Em um dos mais célebres romances do século XX, “O Homem do Castelo Alto” (The Man in the High Castle), de Philip K. Dick, lançado em 1962, temos uma premissa que é o maior dos pesadelos do Ocidente no século passado: e se os nazistas tivessem ganhado a Segunda Guerra Mundial?

E para o século XXI, qual seria nossa primeira batalha? Qual seria nosso primeiro medo a enfrentar? Nosso principal desafio? Acredito que, dentre os muitos abismos de um possível apocalipse que vivemos, o principal front de disputa está nos meios de informação e tecnologia, e Ulisses Sawczuk entra de cabeça neste mundo com um dos melhores e mais interessantes romances de ficção científica que li nos últimos tempos: O Chip.
Publicado pela Kotter Editorial, O Chip é o romance de estreia de Ulisses Sawczuk, escritor, jornalista e mestre em Mídia, Cultura e Sociedade pela Erasmus University Rotterdam. Na obra, estamos na República de Coqueiral, onde uma hiper multinacional resolveu contratar quatro personagens bem diferentes para “testar” um chip que poderia alterar seus estados mentais e colocar seus cérebros para trabalhar em outras frequências, levando ao sucesso. Os protagonistas são Custódio, um publicitário que detesta fazer publicidades sem sentido; Sandra, uma trabalhadora e estudante negra que almeja conseguir se superar nos estudos; Aparecido, um policial que passa por crises de ansiedade em operações envolvendo confrontos; e Marcos, um professor idealista que é impedido de contar a história real do país.
Nossa meta é ambiciosa. Nós queremos fazer com que vocês possam controlar suas emoções e frustrações, mudando-as quando quiserem. Ou, então, ampliar a sua inteligência e usar seus cérebros de uma maneira muito mais eficiente. Quem nunca quis ultrapassar suas limitações emocionais e mentais? A partir de agora, isso é possível.
E o que seria esse Chip? O mecanismo é aplicado no cérebro das pessoas em um procedimento desenvolvido pelo Grupo Hórus, na parte de trás da cabeça, de uma forma totalmente indolor, e utilizado a partir de um aparelho similar a um smartphone chamado “holofone” – um dispositivo holográfico no qual o usuário opera os níveis de cada função do chip:
“Vamos imaginar que eu estivesse tendo um surto de ansiedade e quisesse me controlar. Eu acessaria o aplicativo por meio do meu holofone e falaria ou digitaria os comandos necessários, que são bem intuitivos. Em instantes, o chip modificaria as minhas configurações cerebrais e eu ficaria completamente tranquilo”, explica um personagem.
Entretanto, os quatro são apenas cobaias de um teste que eventualmente será aplicado em toda a população. Enquanto eles realmente passam por momentos de melhorias em suas vidas, um grupo político reacionário se reúne com esta empresa multinacional, tendo à sua frente um líder chamado Régis Lanza, político fascista de extrema-direita. É ele que, através de diversas propagandas e de manipulação de informação, chega à vitória nas eleições presidenciais (um evento sem qualquer comparação com a nossa absurda realidade no Brasil, nos Estados Unidos e em outros países do mundo, não?).
Assim que Lanza chega ao poder, o grupo Hórus e a extrema-direita tomam a decisão de implantar o chip na população. Primeiro, supostamente para ter acesso às informações policiais, para “prender bandidos” e “proteger pessoas de bem”. Por fim, os aparelhos são instalados em toda a população que fica, enfim, sob controle, manipulada pelas mãos do ambicioso executivo Dalton e pelo governo, que comanda a mente de um povo alienado e tão “feliz” com as propagandas que circulam em suas mentes. Sim, seus holofones exibem propagandas, assim como os telões das cidades, todas de acordo com suas necessidades individuais específicas. Algo parecido com o que temos hoje com a lógica dos algoritmos, cada vez mais especializados em capturar nossos desejos e devolver para a gente apenas conteúdos que estamos procurando, mas na décima potência.

