O espetáculo Dois Papas traz, de um lado, um refinado teólogo representante da tradição e dos velhos costumes da Igreja; do outro, um religioso carismático e com fama de rebelde disposto a construir pontes com as mudanças do mundo moderno. O cardeal argentino Jorge Bergoglio está decidido a pedir sua aposentadoria devido a divergências sobre a forma como o Papa Bento XVI tem conduzido a Igreja. No entanto, ele é surpreendido por um convite pessoal que mudará seu destino: um encontro com o próprio Papa.
A dramaturgia de Anthony McCarten para Dois Papas, que originou o aclamado filme homônimo de 2019 dirigido por Fernando Meirelles – indicado a 3 Oscars e 4 Globos de Ouro, incluindo Melhor Ator para Anthony Hopkins – se estrutura como um intenso e cerebral duelo de ideias em uma câmara, centrado no diálogo profundo e filosófico entre dois homens com visões de mundo antagônicas: o tradicionalista Bento XVI e o progressista Bergoglio(futuro Papa Francisco).
McCarten evita a mera biografia ou a exposição dogmática, utilizando os ricos diálogos não apenas para confrontar teologias, mas como gatilhos para flashbacks essenciais que exploram o passado dos personagens, particularmente a culpa e o trauma de Bergoglio durante a Ditadura Argentina, elementos fundamentais para compreender sua psicologia e sua doutrina. A inserção de um humor sutil, nascido do contraste cultural e geracional, humaniza essas figuras monumentais, os tornando acessíveis e complexas. Esta combinação de debate intelectual elevado, revelação emocional gradual e veracidade histórica – fruto da meticulosa pesquisa do autor, ex-jornalista – resulta numa peça que é mais um thriller de ideias do que um drama biográfico, mantendo o espectador engajado no embate entre tradição e mudança que se desenrola principalmente através da palavra.

O elenco sênior de Dois Papas é a espinha dorsal do espetáculo, entregando performances de altíssimo nível que dão vida e profundidade ao denso texto de McCarten. Zécarlos Machado, como Papa Bento XVI, vai além da caricatura, construindo um intelectual rigoroso e conservador cuja rigidez teológica é gradualmente permeada por uma vulnerabilidade humana e uma inesperada capacidade de autoquestionamento, revelando a complexidade de um homem isolado pelo cargo. Em contraponto, Celso Frateschi personifica o Cardeal Bergoglio com um carisma visceral e uma calorosa humanidade, capturando perfeitamente sua simplicidade, seu humor terrenal e a profunda culpa que o assombra, tornando palpável sua jornada interior.
Carol Godoy, como a Irmã Sofia, oferece um contraponto fundamental à intensidade masculina, trazendo uma serena força e um alcance emocional que adicionam uma camada de doçura e normalidade ao drama, enriquecendo o tecido narrativo. Juntos, eles formam um conjunto coeso que transforma o debate filosófico em um drama humano intenso e comovente, sustentando a peça com credibilidade e maestria.
A equipe técnica de Dois Papas opera em perfeita sintonia com o tom introspectivo e cerebral da peça, criando um ambiente que é tanto físico quanto psicológico. A cenografia modular e multifacetada de Eric Lenate atua como um personagem silencioso, oferecendo uma estrutura versátil que, com inteligência, sugere os magníficos e austeros espaços do Vaticano sem literalidade, permitindo transições fluidas entre o presente dramático e os flashbacks, e funcionando ainda como suporte para projeções que ampliam a dimensão visual e contextual da narrativa.
Complementarmente, a iluminação de Beto Bruel é fundamental para estabelecer a atmosfera claustrofóbica e contemplativa do espetáculo, seu uso calculado de penumbra e sombras cria uma sensação quase gótica de intimidade solene, como se a ação transcorresse em salas fechadas e corredores vazios, intensificando o foco no duelo verbal e interior das personagens, onde cada claro-escuro reflete as nuances morais e emocionais em jogo. Juntos, cenografia e iluminação transcendem sua função cênica para se tornarem elementos narrativos essenciais, sustentando com maestria o “thriller de ideias” que se desenrola pela palavra.

