Um dos grandes cronistas do Brasil, Millôr Fernandes escreveu que “O Brasil tem um enorme passado pela frente”. A frase, à sua maneira, hoje serve para introduzir “O Rei da Vela” no nosso tempo. Escrito em 1933 por Oswald de Andrade, o texto foi o disparador de uma revolução cultural no país ao ser encenado pelo Teatro Oficina, cerca de 30 anos depois.
Nesse “passado” que teima em ser nosso futuro, Abelardo 1 (interpretado por Roberson Lima) e Abelardo 2 (vivido por Gusttavo Baricocchi) lideram a elite brasileira, sua fome e sua estupidez, mas, sobretudo, seu narcisismo. Não por acaso, Oswald de Andrade usa Freud no texto como um tipo de fantasma intelectual que assombra a incivilidade da família de Abelardo e serve de espelho incômodo para refletir nossa pior imagem.

Se essa é uma história que se repete no palco e fora dele, assistir a uma encenação tão fresca e vívida de “O Rei da Vela” continua tão incômodo quanto na década de 60.
Com direção e concepção estética de Bianca Almeida, a montagem está em cartaz no Teatro Paiol, em São Paulo, unindo a sátira antropofágica a uma linguagem performática e contemporânea.
O presente, portanto, se mistura ao texto de Oswald de maneira natural. Por mais que o Grupo Corpoiésis tenha incluído alguns temas (Abelardo e Vorcaro, por exemplo, se confundem ainda que o nome do banqueiro não tenha sido mencionado no espetáculo), a “onda vermelha”, a facada de Pinote (Laura Rodrigo) ou o teor sádico e sexual que se vê no segundo ato são palavras de Oswald que estão preservadas.
O espanto em assistir a “O Rei da Vela” é justamente como o texto apresenta o imenso futuro que temos pela frente. Tudo que Oswald enxergou em 1927, quando finalizou a obra, está aceso até hoje. O que ela ilumina, contudo, é um engano. Com a proximidade do segundo turno das eleições, os personagens da peça saltam do palco para a urna, prometendo desfazer qualquer progresso em nome do conservadorismo que lhes é tão caro.
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Bianca não ignora as tramas paralelas que o Brasil cria toda semana, mas não se torna refém desses acontecimentos. Sua encenação parece mais preocupada em distender a “estética performática, transformando o corpo dos atores no principal vetor para desconstruir o poder do capital e expor a falência moral da elite brasileira”.

Isso pode ser visto no ótimo cenário – também criado pela artista – e na trilha sonora que costura a ironia do texto. “Secretária”, de Amado Batista, um homem de bem, fica ainda mais hilária no momento em que é apresentada.
Esses elementos apoiam a investigação do grupo e abrem os poros do texto de Andrade para a contemporaneidade. E o elenco entrosado consegue segurar a complexidade da dramaturgia. Mesmo em um grupo tão coeso, Laura Rodrigo (Pinote / D. Poloca), Odair Tossani (interpretando Cliente / Coronel Belarmino / Segurança / Totó Fruta-do-Conde) e Roberson Lima, como o protagonista, se destacam por equilibrarem humor e crueldade sem puxar demais para algum dos lados. Outra boa sacada da montagem é a inclusão da Narradora, feita por Roseane Noventa, como um tipo de “jornalista-atriz”. Ou melhor, como uma cronista. Como Millôr também foi, ela disputa espaço com o absurdo da realidade, mas atenta às notícias que o teatro pode revelar. O visual à lá Coringa é um achado.
No segundo ato, em um dos melhores momentos da peça, o Perdigoto / Americano, interpretado por Guto Tavares, nos lembra que as relações de poder brasileiras não são muito diferentes de um encontro no Madame Satã. A festa é a mesma. A decoração também. No Brasil, só a lista de convidados é que muda.
FICHA TÉCNICA
Texto: Oswald de Andrade
Direção: Bianca Almeida
Elenco: Roberson Lima, Gusttavo Baricocchi, Roseane Noventa, Amanda Dias Duarte, Laura Rodrigo, Odair Tossani, Guto Tavares e Fernanda Maldonado.
Cenografia e figurinos: Bianca Almeida
Confecção de cenário: Cynthia Chaves (thiaCyn) e Pablo Costa
Sonoplastia: Bianca Almeida
Produção executiva: Bianca Almeida
Realização: Grupo Corpoiésis
Patrocínio e apoio: DAZ e Padaria Olímpia
SERVIÇO
Classificação indicativa: 16 anos

