Palavras de Saramago: declarações sobre política e sociedade

Em outra matéria, fizemos uma seleção das melhores declarações do escritor português José Saramago sobre a vida e o oficio literário reunidos no livro intitulado As palavras de Saramago. A obra, organizada pelo também escritor Fernando Gómez Aguilera, traz uma compilação de trechos extraídos de jornais, revistas e livros de entrevistas, publicados em diversos países, entre a metade dos anos 1970 até 2009. Reunimos aqui os melhores excertos dos pensamentos e das reflexões críticas sobre política e sociedade.

Eu sou uma pessoa pacífica, sem demagogia nem estratégia. Digo exatamente o que penso. E o faço de forma simples, sem retórica. As pessoas que se reúnem para me ouvir, e com sua independência concordam ou não com o que penso, sabem que sou honesto, que não procuro conquistar nem convencer ninguém. Parece que a honestidade não é muito usada nos tempos atuais. Elas vêm, ouvem e se vão contentes como quem tem necessidade de um copo de água fresca e o encontra ali. Eu não tenho nenhuma ideia do que vou dizer quando estou diante das pessoas. Mas sempre digo o que penso. Ninguém nunca poderá dizer que eu o enganei. As pessoas têm a necessidade de que se fale com elas com honestidade. (José Saramago, 2003)

O CIDADÃO QUE SOU
COMPROMISSO

Não vou usar a literatura, como nunca o fiz, para fazer política; isso não faz parte dos meus planos. O trabalho literário é uma coisa, a política é outra, ainda que esse trabalho literário possa, sem deixar de sê-lo, ser também um trabalho político; mas o que eu faço, e os leitores sabem disso, é usar a literatura para fazer política.

 

O que eu digo é que eu tenho, como cidadão, um compromisso com o meu tempo, com o meu país, com as circunstâncias, digamos, do mundo. Eu não posso virar as costas a tudo isso e ficar a contemplar minha obra. O futuro irá julgar a obra do autor, mas o presente tem o direito de fazer um juízo sobre o autor, o que ele é.

 

Tomo muito cuidado para não transformar meus romances em panfletos, apesar de ser marxista e comunista de carteirinha. Tenho algumas ideias, e não separo o escritor do cidadão, das minhas preocupações. Creio que nós, escritores, devemos voltar às ruas e ocupar novamente o espaço que tínhamos antes e que agora é ocupado pelo rádio, pela imprensa ou pela televisão. É preciso, além disso, estimular o humanismo, fazer com que todos saibam que há milhares e milhares de pessoas que não podem nem sequer se aproximar do desenvolvimento.

 

O que quero dizer é que não vejo nenhum motivo para deixar de ser aquilo que sempre fui: alguém que está convencido de que o mundo em que vivemos não vai bem; convencido de que a aspiração legítima e única que justifica a vida, ou seja, a felicidade do ser humano, está sendo fraudada diariamente; e que a exploração do homem pelo homem continua a existir. Nós, seres humanos, não podemos aceitar as coisas tais como elas são, pois isso nos conduz diretamente ao suicídio. É preciso acreditar em algo e, sobretudo, é preciso ter um sentimento de responsabilidade coletiva, pelo qual cada um de nós é responsável por todos os outros. E isso eu não consigo ver no capitalismo.

 

Se o escritor tem algum papel, é o de incomodar.

 

Auschwitz não está fechado, está aberto, e suas chaminés continuam soltando a fumaça do crime que se comete a cada dia contra os mais frágeis. E […] eu não quero ser cúmplice, com a comodidade do meu silêncio, de nenhuma fogueira.

 

Não há nenhum caminho tranquilizador à nossa espera. Se o queremos, teremos de construí-lo com as nossas mãos.

 

É hora de gritar, pois, se nos deixamos levar pelos poderes que nos governam, e não fazemos nada para se contrapor a eles, então pode-se dizer que merecemos o que temos.

