À primeira lida da sinopse, imaginei que o documentário “Pele de Vidro” fosse uma versão paulistana do clássico “Edifício Master”, de Eduardo Coutinho. Qual não foi minha frustração, após 90 minutos de projeção, ver que a diretora Denise Zmekhol não conseguiu entrar no prédio que dá nome ao filme para falar com os moradores. Mas ela conseguiu conversar com alguns do lado de fora, em circunstâncias extremas. Porque, se há algo que o cinema documental nos ensina é que sempre dá-se um jeito.
Uma carta inicia o filme, e ela termina de maneira bem-humorada: “um grande abraço do ídolo, modelo e exemplo que é o seu pai”. Mas este não é um filme feliz, pois a diretora-aqui-narradora conta que “logo depois, tudo desmoronou entre nós e, de repente, você se foi”. Ela tinha 14 anos. Levou as lembranças do pai consigo para a Califórnia. Até que foi chamada de volta.
Denise é chamada de volta para o Brasil porque o prédio projetado por seu pai está sendo ocupado por pessoas sem-teto. Esse é um dos muitos problemas de São Paulo: milhares de pessoas sem ter onde morar, enquanto há diversas construções sem moradores. Eles então ocupam os prédios sem “função social”. E é tudo muito organizado, com direito a pagamento de taxa de manutenção: ao contrário do que muita gente pensa, ocupação não é sinônimo de bagunça.

Detalhado, emblemático, extraordinário e sofisticado são palavras usadas para descrever o principal projeto do arquiteto Roger Zmekhol, de origem síria porém nascido em Paris. Cheio de ideias, projetou o Pele de Vidro nos anos 1960. Na época, nos conta o documentário, arquitetura era nosso produto de exportação e espelho do “país do futuro”. Esta parte sobre construções diversas me fez lembrar do cineasta que melhor concatenou cinema e arquitetura: Jacques Tati. A casa que Roger projetou para a família tem ares da casa ultratecnológica de “Meu Tio” (1958) e é impossível ver o Pele de Vidro e não puxar pela memória os edifícios de “Play Time” (1967), considerada a obra-prima do diretor.
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Como as pessoas, os prédios também são testemunhas da História. O Pele de Vidro foi prédio de escritórios e sede da Polícia Federal em época de repressão. É quando se fala dessa repressão que o documentário fica demasiado didático, mas vimos recentemente que é preciso continuar falando sobre nosso passado vergonhoso até que todos o entendam – porque ele ainda está aqui, em ecos de repressão.

É verdadeiramente “coutiniano” não parar a câmera enquanto um líder de ocupação interrompe sua entrevista e deixa as pessoas subirem e descerem as escadas. Mas é covardia comparar qualquer documentário com os de Coutinho, mestre no gênero. “Pele de Vidro” acaba, assim, sendo mais um filme que partiu do particular e acabou falando do coletivo. Do micro para o macro, serviu, como o prédio, de espelho dos nossos tempos.
“Pele de Vidro” chega aos cinemas em 19 de março. Confira o trailer:
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