4 “poemas-porrada” de Sylvia Plath

[As traduções dos poemas e o título do texto foram retirados do artigo “Sylvia Plath: quatro “poemas-porrada”, de Marina Della Valle, publicado na Revista Cadernos de Literatura em Tradução, n. 7]

O jorro de sangue é poesia.
Não há como estancar.

Sylvia Plath foi uma poetisa, romancista e contista norte-americana, nascida em 1932. Sua poesia é marcada por força, crueza e potência, com referências a suas experiências cotidianas e constantemente marcada pela presença da morte. Plath, que perdeu o pai quando criança, tentou o suicídio diversas vezes, até o dia em que se matou com a cabeça dentro do forno enquanto as crianças dormiam.

A jornalista Marina Della Valle selecionou, em um artigo, quatro “poemas-porrada” da autora, todos muito intensos e, como já esperado, são como socos na boca do estômago, “peso-pesado no conteúdo mas sutil na forma”. Confira:

1- Papai

Você não serve, você não serve,
Não serve mais, sapato negro
Em que eu vivi como um pé
Por trinta anos, branca e pobre,
Mal me atrevendo a um espirro sequer.

Eu tive de matar você, papai.
Você morreu antes que eu pudesse
– Peso de mármore, saco repleto de Deus,
Estátua medonha com um dedão gris
Do tamanho de uma foca de Frisco

E uma cabeça onde o estranho Atlântico
Derrama o verde-vagem sobre o azul
Nas águas da magnífica Nauset.
Eu rezava para recuperá-lo
Ach, du.

Na língua alemã, na vila polonesa
Aterradas pelo rolo-compressor
Das guerras, guerras, guerras.
Mas o nome do lugar é comum.
Diz meu amigo polaco
Que há uma ou duas dúzias.
Assim nunca soube onde você
Fincou seus pés, suas raízes,
Com você nunca pude falar.
A língua presa no maxilar.
Arapuca de arame farpado.
Ich, ich, ich, ich,
Mal conseguia dizer.
Em todo alemão vi você.
E a linguagem obscena
Uma locomotiva, uma locomotiva
Em vapores me leva como Judia.
Uma Judia para Dachau, Auschwtiz, Belsen.
Passei a falar como uma Judia.
Acho que bem posso ser Judia.
A neve do Tirol, a cerveja clara de Viena
Não são lá muito puras ou genuínas
Com minha ancestral cigana, minha estranha sina
E meu baralho de tarô, meu baralho de tarô
Eu devo ser um pouco Judia.
Você sempre me meteu medo,
Com sua Luftwaffe, seu papo furado.
E o seu bigode asseado
O olho ariano, bem azulado.
Homem-panzer, homem-panzer, oh Você
Não Deus, mas uma suástica.
Tão negra que nem céu vara.
Toda mulher adora um Fascista,
A bota na cara, o bruto
Coração de um bruto da sua laia.
Você está de pé na lousa, papai,
Na imagem que levo comigo,
Em vez do pé, o queixo fendido,
Mas não menos diabo por isso, oh não
Não menos que o homem que em dois
Partiu meu belo e rubro coração.
Eu tinha dez anos quando o enterraram.
Aos vinte, eu tentei morrer
E voltar, voltar pra você.
Achei que mesmo os ossos serviram.
Mas me puxaram saco afora,
Juntaram meus pedaços com cola.
E aí eu soube o que fazer.
Eu fiz um modelo de você,
Homem de negro, Meinkampf no jeito
À tortura e ao torniquete afeito.
E eu disse aceito, aceito
Então, papai, finalmente acabei.
Arranquei o telefone negro da raiz,
As vozes já não rastejam até aqui.
Se matei um homem, matei dois
– O vampiro que me disse ser você
E sugou meu sangue por um ano afora,
Sete anos, se quiser saber
Papai pode voltar a se deitar agora.
Há uma estaca em seu coração negro
E os homens da vila jamais gostaram de você.
Estão espezinhando, dançando sobre você.
Eles sempre souberam que era você.
Papai, papai, seu canalha, acabei.

