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Literatura

“Os olhos de Capitu”, de Flávio Adriano Nantes: entre mulheres, silêncios e mães

por Bia Fonseca 12 de janeiro de 2026
por Bia Fonseca 12 de janeiro de 2026 0 comentário

Ler as ficções presentes em Os olhos de Capitu (2024), de Flávio Adriano Nantes, é tornar-se um dos ouvintes íntimos de suas narradoras (a maioria) ou narradores e personagens. Como se a cada título a leitora-leitor fosse convidada a tomar um chá de hortelã ou cidreira para ouvir sobre individualidades transformadas dialogicamente a partir da quebra do ordinário, do registro histórico ou do canônico. Na exploração de cheiros, sabores e canções como as de Leila Maria ou Cazuza, bem como os nus de Egon Schiele ou a dura poética de Caio Fernando de Abreu, silêncios e desejos estabelecedores da complexidade humana se apresentam e nos obrigam a olhar de maneira cuidadosa e afável para tramados discursivos da contemporaneidade.

“Os olhos de Capitu”, conto que intitula a obra de Flávio Adriano Nantes, sintetiza em si alguns dos universos narrativos que comporão os demais contos. A Capitu machadiana, com tudo o que há de masculino e canônico em sua formação, toma para si o protagonismo narrativo da própria história, nela o universo feminino tenta sobreviver aos silenciamentos seculares e existenciais provindos da escrita do “bruxo” autor. Este a perpetuaria como mulher forte e capaz de defender-se pelo uso de seus ditos “olhos mentirosos”, mas sem direito ao próprio pronunciamento. Outra mulher da ficção é retomada em “Sorriso em flor de ponciá”, em uma espécie de releitura da heroína de Conceição Evaristo – Ponciá Vicêncio (2017).  Ponciá ressurge em outro corpo- narrativa, mas com o olhar poético para misérias e belezas de sua narração criadora.  Dois corpos de mulheres pretas unem-se na descoberta do prazer-desejo. Ponciá, a dona de um “sorriso em flor” reservado a plantas e músicas, por fim, ao desejar a Maria dos Prazeres, passa a expressar um “sorriso em flor” que se expande para além das pequenas alegrias de uma vida ordinária. 

Tal como Capitu, é a mulher que toma para si o relato do Novo Testamento em “Memórias antigas”, dentro de um universo atemporal, onde Maria Magdalena é uma anônima que conta sua história a certo ouvinte que também se sente desamparado e com quem compartilha uma cerveja. Sua narração em primeira pessoa oferece ao amigo transitório do bar o testemunho da humanidade existente no deus a quem teria conhecido há tempos, o profeta que a acolheu quando todos a abandonaram, mas sem nunca lhe ser dada voz oficial, nem na última ceia, tampouco na escritura sagrada. Ao mesmo tempo em que a figura histórica de Xica Manicongo, de “O império congo” ganha os contornos detalhados de uma onisciência seletiva que define a protagonista a partir da noção de lugar e pertencimento, quando a personagem impõe sua identidade travesti a partir do reconhecimento de si enquanto corpo dissidente e da recusa ao esquecimento de seu povo, cuja história inabalável oferece-lhe voz e resistência. 

 As individualidades que se apresentam nos contos de Os olhos de Capitu permitem a subjetivação de traçados das narrativas presentes em literaturas canônicas e histórias ditas oficiais, conforme vimos acima. Assim como singularidades destacam-se de coletivos quando marginalidades sociais ganham contornos poéticos e apelam à memória e ao desejo.  Na leitura de “Os peixes e a bicicleta” acompanhamos lembranças de uma infância marcada pelo abandono paterno e pela pobreza. Ao mesmo tempo, as figuras dos peixes e da bicicleta, que intitulam o conto, surgem como rastros de memória e possibilitam a interrupção do silencio. Apesar da ferida aberta pela dor do abandono, a memória afetiva de um passeio de bicicleta oferece ao protagonista o reencontro amoroso com a figura materna e com a própria história. Neste texto dois elementos constantes na obra de Flávio se apresentam na criação de universos individuais diante de coletivos: a figura da mãe e o silêncio. 