 
CIDADANIA

Assistimos ao que eu chamo de a morte do cidadão. O que temos no seu lugar, e cada vez mais, é o cliente. Hoje em dia, ninguém pergunta o que você pensa, mas sim que marca de carro, de roupa ou de gravata você usa e quanto ganha…

 

Ninguém assume suas responsabilidades, muito menos os governos, porque não sabem, porque não podem, porque não querem ou porque isso não lhes é permitido por aqueles que realmente governam o mundo: as grandes empresas multinacionais, pluricontinentais, que detêm todo o poder. Não podemos esperar que os governos façam nos próximos cinquenta anos o que não fizeram ao longo dos cinquenta anos que hoje comemoramos. Que nós mesmos façamos com que nossa voz seja ouvida, com a mesma ênfase com que até o momento temos exigido o respeito aos direitos humanos. Tornemo-nos responsáveis por nossas obrigações como cidadãos, sejamos cidadãos comuns da palavra, e assim o mundo talvez poderia ficar um pouquinho melhor. Assumamos as responsabilidades que nos cabem.

POLITICA

Sem política não se organiza uma sociedade. O problema é que a sociedade está nas mãos de políticos profissionais.

 

Pedem os nossos votos apenas para homologar uma porção de coisas, de cujas definições não participamos. Pedem-nos apenas os votos, e não que participemos. E a cada quatro anos comparecemos para votar, felizes, acreditando que estamos fazendo algo muito importante, mas o que é realmente importante já aconteceu no intervalo desses quatro anos. Com isso, não estou condenando os políticos, pois a política é uma coisa vital e todos nós temos de exercê-la.

 

MEIOS DE COMUNICAÇÃO

Se a única coisa que se oferece às pessoas é o lixo televisivo, escondendo-se delas outras coisas, elas acreditarão que não existe nada além desse lixo. Nessas circunstâncias, reina a audiência, e na disputa por ela aceita-se até mesmo matar a própria mãe. Os meios de comunicação têm grande parte da responsabilidade por isso, embora seja necessário sempre perguntar quem é que movimenta os seus fios. Por trás há sempre um banco ou um governo.
Um jornal independente? Uma rádio livre? Uma televisão objetiva? Isso não existe. Esta mistura, do lixo televisivo com os meios dependentes, faz com que a sociedade se encontre gravemente adoecida.

 

DIREITOS HUMANOS

Os direitos humanos… quantos deles são realmente aplicados? Por que não são aplicados? De quem é a responsabilidade pelo fato de que eles não são aplicados? O combate que vale a pena no novo século é o combate pelos direitos humanos, e a tendência, caso não saibamos reagir a tempo, é de perdê-lo […]. Existe uma incompatibilidade radical entre globalização econômica e direitos humanos.

 
PENSAMENTO CRÍTICO

Estamos destruindo o planeta e o egoísmo de cada geração não a deixa se preocupar em perguntar como viverão os que vierem depois. A única coisa que importa é o triunfo do presente. É isso que eu chamo de “cegueira da razão”.

 

A diferença [entre a ditadura convencional e a do capitalismo] é que não é a ditadura como nós conhecemos. É o que eu chamo de “capitalismo autoritário”. A ditadura tinha cara, e nós dizíamos é aquele, ou aqueles militares, o Hitler, o Franco, o Pinochet, mas agora não tem cara. E como não tem cara não sabemos contra quem lutar. Não há contra quem lutar. O mercado não tem cara, só tem nome. Está em toda parte e não podemos identificá-lo, dizer “eis tu”. Mesmo as pessoas que lutaram contra a ditadura, entrando na democracia acham que não têm mais que lutar. E os problemas estão todos aí. O mercado pode se tornar uma ditadura.

 

O tempo das verdades plurais acabou. Agora vivemos no tempo da mentira universal. Nunca se mentiu tanto. Vivemos na mentira, todos os dias.

 

Assim como a religião não pode viver sem a morte, o capitalismo não apenas vive da pobreza como a multiplica.

 

Espera-se que a escola eduque e a escola não o pode fazer porque não sabe e, mesmo sabendo, não tem os meios que seriam necessários. A educação é outra coisa! Fazia parte das obrigações da família, digamos assim, e de alguma forma também de uma sociedade educada que necessariamente produziria mais ou menos cidadãos educados. Agora vivemos numa sociedade deseducada, vivemos num processo de deseducação integral […]. Chega ao extremo, e isso deixa-me confuso, de os professores estarem sujeitos à agressão.

 

Fonte: AGUILERA, Fernando Gómez (Org.) As palavras de Saramago. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

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