Vinte anos depois do lançamento do remake de sucesso de Professor Aloprado, que tinha como produtor executivo Jerry Lewis – diretor e protagonista da versão original – venho cá fazer uma breve abordagem sobre a grandiosidade dessa película, que além de provocar grandes risos em quem a assiste, carrega em si o forte peso de uma ótima releitura/paródia de O Médico e o Monstro, obra de Robert Louis Stevenson.
Enquanto no livro é contada a história de Dr. Jekyll, um médico jovial, rico, bem-apessoado, e Mr. Hyde (que deriva de “Hide”, esconder em inglês), um homem feio, desconhecido e que parece a personificação do lado ruim da humanidade – os dois apresentam uma dicotomia, em que Jekyll é uma representação do homem bem-sucedido e, até certo ponto, admirado por seus amigos, e Mr. Hyde um homem deplorável até em sua aparência -, no filme a história é a do professor universitário Sherman Klump, especialista em genética que, porém, é ridicularizado por conta de sua aparência, e Buddy Love, um jovem esguio, bem humorado e deveras inteligente.
Após essa sinopse, leitor, você pode imaginar que as obras apresentam mais diferenças que características em comum, no entanto, essa linha que parece fazê-los diferir, serve para costurar os conceitos e os enredos, aproximando-as: Jekyll e Hyde, Klump e Buddy Love são a mesma pessoa, isto é, um é o alter ego do outro que surgiram no desejo de ambos de libertarem uma parte que ficava trancada em si. E aí bastaria comparar com Clube da Luta, ou qualquer outra obra em que o personagem tem um alter ego, porém não é sempre assim – apesar de eu achar que Clube da Luta pode ser sim, comparável com a obra de Stevenson, mas aí é papo para outra hora –, entretanto, no caso do filme, um não é “invenção” da mente do outro, e sim frutos de um experimento, uma poção, que os transforma e “liberta”.
Não bastasse isso, por mais que Jekyll pudesse não ser a pessoa mais perfeita do mundo, e Klump ser um bobalhão, e que, a princípio Hyde e Buddy Love sejam pessoas tentadoras de se tornar, até para nós – não é leitor? – no sentido de não haver barreiras morais e restrições para as realizações de seus desejos, são exatamente estes seres nos quais se transformam após beberem as poções que os fazem parecer maravilhosos, ótimas pessoas.
E é nessa brincadeira de Pique-Esconde (Hide n’ seek) que os protagonistas começam a despertar a atenção de conhecidos e pessoas mais próximas, por assim dizer, que querem entender essa repentina intimidade que o “novo ser” tem com eles. Seja com Hyde entrando na casa de Jekyll e dando dinheiro para uma família cuja criança ele atropelou, seja com o Buddy Love esquecendo o cartão de crédito do Professor Klump. Muito embora eles tentem esconder, há certa desconfiança, e, à medida que se transformam, seus alter egos do mal vão adquirindo personalidades cada vez mais distintas e tomando cada vez mais conta do seu ser.
O tempo da transformação de volta começa a se alongar e cada vez mais Sherman e Jekyll dão lugar aos monstros da poção e, no decorrer das histórias muito mais se vê de Hyde e Buddy Love que dos protagonistas iniciais: cada vez mais, eles se perdem na libertação dos seus desejos do interior, antes escondidos pela moralidade ou pela timidez. O grande problema é que eles ao se perderem nessa realização própria cada vez mais vão ficando solitários em suas vidas, sendo cada vez menos “eles mesmos”, e mais essa personificação dos seus próprios desejos obscuros.
No fim da história, em Professor Aloprado, Sherman consegue se livrar de Buddy Love e demonstrar a todos que ele também era o homem esguio, sagaz e inteligente, e que os seus surtos recentes eram culpa do homem da poção, enquanto Jekyll acaba por ser derrotado por Hyde, ao perceber que não conseguia mais controlá-lo nem a si mesmo, obrigando-se a ficar trancado dentro de seu laboratório até que, por fim, morresse na sua forma deplorável, mas com roupas de Dr. Jekyll, e tudo isso, é claro, não sem deixar uma carta explicando a todos o que, na verdade, acontecera: ou seja, que ele era Mr. Hyde.
Enfim, de tudo visto anteriormente, podemos perceber, leitor, que as obras têm grandes semelhanças apesar do seu final divergente que, porém, não afeta nessa relação de “libertação” daquilo que há escondido no homem e que vai se tornando o seu pior: a realização desmoderada dos seus desejos acaba por fazê-lo perder-se naquilo que acreditava ser uma parte de si, mas que na verdade precisava de um esforço artificial para sair e que, quanto mais alimentado, tanto mais o dominava. Fortemente inspirada, há diversas semelhanças e situações cômicas retiradas a partir dos alter egos, o que, de certa forma, deixa toda a crítica e conteúdo de mais fácil acesso para nós que estamos decerto um pouco distantes do Século XIX, e que, vista com consciência, apenas produz engrandecimento.
Agora vai lá, abre o livro de Stevenson, se choque; depois, ligue a TV e veja o filme do Eddie Murphy, se divirta. Tenha em mente o que ambos trazem em comum.