O primeiro desejo erótico da personagem narradora tem como alvo os nus masculinos de Schiele em “A mãe e o namoradinho de Egon Schiele”. Trata-se, no entanto, de um primeiro amor negado no seio familiar. Mãe e filho constituem-se de forma conflituosa a partir de retratos familiares e do referido artista, além da canção apaixonada de Leila Maria. Suas existências se unem em um abraço de conciliação e resistência. 

A exploração do não dito em contexto familiar é experimentado no conto “Tulipa e Flora”, onde os nomes de mãe e filha intitulam o relato centrado na personagem Tulipa, mãe de Flora, ambas sobreviventes à ausência de um homem que deveria ser marido e pai. A vida morna da mulher madura Tulipa é atravessada pelas saudades de Flora – vida com gosto de “saudade, sal e chá de hortelã” – e pelo desejo de um passado que não é seu –  os anos 60 regados por músicas de Janis Joplin –, na expectativa de uma revolução que não veio, e pela convivência esporádica e marginal com a masculinidade, através da representatividade secundária de Ric. 

A figura materna tão constante na obra de Flávio Adriano intitula o conto “Mãe”, correspondente à personagem que se torna objeto de investigação da filha, narradora personagem que buscará compreender o silêncio e a limpeza excessiva característicos de sua criação exclusivamente materna. A narradora descobrirá que sua existência é atravessada pela luta contra o sistema ditatorial vigente nas décadas de 60 e 70, e da consequente tortura sofrida pelos seus pais, o que a faz tomar ciência do assassinato do pai pelo Estado e ao consequente compartilhamento do silêncio com sua mãe, a partir da verdade descoberta: “Minha mãe continua em silêncio. Agora eu também”. (p. 45) O silêncio matriarcal mais uma vez é a questão em “Fernanda, Magnólia e Cristina”, interferindo na relação entre as personagens. Fernanda impõe o silêncio como forma de manutenção do segredo sobre a origem de Magnólia, fruto de violência. O segredo conecta as três personagens e as condena:  Magnólia, ao desconhecimento. Fernanda e Cristina, à dor e à culpa. 

  Sentimos a miséria humana da pobreza e da violência em corpos oprimidos que carregam terços religiosos de um passado breve e acolhedor em “Na praça santa”, onde Juliete e Sara Maria nomeiam existências de um mesmo ser em um mesmo espaço, a praça da igreja, primeiramente desejada e depois atravessada pelos passos duros da pobreza, da solidão e, enfim, da morte.  O drama da escassez também está presente no conto “Sonhos”, mas sem a solidão de “Na praça santa”. Na referida narrativa, Mariinha, Fefa e Bilu são crianças que alimentam desejos inocentes tornados preciosos diante da pobreza que cerca suas vidas, mas também da solidariedade maternal e comunitária que as une. Maçãs argentinas, moreninhas de sabor morango e sonhos de valsa compõem universos de desejos, frustrações e lutas que culminam em existências marcadas por ingressos antecipados à vida adulta, mas não ao abandono da inocência convertida em arte e educação, nas histórias contadas por Bilu, escritor e artista circense, em um orfanato.

As existências que permeiam os contos desta coletânea são ao mesmo tempo únicas e coletivas. A constituição de individualidades atravessadas por coletivos vigilantes e silenciadores apresenta-se em “(não) é carnaval”, onde a travesti que tenta participar da dita alegria compartilhada do carnaval, percebe-se sozinha e sob olhares que atravessam seu corpo, mas sem vê-la. Esse olhar para o outro é feito de maneira muito mais ousada pela personagem que intitula “Mme Susette”, uma cafetina que carrega consigo as vivências de qualquer mulher: putas como ela, donas de casa, mães, religiosas, dentre tantas outras. A imagem de Maria Felipa a enfeitar o casarão de Mme Susete revela a firmeza e a resiliência que caracterizam essa personagem e toda a memória histórica que ela carrega. 

