Uma família em luto, traumas familiares e geracionais, a mudança para uma casa nova e sombria, uma boneca sinistra, uma cidade aparentemente pacata que esconde um segredo e um monstro que encarna uma série de males sociais. É comum que filmes de terror se apoiem em um ou dois desses elementos como motores centrais de sua narrativa, especialmente em um momento em que o chamado “horror social” já se consolidou como subgênero. O que chama a atenção em Rock Springs, contudo, é a presença de todos esses elementos.
O longa acompanha Emily (Kelly Marie Tran), que se muda para a cidade titular após a morte do marido. Ao seu lado estão a filha Gracie (Aria Kim) e a sogra (Fiona Fu), formando um núcleo familiar marcado por silêncios e fraturas. O luto recente pesa sobre a rotina da casa, mas ele não é o único obstáculo: Emily também luta para se reconectar com Gracie, que não pronuncia uma única palavra desde a morte do pai, enquanto enfrenta uma relação difícil com a sogra, agravada pelo fato de não compartilharem o mesmo idioma. É comum, no início do filme, ver essas personagens em enquadramentos que as isolam uma das outras.

A incomunicabilidade é um tema recorrente em Rock Springs, contudo, a diretora Vera Miao decide não trabalhar o terror em cima disso, mas sim em cima de um elemento histórico. O filme se organiza em três partes distintas: uma pelo ponto de vista de Gracie, outra centrada em Emily e uma terceira que acompanha o personagem vivido por Benedict Wong, um imigrante chinês que viveu na região no final do século XIX e foi vítima de um massacre perpetrado por imigrantes europeus.
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O Massacre de Rock Springs foi um evento real, e fica clara a intenção da diretora em lançar luz nesse evento histórico, com o monstro da trama surgindo a partir do trauma das vítimas desse episódio, além de envolver uma antiga lenda chinesa. Contudo, esse aspecto fica deslocado dentro da história, pois as outras partes parecem estar em filmes de terror completamente diferentes.
O ponto de vista de Gracie talvez seja o aspecto mais flagrante dessa desconexão de Rock Springs, onde ela é mais assombrada pela memória do marido do que qualquer outra coisa, com os eventos do passado só sendo importantes nos vinte minutos finais do filme.

Talvez o terror frágil pudesse ser compensado por um drama interessante, mas Rock Springs é, acima de tudo, um filme com pressa. Na rapidez, sofrem as relações. Sentimos pouco das dores pessoais envolvidas na trama, e a estrutura dividida do filme dificulta observar essas conexões se desenvolverem. Os atos, com exceção do segundo, onde vemos o massacre, são repetitivos e óbvios.
Em dado momento, a quantidade de clichês do cinema de terror parecia mais satírica do que qualquer outra coisa. Rock Springs parece confiar que o conhecimento prévio do público sobre esses códigos seja suficiente para sustentar a tensão da
história. Não é o caso e, apesar das boas intenções, a produção nunca consegue ir além do óbvio ou do entediante.
Texto de Cobertura do Festival de Sundance 2026