2- Olmo (para Ruth Fainlight)

Conheço o fundo, diz ela. Conheço-o com minha raiz mestra:
É o que temes.
Não o temo: eu estive lá.

É o mar que ouves em mim,
Suas insatisfações?
Ou a voz do nada, era essa tua loucura?
O amor é uma sombra.
Como mentes e choras em seu encalço
Escuta: são seus cascos: disparou, como cavalo.
Toda a noite devo assim galopar
Até fazer de tua cabeça rocha, de teu travesseiro gramado,
Ecoando, ecoando.

Ou devo te trazer o som dos venenos?
Agora é chuva, este grande silêncio
E seu fruto: branco-metálico, como arsênico.

Sofri a atrocidade dos poentes.
Escorchada até a raiz.
Meus fios rubros queimam e eriçam, mão de arame.

Agora me desfaço em pedaços que voam como tacos.
Vento assim violento
Não tolerará nada ao redor: preciso gritar.

A lua, também, é impiedosa: ela me arrastaria
Cruelmente, já que é estéril.
Sua radiância me corrói. Ou quem sabe a peguei.
Deixo que se vá. Deixo que se vá.
Diminuída e chata, como após cirurgia radical.
Como seus pesadelos me possuem e me dotam.

Sou habitada por um grito.
Quando é noite ele se agita
Procurando, com suas garras, por algo para amar.

Tenho pavor dessa coisa escura
Que dorme em mim;
Todo o dia sinto seu retorcer emplumado, sua índole ruim.

Nuvens passam e se dispersam.
São essas as faces do amor, pálidas irremediáveis?
É por tanto que agito meu coração?

O que é isto, esta face
Tão criminosa em seu sufocar de galhos?
– Teus ácidos ofídicos silvam.

Petrificam a vontade.
São essas falhas lentas, isoladas
Que matam, matam, matam.

3- Lady Lázaro

Eu fiz outra vez.
Um ano em cada dez
Eu dou um jeito –

Como milagre ambulante, minha pele
Brilhante como um abajur nazi,
Meu pé direito

Um peso de papel,
Meu rosto um fino, prosaico
Linho judaico.

Retire o pano
Oh meu inimigo.
Eu aterrorizo? –

As órbitas, o nariz, a dentadura completa?
O hálito azedo
Sumirá em um dia.

Logo, logo a carne
Que a cova comeu vai voltar
Em mim para o lar.

E eu, mulher sorridente.
Tenho só trinta anos.
E como o gato tenho nove mortes.

Esta é Número Três
Que lixo
Para aniquilar a cada década.

Que milhão de filamentos.
A multidão mascando amendoim
Se junta pra assistir

Desembrulham minhas mãos, pés –
O grande strip tease.
Cavalheiros, damas

Eis minhas mãos
Meus joelhos.
Posso ser pele e osso,

Ainda assim sou a mesma mulher, idêntica.
Na primeira vez eu tinha dez anos.
Foi um acidente.

Na segunda vez eu quis
Acabar com tudo e nunca mais voltar.
Rolei fechada

Como concha do mar.
Tiveram de chamar e chamar.
E tirar os vermes de mim como pérolas pegajosas.

Morrer
É uma arte, como tudo mais.
Nisso sou excepcional.

Faço parecer infernal.
Faço parecer real. Eu
Acho que pra mim é natural.

Fazer isso numa cela é muito fácil.
Fazer isso escondida é muito fácil.
É a volta teatral

Já em pleno dia
Ao mesmo posto, mesmo rosto, mesmo grito
Entretido, brutal:

“Um milagre!”
Que me põe a nocaute.
Há um preço

Pra ver minhas cicatrizes, há um preço
Pra ouvir meu coração –
Ele bate mesmo.
E há um preço alto, um alto preço
Por palavra ou apalpada
Ou gota de sangue

Fio de cabelo, trapo de roupa.
Então, então, Herr Doktor.
Então, Herr Inimigo.

Sou tua obra,
Sou teu tesouro,
Bebê de puro ouro

Que se derrete num berro.
Reviro em combustão.
Não pense que subestimo sua preocupação.

