Ano passado tive a oportunidade de ver a exposição sobre Laudelina de Campos Melo no Instituto Moreira Salles de Poços de Caldas, cidade natal da ativista. Uma das peças da exposição era um risco no chão e um colchão simbolizando o espaço médio do quartinho destinado às empregadas em casas de famílias. Foi claustrofóbico. Mesmo que fosse usado só para dormir, era um espaço demasiado pequeno para qualquer ser humano e insignificante para quem se dispunha a “abrir mão” dele para sua funcionária.
No encerramento da exposição, houve uma roda de conversa com uma empregada doméstica. Muito mais do que almejar ser “quase da família”, ela e muitas outras na profissão anseiam ser ouvidas e, acima de tudo, respeitadas pelo árduo trabalho que fazem. É preciso dar voz às empregadas domésticas. E é isso que faz o documentário “Aqui Não Entra Luz”, de Karol Maia.
Não é de se espantar que uma das primeiras imagens do documentário, na qual a câmera se demora, seja de uma gaiola de pássaros, logo após a narradora falar que aprendeu na prática com a mãe empregada doméstica a diferença entre liberdade e controle ao comparar as casas que a mãe limpava com a casa em que a família morava. Ela convivia com a família da patroa fazendo o mínimo de bagunça possível quando a mãe a levava para o trabalho para que elas tivessem algum tempo juntas. Como vários outros documentários, Karol Maia partiu do pessoal e expandiu para o coletivo, através de entrevistas com cinco empregadas domésticas.

Rosarinha sonhava em ser professora e ter uma toalha para enrolar o cabelo como um turbante, mas só pôde realizar um destes sonhos. Cris passou de mão em mão e foi mandada por uma tia racista para trabalhar, ainda criança, para uma pastora que automaticamente tirava o dízimo do “salário” da menina. A alegre e vaidosa Mãe Flor (foto acima) se realizou vendo o sucesso dos filhos, depois de anos de trabalho duro em verdadeiros casarões de sinhás e sinhôs. Marcelina conseguiu se aposentar aos 48 graças às leis que respaldam os direitos das domésticas; além de ficar feliz com as coisas simples da vida, diz, cheia de orgulho, que pôde dar apoio à mãe. E, depois de muito insistir, Miriam, mãe da diretora, tenta se justificar por ter guardado uma foto da menina de quem cuidava junto às fotos de sua própria filha.
O quartinho de empregada é invenção brasileira e herança escravocrata – o que não é de se espantar no país que foi o último do mundo a abolir a escravidão e continua profundamente racista. O cômodo existe para demonstrar uma hierarquia e provocar uma segregação, servindo como um símbolo de inferioridade das empregadas frente aos patrões. Assim como os elevadores de serviço, o quartinho é uma continuidade da divisão colonial entre casa-grande e senzala e prova de que a arquitetura também conta uma narrativa histórica.

Uma pesquisa de 2009 com mais de 300 empregadas domésticas revelou que 26% delas sofreram violência sexual no emprego. No documentário Rosarinha diz que não foi estuprada, mas foi provocada e diminuída como mulher pelo filho da patroa. Nessa profissão que muitas vezes passa de mãe para filha, o abuso é até naturalizado, mas precisa ser combatido. E falar sobre ele é o primeiro passo.
Os relatos são mais doloridos para quem escuta do que para quem narra, aparentemente. Coisas ditas com tranquilidade nos causam repulsa, revolta e demonstram desamparo da família e prepotência dos patrões. Apesar de muito haver avançado com uma lei de 2015 regulamentando o trabalho doméstico, ainda precisamos percorrer um longo caminho para garantir a proteção integral dessas seis milhões de trabalhadoras verdadeiramente essenciais.
“Aqui Não Entra Luz” é distribuído pela Embaúba Filmes e chega aos cinemas em 07 de maio. Confira o trailer:
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