Em um cenário de banalização do horror e crises institucionais, o realismo tradicional já não basta
Por Luiz Fernando Treviso*
Ao ligarmos a televisão para acompanhar o noticiário, não importando a emissora, ou acessarmos a internet e, para os mais nostálgicos, folhear um jornal impresso, nos deparamos quase diariamente com o mesmo teor de notícias: uma enxurrada de violência cotidiana.
São tantos casos de assassinatos, assaltos, abusos e tragédias que muitos acabam passando batido justamente pelo excesso. O horror, quando repetido à exaustão, corre o risco de se tornar banal.
Soma-se a isso as recorrentes crises institucionais, movidas por escândalos, corrupção e disputas de poder, reforçando o velho discurso de que nada muda e de que o sistema sempre encontra uma forma de se manter intacto. Essa repetição gera não apenas negativismo, mas também descrença e falta de confiança nas estruturas que deveriam sustentar a sociedade.
Na tentativa de escapar desse bombardeio, muitos recorrem ao entretenimento, dos tradicionais programas de auditório. Mas nem mesmo esse universo está livre do moralismo hipócrita, da manipulação e da busca incessante por audiência. Tudo parece girar em torno do espetáculo. Com a ascensão das redes sociais, esse processo ganhou uma nova forma. O brasileiro, inclusive, transformou o meme em uma linguagem cotidiana. Não por acaso, o Brasil está entre os países que mais consomem e compartilham memes. O humor passou a ser uma forma de reagir ao caos.
Diante desse cenário, o realismo tradicional muitas vezes já não parece suficiente para narrar o Brasil, dando lugar ao caricatural e até ao absurdo como formas mais honestas de encarar a realidade, transformando o trágico em cômico. Foi assim que comecei a perceber como esses conteúdos permeiam as redes sociais e, a partir desse conceito, resolvi incorporá-lo ao universo de Era uma vez em Parpoplanca, usando o mesmo ponto de partida dos memes, muitos deles criados para criticar a política e o âmbito social — função que antigamente pertencia sobretudo às charges.
Percebo que o exagero, ao retratar um caso político ou até mesmo a violência cotidiana envolta em absurdo, gera mais impacto do que uma abordagem puramente analítica ou acadêmica. O desconforto ácido parece atingir o leitor de maneira mais imediata. Foi dessa lógica que me apropriei para criar personagens e situações que beiram o exagero e o humor desconfortável, entendendo que o desconforto pode gerar reflexão.
No início de Parpoplanca, ao apresentar a cidade e mostrar por quem ela é governada, surge o prefeito Pedro Cor, uma referência satírica ao ex-presidente Fernando Collor de Mello, mas em sua versão ainda mais brutal. Sua brutalidade vem desde a infância. É através desse passado que insiro o humor desconfortável: uma criança fascinada pelo Coliseu e tão obcecada por corpos mutilados que o próprio pai decide investir em uma festa de aniversário temática, com arena e tudo.
Essa premissa, grotesca, ácida e de certa forma surreal, apresenta uma criança de oito anos vibrando ao ver negros sendo devorados por cães, e essa mesma criança, anos depois, torna-se prefeito da cidade.

O exagero é tão gritante que não soa panfletário, mas reflexivo. O leitor inevitavelmente se pergunta: que tipo de habitantes elege alguém assim? A pergunta parece absurda, mas, ao associar o nome Pedro Cor a Collor, a reflexão se torna ainda mais incômoda: em alguma medida, nós também já fizemos isso.
É por meio desse exagero e desse desconforto que o humor de Parpoplanca atravessa seus diversos personagens, muitos deles beirando o grotesco. Cada história carrega algum tipo de reflexão. Mesmo nos momentos mais dramáticos, procuro escancarar, por meio do desconforto, questões como o racismo estrutural, o autoritarismo, a hipocrisia moral e a naturalização da violência.
Ao longo de Era uma vez em Parpoplanca, percebo que o absurdo não funciona apenas como exagero estético ou ferramenta de choque. É justamente aí que entra a ideia de uma “pedagogia do grotesco”. O grotesco educa o olhar do leitor ao obrigá-lo a encarar aquilo que muitas vezes prefere ignorar. Ao rir de uma situação bizarra, o leitor não está necessariamente se divertindo; muitas vezes, ri por nervoso, por desconforto ou por reconhecer, nos personagens e nas situações, experiências que já viveu ou presenciou. É nesse momento que o grotesco deixa de ser apenas exagero e passa a funcionar como reflexão, expondo contradições sociais, hipocrisias morais e violências naturalizadas. Em um país onde o absurdo frequentemente supera a ficção, rir do bizarro talvez seja uma das formas mais honestas de compreender a realidade. No fim, o grotesco não afasta o leitor da verdade; ao contrário, é justamente o que o aproxima dela.
*Luiz Fernando Treviso nasceu e vive em São Paulo. Sua formação inclui jornalismo, pós-graduação em gestão cultural e em produção audiovisual, além de cursos livres de teatro, cinema e roteiro. “Era uma vez em Parpoplanca” marca sua estreia literária e inaugura um universo ficcional construído com liberdade, irreverência e o prazer de contar histórias do próprio jeito. Além dele, publicou “Orgia” e “O ano da desordem”, todos pelo Clube de Autores. Recentemente foi selecionado pela Clímax Editorial para integrar a coletânea Horrores do Brasil: Anos 90 com o conto “Ostentação”.
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