernos com capas de motivos infantis, foi também eleito para a Academia Brasileira de Letras e influenciou sobremaneira o que eu faço aqui constantemente: jornalismo cultural.
O filme é, antes de mais nada, metalinguístico. Em questão de dois minutos, figuras diversas discutem POR QUE deveria ser feito um documentário sobre Zuenir Ventura. São sobretudo seus colegas de jornalismo que dão a resposta unânime, não com estas palavras: Zuenir Ventura é uma referência incontornável dentro do jornalismo brasileiro.
Nascido em 1931 em Além Paraíba, que curiosamente se localiza em Minas Gerais, foi aluno aplicado e apaixonado por redação. Estudou num colégio de padres no município de Ponte Nova até os dez anos, e depois partiu para completar os estudos em Nova Friburgo.
Formado em Filosofia – Letras Neolatinas no Rio, o jornalismo entrou em sua vida por acaso. Por acaso também conheceu Mary, jornalista como ele, que se tornou parceira de vida.

Entre as reminiscências do passado, narradas pelo próprio Zuenir e exemplificadas por fotos e imagens em movimento da época em questão, surgem os depoimentos de quem foi moldado pelo Mestre Zu.
Autor de “1968: O ano que não terminou”, ele afirmou que a geração brasileira de 68, a mais sofrida e heroica da nossa História, lutou contra inimigos palpáveis, diferente da mesma geração francesa, que lutava contra conceitos abstratos.
Os filhos Elisa e Mauro surgem ao lado dos pais contando sobre os meses que Zuenir ficou preso pela ditadura. Como aponta Gerson Camarotti, ser jornalista no Brasil dos anos 60 e 70 era um ato de muita coragem.
Criador dos termos “amizade colorida” e “vazio cultural”, foi no jornalismo cultural que encontrou terreno fértil para suas ideias e reportagens. Revolucionou a área com um misto de repertório imenso e leveza constante, rigidez e doçura, saber muito e não se levar a sério – nem deixar que ninguém se levasse a sério em demasia.
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Também esteve na linha de frente da cobertura do assassinato de Chico Mendes e acolheu no seio da própria família uma testemunha-chave do crime. Foi pioneiro ao noticiar a violência do poder paralelo nas favelas cariocas. Colocou no centro de reportagens personagens à margem da sociedade.

O caso de Zuenir Ventura poderia servir como evidência para quem defende que não é preciso ter diploma de graduação em Jornalismo para ser jornalista. Mas são raros os que nascem com as características de um bom jornalista, como Zuenir: bom ouvinte, curioso, com o dom da palavra escrita, fixador da frase “jornalista não conhece nada, mas conhece quem conhece”, ou seja, tinha faro para procurar as fontes.
Este homem cujo nome confundia as pessoas – deixando-as sem saber se era homem ou mulher, um nome que “era uma fatalidade” – é o último a receber crédito em seu próprio documentário, afinal, os créditos foram por ordem alfabética. Lembra-se daquele ditado que os últimos serão os primeiros? Em toda conversa sobre jornalismo cultural, jornalismo e literatura ou bom jornalismo de modo geral, o nome de Zuenir Ventura será sempre um dos primeiros a aparecer.
“Mestre Zu” chega aos cinemas em 22 de outubro. Confira o trailer:
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