Maternar nos tempos do algortimo
Um plano à margem do Rio Guaíba abre o longa-metragem brasileiro Talismã (2026, Première Brasil: Competição Novos Rumos), de Thais Fujinaga. Quando o som das águas é interrompido por batidas de funk, cortamos para o visor de um celular em que a pequena Pina (Sophia Fuggacy) se filma dançando. Como é comum entre os nativos digitais, seus movimentos espontâneos são plenamente cientes da câmera. Com a trilha sonora de um gênero comumente associado à erotização, Pina dança com a inocência (e doçura) de alguém que gosta dos holofotes, mas não compreende seus riscos.
A filha

Algumas cenas mais tarde, sua mãe Tereza (Fernanda Chicolet, que também assina o roteiro) faz bico de dançarina em um restaurante grã-fino. Se a filha dança desajeitada pelo prazer de ser vista, a mãe precisa manter a compostura mesmo que ninguém esteja lhe dando atenção. Por mais que essa passagem não seja a apresentação oficial da protagonista, ela se relaciona com a abertura por ultrapassar o contraste geracional e estabelecer o dilema de celebridade versus artista que permeia toda a projeção.
Numa conversa com Fernanda Chicolet na saída da sessão, ela compartilhou que o incidente incitante (um salve para os roteiristas) de sua escrita foi um episódio do reality show Britain’s Got Talent. Nele, uma mãe exibicionista “acompanhava” a filha numa apresentação, deixando transparecer que o sonho era mais dela do que da criança. Quando a personagem Pina é escolhida para participar de um programa parecido, a alegria da mãe é coabitada por um sentimento de dúvida. O nome do reality ficcional do filme, “Talismã”, significa “amuleto de sorte”, enquando a opção por “Talent”, na legenda inglesa, aponta um marcador social de distinção.
A referência ao programa britânico traz outro ponto de interesse por se tratar do mesmo show que alçou a desajeitada Susan Boyle ao patamar de estrela. Uma virada de chave não só em termos de audiência, mas pela constatação de que a exposição nas redes sociais pode ser mais vantajosa do que qualquer prêmio. Por mais que a escocesa tenha enfrentado sequelas psicológicas a posteriori, o sonho de viralizar galvanizou multidões com muito menos talento.
A primeira apresentação de Pina no reality “Talismã” – cujo júri é também composto por uma jovem, uma mulher negra e uma bicha má – contrapõe a espera angustiosa da mãe do lado de fora. Cercada por mulheres ansiosas (e seus apavorantes convites para grupos de WhatsApp), Tereza observa os efeitos da rejeição (fruto não só das dificuldades do mercado, mas do sadismo desse formato) em pessoas no despontar da vida. Tal como no capitalismo, assumir o favoritismo significa deixar outros na tangente. E, apesar das habilidades limitadas, o carisma (e marra) de Pina apontam uma competidora apta. A pergunta que o filme não chega a responder é quem é seu verdadeiro oponente.
A mãe

O debate contemporâneo sobre maternidade esmiúça qual o grau de renúncia individual que acomoda (ou excede) a função. No caso das mães solo, a sobrecarga tende a ganhar as pequenas e grandes telas do nosso audiovisual com um viés problemático de santificação. Como se, na falta do casamento e da família tradicional, os realizadores recorrem ao imaginário da Virgem para confortar essas mulheres que sustentam tantos lares brasileiros.
Fernanda verbalizou que, ao longo do desenvolvimento, sua intenção inegociável era construir uma protagonista imperfeita. Um esforço que se sustenta também por seu trabalho como atriz. Tereza contrabalança gênio e passividade, postura e desleixo, sensualidade e baixa autoestima. É uma com o pai (Stepan Nercessian, sempre simpático), outra com a filha, e uma terceira com o colega de trabalho e pau-amigo (Allan Souza Lima, outra visão agradável). Ainda assim, as partes comunicam um todo na elaboração de uma mulher possível. “Eu não quero dar jeito, eu quero dar certo!”, brada, com um quê de melancolia.