Em “Os silêncios de Theo – epístola 1ª”, a personagem protagonista que intitula o conto encontra na solidão um refúgio e no silêncio, sua única “imensidão possível”, uma forma de sobrevivência a toda a violência sofrida por parte de um coletivo que, nas palavras do narrador, atua sobre Theo com vigilância e, ao mesmo tempo, o invisibiliza. Theo, conforme sinaliza as origens de seu nome, parece encarnar uma espécie de deus compositor de um mundo só seu. Nesta e outras narrativas de Flávio, expressa-se o artista diante do mundo e do coletivo que o conforma e, paralelamente, pode estabelecer com ele uma linha de opressão. Tal como ocorre em “Lia”, que traz o lugar recorrente da “escola-inferno”, espaço opressor, que impõe dissidência a existências do coletivo. 

Leia também: “Poesia Vária”: Felipe Mendonça encara sua biblioteca de leituras para compor seu próprio universo poético

“Liturgia do corpo – epístola 2ª” é narrado em primeira pessoa por um sujeito que, na sua dificuldade de comunicação com o mundo, vivencia a si, seu corpo e a palavra, na busca de “uma vivência libertária”. Os textos “Os silêncios de Theo” e “Liturgia do corpo” encerram-se com registros de epístolas, o que é possível prever em seus títulos. Neles há a perpetuação da palavra sobre a existência de corpos que compõem coletivos que sofrem pela outrofobia. Também em “O império congo”, já mencionado, escritos de Xica Manicongo que teriam sido achados na Torre do Tombo finalizam a narrativa e marcam, dessa vez, a perpetuação da palavra como elemento de afirmação social do ser. 

Vemos em todas as narrativas buscas por solucionar-se contextos de incompletude. Em “Desejos”, a voz feminina de alguém que pensa que não pertence a este mundo associa-se, de forma instrospectiva, a existências de mulheres marcadas pela busca incessante de si, como Electra e Frida. No título “Elas”, lemos sobre mulheres irmãs submetidas à violência patriarcal e ao desejo de saltar para um lugar outro, sonhado, constituído, quem sabe, a partir de brincadeiras com bonecas de espiga de milho. Elas buscam a liberdade em um mundo que não lhes autoriza a existência plena, nem a manifestação de seus desejos. Essas mulheres se conjugam em um corpo feminino que lhes oferece sustento depois de saltar para um mundo além de sua existência. 

No conto introdutor da obra, “Deus eu tentei”, somos apresentados a uma voz narrativa em primeira pessoa que é detentora do desejo por um outro a quem se espera. Músicas, fotografias e literatura assumem papéis de compreensão do passado e de reconstituição de uma individualidade marcada pela solidão e pela busca de si. Já em “Uma história”, essa busca individual ocorre a partir da interação íntima de um casal quando, sob o argumento de que contar histórias, nos permite ver e sentir o outro e de que os segredos enlaçam vidas, um dos dois coloca-se na posição de ouvinte do parceiro narrador, que protagonizará um relato a respeito de desejos cingidos sob os signos da violência e da correção, mas também da infância regada por sonhos de voo e pela presença confortável da mãe, com seu chá de cidreira e olhar doloroso. Uma história também poderia ser contada em “Ao telefone”. Neste texto, uma proposta de conversação prosaica ao telefone leva à confissão das saudades do estar junto, das conversas e até mesmo dos “silêncios na fala” de um outro que prefere a solidão. A angústia dos encontros, na exploração da nossa incapacidade de comunicação encontra- se no relato que fecha a obra de Flávio, “Na partida”, onde dois estudantes de arqueologia buscam edificar suas vidas a partir da busca de um pelo outro. A “partida” marca o fim dessa edificação, para a continuidade da arquitetura de si mesmo pelo narrador personagem com fragmentos da memória-desejo de um relacionamento marcado por silêncios mútuos. 

