Às vésperas de sua estreia nos cinemas brasileiros, o documentário Pele de Vidro convida o público a refletir sobre memória, desigualdade social e a história recente do país a partir de um olhar profundamente pessoal. Dirigido pela cineasta Denise Zmekhol, o filme acompanha sua volta ao Brasil após décadas vivendo no exterior para investigar o legado do pai, o arquiteto Roger Zmekhol, responsável pelo projeto do icônico Edifício Wilton Paes de Almeida, no centro de São Paulo.
Conhecido como “Pele de Vidro”, o arranha-céu modernista se tornou, décadas após sua construção, abrigo para centenas de famílias sem-teto, realidade que revela as profundas contradições urbanas e sociais do Brasil contemporâneo. Ao tentar se aproximar do edifício e de seus moradores, Denise inicia uma jornada íntima que entrelaça a busca pela memória do pai com as histórias de quem encontrou ali um refúgio.
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A tragédia do incêndio e do desabamento do prédio, em 2018, transforma radicalmente o rumo do projeto e dá ao filme uma dimensão ainda mais sensível e humana. Entre lembranças familiares, relatos de sobreviventes e reflexões sobre arquitetura, política e pertencimento, Pele de Vidro constrói um retrato poético do país ao longo das últimas décadas
Nesta entrevista para o Jornal Nota, Denise Zmekhol fala sobre o processo de criação do filme, o impacto da tragédia que marcou sua narrativa e as descobertas pessoais que surgiram ao revisitar a história de sua família e do Brasil.
Confira abaixo!

1 – “Pele de Vidro” nasce de uma história profundamente pessoal. Em que momento você percebeu que a busca por vestígios do seu pai poderia se transformar em um filme que dialoga também com questões sociais e políticas do Brasil?
Quando descobri que o prédio estava ocupado por pessoas sem-teto, resolvi ir até o Edifício Wilton Paes de Almeida, chamado de Pele de Vidro por arquitetos, para pedir autorização para filmar, conhecer os moradores e contar suas histórias. Ao mesmo tempo, eu tinha uma curiosidade enorme de resgatar a memória de um pai que eu perdi tão cedo, aos 14 anos. Tinha vontade também de conhecer melhor o prédio, como ele tinha sido feito e entender porque ele era tão especial para os arquitetos. Eu não tinha muita memória do prédio, talvez porque ele foi feito quando eu nasci e, apesar de visitar muitas obras com meu pai, não me lembrava de ter ido a esse prédio com ele. Ao tentar entrar para filmar no Pele de Vidro e ser barrada tantas vezes pelos coordenadores da ocupação, fui sentindo uma angústia muito grande. Acho que a angústia não vinha somente dessa experiência, mas também da história pessoal que iria permear a narrativa do filme e que ainda estava muito sutil e inconsciente dentro de mim.
2 – O documentário conecta memória familiar, nacional, arquitetura e luta por moradia. Como você trabalhou cinematograficamente para equilibrar essas dimensões sem que uma anulasse a outra?
Eu filmei durante três anos e a história foi evoluindo. Primeiramente, fui percebendo como o prédio refletia dentro dele a história do Brasil nos últimos 60 anos: imaginado nos anos 1960 em um tempo de esperança e prosperidade, sede da polícia federal durante a ditadura, e um prédio com a estrutura comprometida pela falta de manutenção do seu proprietário, a União, e nos seus dias finais um abrigo para imigrantes e pessoas sem-teto que vivem à margem da sociedade. Percebi também que o Brasil de hoje não oferece aos imigrantes a mesma oportunidade que meu pai teve na época em que projetou o Pele de Vidro, aos 32 anos de idade. Durante sua curta carreira profissional ele pôde criar 285 projetos, dos quais pelo menos 100 foram construídos.
3 – A tragédia do incêndio que levou ao desabamento do prédio foi um momento decisivo na narrativa. Como esse acontecimento mudou o rumo do filme e também a sua relação pessoal com aquela história?
Quando a tragédia do incêndio e o desabamento do Pele de Vidro aconteceram, somente seis meses após eu começar as filmagens, eu senti que toda a busca que eu estava determinada a fazer ao iniciar o filme havia desabado junto com o prédio. Foi um choque muito grande saber que 7 pessoas haviam morrido e muitas outras estavam desaparecidas. A cidade havia perdido um ícone da arquitetura modernista, uma obra tombada, e para mim, havia mais uma camada, eu estava perdendo meu pai mais uma vez.
4 – Seu pai, o arquiteto Roger Zmekhol, projetou o prédio em um período de grande otimismo no Brasil. Que reflexões surgiram para você ao contrastar aquele ideal modernista com a realidade social encontrada décadas depois?
Refletindo agora, percebo que eu estava iniciando uma jornada pessoal que se desdobrou de forma mais profunda durante a montagem do que eu poderia ter imaginado quando comecei o filme. No início da montagem eu resisti que o filme fosse muito pessoal, mas fui entendendo aos poucos que essa intimidade que eu iria compartilhar com a audiência me ajudaria a contar a história com mais humanidade. E fui percebendo também que a minha história pessoal poderia ajudar a audiência a abrir seus corações para ter mais empatia com as histórias dos moradores e do movimento de moradia. Desde o início já sabia que não queria fazer um filme ativista, primeiramente porque não queria impor a minha visão em um momento em que já existe tanta polarização política, e também porque eu fui mudando a maneira de ver e sentir cada camada da história enquanto ela se revelava diante de mim.

5 – Você viveu muitos anos fora do Brasil. De que forma retornar ao país para realizar esse filme também foi um processo de redescoberta da sua própria identidade?
Depois de tantas décadas vivendo fora do Brasil, meus filmes sempre me levam a jornadas profundas sobre o meu país. O filme anterior, “Crianças da Amazônia”, me levou de volta à Amazônia para reencontrar as crianças indígenas e seringueiras (filhos do Chico Mendes) que fotografei 15 anos antes. O filme nos convida a ver através dos olhos dessas pessoas inspiradoras e extraordinariamente resilientes, que tiveram suas vidas transformadas por uma estrada aberta em seus territórios por um mundo externo. O Pele de Vidro me fez refletir sobre um país que fui ensinada a ignorar e que foi se revelando na importância simbólica do prédio como um reflexo político e econômico do Brasil ao longo do último meio século. O filme me levou a lugares inesperados, como se tivesse uma vida própria e a uma jornada mais profunda do que eu imaginava inicialmente. Foi um desafio, mas também uma revelação libertadora.
6 – O filme já rodou o mundo, com mais de 60 festivais e 13 prêmios internacionais, incluindo em festivais de arquitetura na Europa. Como o público estrangeiro tem reagido a essa história que é tão especificamente brasileira, mas que toca em crises habitacionais que são globais?
Apesar do filme contar uma história brasileira, ele foi muito bem recebido em mais de 60 festivais internacionais e recebeu 13 prêmios. O filme foi exibido em quase todos os continentes e, em todos os países que pude acompanhar o filme, eu fiquei surpresa de ver como as pessoas se conectam com cada camada da história, talvez pelo seus temas universais sobre perdas, mudanças e desigualdades sociais. A mudança climática, as guerras, e o deslocamento que elas criam, se tornam cada vez maiores, grandes desafios para as cidades no futuro.
7 – O que você espera que o público brasileiro sinta e reflita ao sair da sala de cinema?
Espero que as pessoas ao assistirem o filme, e se conectarem com a história pessoal, consigam se desarmar dos preconceitos e se conectarem com a humanidade da história.

