É uma lei muito difundida que não se deve julgar um livro pela capa, mas creio eu que observá-la é sempre imprescindível, afinal, sua escolha não é arbitrária. A capa de trago flores e pequenos gestos, de Alex Francisco, publicado agora em 2026 pela Novelo Editorial, não nos entrega de bandeja seu conteúdo, mas nos permite espiar por suas intenções. Vemos um vaso de flores em seu momento exato de quebra, o movimento de estilhaços se espalhando e flores sendo jogadas captado no momento certo, o momento que congela e eterniza o despedaçamento. a partir dessa lente — que captura o fim em seu acontecimento — que enxergo o projeto literário de Alex neste livro de estreia na poesia.

Trago flores e pequenos gestos são expressões significantes daquilo que é tão efêmero quanto delicado, tão delicado quanto silencioso.
O livro não se comporta como uma antologia, mas um projeto literário uno que investiga as vicissitudes do amor e é dividido em três partes, intituladas Antes que alguém saiba seu nome, Enquanto alguém sabe o seu nome e Depois que seu nome chega ao coração. Como um livro de poesia, cada texto pode ser lido individualmente, mas a apreensão de sentido total vem de uma leitura calma e linear, seguindo o caminho ricamente traçado por Alex.
Na primeira parte, a ardência do desejo e o medo da perda parecem imperar sobre a forma poética, criando uma atmosfera de vitória do amor sobre todas as adversidades. Em “Amar você não é só desejo”, encontra-se a seguinte passagem:
Nossa intimidade é minha salvação
Nosso pacto sem palavras
Nosso amor insiste em existir
O poema se encerra na expectativa de uma sobrevivência insistente, mas não de maneira fortuita e sim escolhida. No entanto, essa concepção logo é posta em xeque no último poema da primeira parte da obra, o que, em sua quarta estrofe se encontra o título do livro, seu nome? “O amor se foi”. Nesse texto, o cenário está dado desde o título e é em cima dele que se constrói uma reação que pendula entre o reconhecimento do fim e a vontade de não deixá-lo acontecer, como se, observando o vaso no momento de seu estilhaçamento, pensasse em maneiras de reconstruí-lo:
É delicado, quase frágil,
Mãos que tremem de saudade.
O amor ainda chama,
Ainda pede verdade.
Com cuidado, com calor.
Mesmo depois da dor.Como sol que insiste em nascer,
Trago flores e pequenos gestos.
Esse gesto de tatear pelo incerto as maneiras de reparação ditará a parte seguinte em que traição, distância e tentativa se combinam.
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“Amar é atravessar fantasmas”, é o que o eu lírico conclui diante da incerteza de uma relação que guarda em sua memória grandes alegrias, mas que, em dado momento, perde-se o calor.
Recolhi-me em cacos do instante
Aceitei todo o passado apagadoSe amar é dividir
Nosso quarto rouba o espaço
O poema acima se intitula “Você disse o nome dele” e se desdobra em percorrer a ocorrência de um ato de cunho desleal mas isento de uma consumação de fato. Suspenso no é-não é, o acontecido emoldura um momento específico de queda para a realidade, mesmo que por vias fantasiosas. A incerteza permeia toda a segunda parte do livro
Tem desejo aqui
mas ele vem tremendo
(Trecho do poema “Faz três anos, amor”)
Te desejo, às vezes
Por memória
(Trecho do poema “Nos chamamos de casa”)
Essa atmosfera sedimenta a trilha que será percorrida na terceira e última parte do livro, onde o incerto faz parte da travessia amorosa, inescapável e necessária.
Em “Depois que seu nome chega ao coração” o poeta passa a trabalhar as ambiguidades não como condenação ou erro, mas como parte da relação com o outro.
Amar é isso que ninguém avisa
é mais pergunta do que certeza
é mais caminho do que direção
Para além dos avessos do amor pelo outro, explora-se, também, o próprio: a relação corpo e mente ganha peso ao mesmo tempo que a aceitação do amor como escolha e não fantasia é percorrida, uma escolha formal muito perspicaz. Em uma ode a si no poema “Ser eu”, o eu lírico afirma:
Nesta escrita de tom confessional de Alex Francisco, as complexidades dos afetos contemporâneos rodeiam o efêmero, delicado e silencioso que sustentam o desejo e, por extensão, as relações amorosas como um todo.

Ser eu
É cantar a alma
De um universo
Só meu
O livro investiga o fim em seu ato mas, para além disso, as várias relações que podem existir dentro de uma relação que acaba e se renova — entre o eu e o outro, o eu e o eu, o outro e o eu, o eu e o eu do outro, e por aí vai….

