O canto da sereia
No longa nepalês “Elefantes na Névoa”, premiado em Cannes, uma comunidade de mulheres trans divide território com um vilarejo pobre e religioso. O elo entre eles é o medo dos elefantes selvagens que circundam a região. Mas a construção de uma cerca elétrica destinada a apartar esse grande Outro cria também uma áurea de misticismo e fascínio em torno dele.
Um canto de sereia análogo ao que atiça os respeitáveis homens do vilarejo em direção aos corpos dissidentes. Logo no primeiro ato, a protagonista Pirati (Lima) assume o cuidado das suas perante a espiritualidade. Posição essa que, tal qual a maternidade, opera na chave de castração. Contudo, em um flerte com o melodrama, o gozo posterior da personagem com a sedução masculina ganha ares de pecado original, culminando no sumiço da mais jovem (e libidinosa) de suas filhas.

Com a omissão das instituições, o desprezo das vizinhas e a covardia dos sedutores de outrora, Pirati enfrenta o calvário e a caça ao tesouro. Mas sua disposição de cair lutando, tencionando a simpatia do público, a afasta do martírio. Quando a boa vontade das aliadas se esgota, exigindo alternância de poder, fica claro (para o público, mas ainda não a personagem) o caráter furtivo de atravessar a cerca em busca de algo que – mesmo encontrado – jamais suprirá sua falta.
Se a falta ganha uma conotação de transcendência para as outras membras da comunidade – tátil no desbotar das flores e na plasticidade do ritual de castração, ela ganha contornos terrenos no luto final da protagonista. Relegada como Outro junto das suas, ela encontra na figura do elefante – cujo aspecto fálico não é por acaso – a coragem de não só destruir a cerca, mas de assistir a filha permanecer longe mesmo sem ela.
- Texto produzido no âmbito do programa Talent Press, realizado pelo Festival do Rio de 5 a 11 de outubro de 2026.
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