Cinza, cinza –
Você cutuca e atiça.
Carne, osso, não há nada lá –

Uma aliança,
Barra de sabão,
Ouro de obturação.

Herr Deus,
Herr Lúcifer
Cuidado Cuidado.

Das cinzas revivo
Com meus cabelos ruivos
E devoro homens como ar

4- Lesbos

Crueldade na cozinha!
As batatas sibilam.
É tudo Hollywood, sem janelas,
A luz fluorescente oscila como terrível enxaqueca,
Nas portas, tiras de papel furtivas –
Cortinas de palco, permanente de viúva.
E eu, amor, sou uma mentirosa patológica,
E minha filha – olha só pra ela, de cara no chão,
Títere sem fios, louca pra sumir –
Como ela é esquizofrênica,
Seu rosto rubro e pálido, um pânico,
Você botou os gatinhos dela pra fora de sua janela
Num tipo de cisterna
Onde eles vomitam e cagam e gritam e ela não pode ouvir.
Você diz que não a suporta,
A bastarda é uma menina.
Você, que queimou suas válvulas como rádio ruim
Limpa de vozes e histórias, do estático
Barulho do novo.
Você diz que eu devia afogar os gatinhos.
O fedor!
Você diz que eu devia afogar minha filha.
Ela vai se degolar aos dez se é doida aos dois.
Lesma gorda, o bebê sorri
Dos polidos losangos de linóleo laranja.
Você poderia comê-lo.
É um menino.
Você diz que seu marido não lhe satisfaz.
A mamãe judia guarda o sexo dele como pérola
Você tem um bebê, eu tenho dois.
Eu devia me sentar na Cornuália e me pentear.
Eu devia usar calças tigradas, ter affair.
Devíamos nos encontrar em outra vida, no ar,
Eu e você.

Enquanto isso há um fedor de gordura e merda de bebê.
Meu último calmante me deixou grogue e lerda.
A fumaça da cozinha, a fumaça do inferno
Nossas cabeças flutuam, opostos venenosos,
Nossos ossos, nossos cabelos.
Eu a chamo de Órfã, órfã.
Você está doente.
O sol lhe dá úlceras, o vento, tuberculose.
Um dia você foi bonita.
Em Nova York, em Hollywood, os homens diziam:
“Acabou? Garota, você é brilhante”.
Você atuava, atuava pelo agito
O marido impotente se arrasta para um café.
Tento mantê-lo em casa,
Velho pára-raios para o relâmpago,
Banhos de ácido, céus cheios vindos de você.
Ele despenca do morro de pedra calçada,
Carrinho castigado.
As faíscas são azuis.
As faíscas azuis são lançadas,
E se refratam como quartzo num milhão de pedaços.
Oh jóia! Oh valorosa! Naquela noite a lua
Arrastou sua bolsa de sangue, animal
Doente
Sobre as luzes do porto.
E então voltou ao normal,
Dura e branca e distante.
O brilho escamado na areia me matou de medo.
Continuamos pegando punhados, adorando,
Moldando como massa, corpo mulato,
Os grânulos sedosos.
Um cão veio buscar seu marido cachorrinho. Ele foi atrás.

Agora silenciosa, ódio
Até o pescoço,
Grosso, grosso.
Não falo.
Empacoto as batatas duras como roupas boas,
Empacoto os bebês,
Empacoto os gatos doentes.
Oh pote de ácido,
É amor que o preenche.
Você sabe quem odeia.
Ele está abraçado ao seu grilhão perto da porteira
Que se abre para o mar
Que invade, preto e branco,
E então é vomitado novamente.
Todo dia você o enche de alma, como um jarro.
Você está tão exausta.
Sua voz, meu pingente,
Morcego doido por sangue que suga e esvoaça
É isso. É isso.
Você me espia da porta,
Bruxa triste. “Toda mulher é uma puta.
Não consigo me comunicar.”

Vejo sua décor engraçadinha
Cercando-a como um punho de bebê
Ou uma anêmona, aquele mar,
Aquele cleptomaníaco, doçura.
Ainda estou crua.
Digo que posso voltar.
Você sabe para que servem as mentiras.

Mesmo em seu céu Zen não devemos nos encontrar.

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