A direção de Munir Kanaan para Dois Papas demonstra uma mestria técnica inquestionável na orquestração harmoniosa de todos os elementos cênicos, extraindo performances excepcionais do elenco sênior e integrando com precisão a cenografia modular de Eric Lenate e a iluminação atmosférica de Beto Bruel para servir ao texto e à claustrofóbica atmosfera de debate. No entanto, essa eficiência segura e competente, embora resulte em um espetáculo coeso e de alta qualidade, opera em um território cênico previsível, onde a excelência técnica e a clareza narrativa parecem suprimir qualquer senso de risco ou perigo teatral.
Faltam à encenação a ousadia e a transgressão que, segundo Artaud, despeja vida verdadeiramente visceral ao teatro. Kanaan, com todo seu potencial, se contenta em conduzir a peça com maestria confortável, mas evita mergulhar nas camadas mais caóticas, perturbadoras e visceralmente perigosas inerentes ao confronto entre dogma e humanidade, deixando de transformar o competente “thriller de ideias” em uma experiência teatral única e realmente arrebatadora.
Contudo, Dois Papas se consolida como um espetáculo de altíssima qualidade técnica e interpretativa, com um texto inteligente que transforma complexidades teológicas em drama humano. A produção entrega um trabalho coeso, sofisticado e profundamente respeitável, que certamente engaja e emociona o público. No entanto, é justamente sua excelência segura que provoca uma reflexão final: o espetáculo brilha como um diamante bem polido, mas evita deliberadamente as arestas cortantes que poderiam transformá-lo em uma experiência verdadeiramente inovadora e arriscada. Fica a sensação de que, assim como seu protagonista, a encenação opta por construir pontes seguras quando poderia arrebatar o público com a ousadia de um salto no escuro, aquele que no teatro, como na fé, pode ser a única via para uma verdadeira revelação.
Ficha Técnica:
Idealização: Munir Kanaan e Rafa Steinhauser
Dramaturgia: Anthony McCarten
Tradução: Rui Xavier
Direção: Munir Kanaan
Diretor assistente: Gustavo Trestini
Elenco:
Celso Frateschi (Cardeal Bergoglio, futuro Papa Francisco)
Zécarlos Machado (Papa Bento)
Carol Godoy (Irmã Sofia)
Eliana Guttman (Irmã Brigitta)
Participação em vídeo: Rafa Steinhauser
Supervisão de Produção: Carol Godoy
Coordenação de produção: Ana Elisa Mattos e Rita Batata
Produtor: Eurico Malagodi (fase 1)
Iluminação: Beto Bruel
Assistência e operação de luz: Rodrigo Silbat
Montagem e programação de luz: Rodrigo Caetano
Arquitetura cenográfica: Eric Lenate
Adereços e produção de objetos: Jorge Luiz Alves
Cenotecnia: Casa Malagueta
Equipe de Cenotecnia: Alício Silva e Giorgia Massetani
Contrarregra: Rui Xavier
Trilha sonora original e desenho de surround: Dan Maia
Instalação técnica de áudio e mixagem da trilha sonora no espaço cênico: L.P. Daniel
Operação de som: Natalia Francischini
Microfonação: LABSOM – Julia Mauro e Camila Cruz
Direção de imagem e videomapping: André Grynwask e Pri Argoud (Um Cafofo)
Figurino: Carol Roz
Visagismo: Anderson Bueno
Equipe de Cabelo e Maquiagem: Luciano De Lima / Sueli Madeira
Camareira: Liduina Aires
Costureira: Bruna Sartini
Diretor de palco: Evas Carretero
Montagem: Sérgio Karioka
Estagiária: Tori Moraes
Fotografia e criação: Ale Catan
Programação visual e criação: Carlos Nunes
Assessoria de Imprensa: Adriana Balsanelli e Renato Fernandes
Gestão de Performance e Redes Sociais: Lead Performance
Produção: Gengibre Multimídia e Zug Produções
Patrocínio: Equifax / Boa Vista
Apoio Cultural: Molinos Rio de la Plata