A ambivalência da personagem em relação ao seu status social – querer vencer, mas estar drenada pela rotina e a passagem do tempo – afeta aos poucos sua torcida pela filha. Em um plano em que ela sobe no palanque com a criança pedindo votos na internet, a câmera demora em seu rosto até seu sorriso desaparecer. Por um lado, há a preocupação de estranhos tentando carregar Pina no colo. Por outro, o assombro de um fantasma de substituição. A criança não é um prodígio da dança, mas o nome dela ecoa na multidão de um jeito que o seu jamais ecoou. Se o senso comum diz que o papel da mãe é tornar-se desnecessária, o que fazer com a mulher que sobra quando todos os olhares se voltam para a filha?
Por debaixo da pele, o filme nos conduz para uma gradação de violências. A adorável Pina é também uma criança intransigente e intempestiva que a mãe nunca chega a repreender de fato – afinal, o defeito é também seu charme. Além disso, Tereza não sustenta seus posicionamentos frente ao programa, entubando os maus tratos dos assistentes, assinando contratos sem ler e anuindo (não sem resistência) com um corte de cabelo mais próximo de uma lesão corporal. Quando o carisma da filha arrefece, a mãe tenta compensar com um rigor técnico inoportuno.
LEIA TAMBÉM: 11 melhores filmes para ver na Netflix (Setembro/Outubro de 2026)
A tentativa frustrada de Tereza de se apresentar com Pina rompe com outra referência com a qual o filme flerta: o longa-metragem Pequena Miss Sunshine (2006, Valerie Faris, Jonathan Dayton). Além das semelhanças de arena, a obra é citada por manuais e atividades de roteiro pelos pontos de virada que afastam a personagem-título de seu objetivo (vencer a competição), mas a aproximam de sua necessidade (unir a família).
Mas a invasão do palco (e da plateia) pela protagonista de “Talismã” carrega uma conotação diferente de proteger a criança do constrangimento público. A meu ver, parece uma cartada da personagem em fazer o momento da filha ser, na realidade, sobre ela. “Você não queria aparecer? Apareceu!” diz uma amiga enquanto vê a desclassificação de Pina e a recepção do episódio nas redes.
A direção e o roteiro fazem o movimento sensato de não colocar em causa o amor de Tereza pela filha, atribuindo seus erros com e sem intenção a sua dimensão humana. Ainda assim, o filme reservou sua cota de piscadelas para o público, como a participação da cantora Karol Conká anunciando Pina e sua mãe como a dupla “cancelada” que, ironicamente, conquistou adesão popular.
Uma segunda chance de aparecer no programa – fora da competição que transformou mãe e filha em motivo de chacota – é o caminho esperado para um filme tão comprometido com sua estrutura narrativa. E é no limbo entre a destruição e reconstrução parcial do sonho que a atriz-mirim Sophia Fuggacy apresenta suas nuances mais sofisticadas. A Pina que sobe na barca para o encerramento é radicalmente diferente da que conhecemos pelo visor do celular.
Sendo assim, é agridoce que um filme sensível a troca de olhares – o plano de Tereza se solidarizando com o malabarista de fogo – termine com uma live para as redes sociais. Por mais que as métricas do algoritmo não sejam as mesmas dos reality shows, não seria o resgate do elo mãe e filha mais curativo do que uma reavaliação da opinião pública? Com a presença virtual de estranhos naquele momento tão íntimo, fico na dúvida se Tereza supriu sua necessidade de se reaproximar de Pina sem renunciar a seu desejo de voltar algo dos holofotes para si. O close-up no rosto da mãe como imagem de encerramento é um forte indício de que o filme é verdadeiramente sobre ela.
- Texto produzido no âmbito do programa Talent Press, realizado pelo Festival do Rio de 5 a 11 de outubro de 2026.
Confira o site oficial