O mais interessante da construção de O Chip é que Ulisses Sawczuk justapõe os recursos de alternar as duas camadas da narrativa com as duas estruturas de classe, segundo Marx: a burguesia, no caso, a classe dominante, e a Classe Trabalhadora, ou seja, o proletariado. Veja que, com esse foco, tanto faz que um personagem seja o publicitário de uma grande empresa como Custódio ou uma jovem trabalhadora fabril negra como Sandra; ambos fazem parte de uma mesma classe proletária, afinal, nenhum deles detém o que a burguesia tem: os meios de produção.
Só que transpondo isso em termos de construção de linguagem, o romance acaba tendo duas formas distintas muito interessantes: uma delas é vermos como funcionam as grandes corporações e os arranjos políticos. Ali, os indivíduos e sua construção interna, embora tenham suas subjetividades, são designados pelas suas funções e seus papéis dentro de uma engenharia social. No fundo, são tratados dentro dessa tecnocracia: um é o político de extrema direita cujo papel é capturar a massa com discursos genéricos e populistas, outros buscam articular os poderes por dentro, entre capital, tecnologia e empresas; outro traz a empresa do exterior e aplica a tecnologia em um país em frangalhos como Coqueiral, enquanto uma assessora está apenas interessada em ver até onde a tecnologia pode ir.
Por outro lado, os quatro personagens iniciais são construídos aos poucos em suas subjetividades de tal maneira que vamos conhecendo suas vidas uma a uma de modo que podemos entender o que os leva a aceitar o chip. Este recurso narrativo, embora pareça simples, é bastante complexo e esconde o grande mistério da segunda parte do livro, e por isso precisava ser feito com tanto cuidado e esmero. Era nele que estaria guardada a força do povo, mas também o contato, o vínculo, a empatia necessária que o leitor teria guardado para com esses personagens.
Veja, por exemplo, o momento em que Sandra, em seu quarto, chora ao perceber que não terá tempo de terminar as pesquisas de desenvolvimento de seu robô androide Bianca:
Não via como poderia terminar seu trabalho de conclusão de curso a tempo. Seus pensamentos repetiam incessantemente que estava condenada a continuar como supervisora de laboratório de cultivo, na Boifrio, até que a empresa contratasse um autômato para substituí-la e a mandasse embora. E então, que rumo tomaria? Viraria recicladora de lixo eletrônico, como sua mãe? Enfiando a cabeça no travesseiro, explodiu num choro abafado e doído.
E aí vem a revolução…um pequeno grupo de resistência se forma no núcleo de Coqueiral, consegue escapar da implantação do chip e modula um espaço de segurança para aqueles que não querem se adaptar ao mundo oferecido pela junção entre a felicidade artificial imposta pela extrema-direita e a tecnologia das empresas bilionárias do exterior.
Esse pequeno grupo vai se espalhando pelo país através de pequenas redes, células de resistência que se comunicam pela NadaNet, uma espécie de internet “hackeada” que eles criam contra a TudoNet, que manipula tudo. Os guerrilheiros sequestram três dos implantados originais – Custódio, Marcos e Sandra – e convencem todos eles a participarem da resistência. Este grupo, cada vez mais forte, se esconde onde estão os excluídos: no topo das favelas, onde vivem os trabalhadores explorados, quase escravizados e abandonados pelos poderosos.
Ali, operam suas atividades de guerrilha, invadindo os sistemas operacionais do governo e atacando de pouco em pouco, à medida que pesquisam uma forma de desativação total dos chips. Enquanto isso, ganham também um aliado: Rubens, um inspetor da polícia que pede para ter seu chip desativado por uma espécie de “bruxa” da tecnologia que vive reclusa nas montanhas.
Conforme a trama evolui, eles se preparam para a luta. É neste momento que Ulisses Sawczuk mostra seu maior talento: conseguir justapor todas as camadas de sua obra em operação no mesmo espaço e tempo, lugar em que robôs e autômatos participam da disputa ao lado de humanos dos dois lados da história, todos com seus pensamentos e ideias.
No entanto, O Chip atualiza questões existentes desde sempre. É uma obra que busca refletir sobre os efeitos nefastos da tecnologia como forma de controle social e, principalmente, como oferta artificial de alegria, energia e competitividade no trabalho, no contexto de um mundo que nos aparece cada vez mais absurdo. Um mundo em que as religiões – em especial as evangélicas – oferecem cada vez mais a promessa da prosperidade, e os coaches – que vendem fórmulas mágicas de milhões – são cada vez mais valorizados.
O romance não só chama atenção para esses temas, como denuncia que tais práticas tecnocráticas desvalorizam as principais atividades humanas como a amizade, o afeto, o amor, a família, os desejos. Isso não só na esfera individual, mas também de forma coletiva: estamos diante de um desejo de transformação generalizada.
A obra nos convida a ver o mundo sob um prisma em que mudar de vida significa mudar a vida. Enquanto Marcos, o professor, inicialmente almeja sem sucesso mudar as vidas de seus alunos, e o chip isola-o ainda mais da coletividade, há um movimento pendular em que ele ingressa na resistência e lá pode realmente contribuir com o todo. O mesmo se pode dizer da pesquisadora Sandra, que passa a desenvolver robôs para os guerrilheiros, e Custódio, que ressignifica suas atividades de propaganda. O único dos personagens que parece se adaptar bem ao chip é o policial Aparecido, cuja profissão é tirar vidas.
No fim do romance, Sandra, enquanto repara seu robô, faz uma reflexão que resume bem como o mundo de um deveria ser para todos:

Desde sua entrada na Resistência, ela podia ver, com cada vez mais clareza, a exploração e os desmandos a que a maior parte da população coqueirense estava submetida. Isso só reforçava a sua disposição para continuar naquela luta árdua, não importando o que lhe acontecesse. Essa constatação fez com que seus pensamentos mudassem de direção, voltando-se para sua mãe. Sentia falta da força dela, de seu sorriso carinhoso e de suas palavras de conforto, que sempre a consolaram nas horas difíceis. Teria a chance de vê-la novamente?
Contestador, divertido e ágil, o Chip é o romance futurista de estreia de um grande escritor brasileiro, que merece estar nas prateleiras de todos os amantes do gênero.
Sobre o autor:
Ulisses Sawczuk é natural de Londrina, Paraná, e reside em Brasília. Formado em jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina, possui mestrado em Mídia, Cultura e Sociedade pela Erasmus University Rotterdam, nos Países Baixos. Atua no campo da comunicação, com experiência tanto no setor público quanto como redator freelancer. Atualmente, é servidor do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) na área de Comunicação Social & Divulgação Científica. Já publicou contos e crônicas em antologias de diferentes editoras. Além disso, é autor de trabalhos acadêmicos lançados no Brasil e no exterior. Sua escrita é influenciada por linguagens como o jornalismo, os quadrinhos e o cinema.