A composição literária encontra-se tematizada em “Restos”, no qual fragmentos e palavras guardadas se misturam e, no interior do eu poético, revolvem-se e se perdem. A poeta de textos engavetados se perde em si, e em sua solidão. Já em “A trilogia da existência”, palavras chovem da solidão de um sujeito constituído de silêncios e do deserto onde olhares outros e dele próprio o desacreditam. Para este sujeito as folhas são como a existência, não tem um paradeiro exato quando revolteiam. O olhar de uma escritura volta-se para pinturas rupestres em “Retratos”, outro conto que propõe uma reflexão sobre o estar no mundo e sobre a escrita. Tentativas frustradas de fuga da realidade levam a mulher narradora a ver-se fragmentada e como parte constituinte das personagens que cria. 

 No conto “Uma escritora de domingo”, a ficção literária encontra ressonâncias em jogos de tarô, na percepção dos traços oraculares que poderiam existir nos dois textos, possibilidade que é explorada pela personagem protagonista ao tentar resolver seu conflito com o objeto de criação romanesca, uma taróloga com a qual, assim como com suas demais personagens, se identifica a ponto de sê-la. A escritora deste conto é suas mulheres. A mulher que se pretende autora de mais um romance vê-se diante da angústia da escritura, em conflito com a ideia de invenção e do diálogo inevitável com o cânone. Ao mesmo tempo a vida amorosa e sua vontade de afirmar-se em suas escolhas faz com que aceite o desafio da composição. Os olhos de Capitu, de Flávio Adriano Nantes, é composto por universos que ressignificam indivíduos em suas coletividades e histórias. Neles os silêncios marcam fragmentos de lembranças e desejos. Capitus, Ponciás, Magdalenas e Xicas impõem o protagonismo de suas vozes, dentre gritos travestidos de silêncios e desejos que permeiam realidades cotidianas e nelas buscam seu lugar. A figura da mãe, tematizada em alguns textos e atravessada em outros, surge oferecendo a personagens-autor-narração o afago dos chás, com resquícios de memórias que, da maneira mais delicada, nos lançam para dores e injustiças outrora caladas, e que nestas narrativas querem dizer aos leitores e principalmente às leitoras, tal qual Leila Maria, na epígrafe de “o namoradinho de Egon Schiele”: “qualquer dia eu vou gritar o que existe entre nós’ (p. 81).

Resenha por Joanna Durand Zwarg

Sobre o autor:

Flávio Adriano Nantes é prof. de Teoria e Crítica Literária da UFMS, pesquisador e escritor. Publicou  Desejo sitiado, Os olhos de Capitu, Palimpsestos de silêncios, Biopoesia, Amar-lutar. Ao longo de sua produção literária, construiu um projeto est(ético) que trata de representar, seja na poesia ou prosa, corpos que historicamente foram subalternizados, injuriados, violentados, silenciados, olvidados por instâncias políticas: LGBTQIAPN+, as/os negras/os, as/os indígenas, as pessoas empobrecidas, etcetera.

Ademais, foi vencedor do Prêmio Noite da Poesia (União Brasileira de Escritores de Mato Grosso do Sul), finalista do Prêmio Tuiuiú, com o livro Os olhos de Capitu, e duas vezes finalista do Prêmio Anna Maria Martins de Contos (União Brasileira de Escritores de São Paulo).

Compre o livro aqui!

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Bia Fonseca

Bia Fonseca é formada em História, Direito e Letras-Inglês, tendo enveredado pelo caminho das Letras após uma especialização em Leitura e Produção Textual. Hoje, trabalha na área da educação a distância e da tradução e no tempo livre se debruça sobre a literatura contemporânea e estuda chinês.

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