Richard Ashcroft, vocalista da banda The Verve, andando por um movimentado calçadão em Londres enquanto tromba com as pessoas sem mudar de direção no clipe da música “Bitter Sweet Symphony”. Essa foi a cena que me veio à cabeça enquanto lia “O Homem não foi feito para ser feliz”, escrito por Maurício Mendes e publicado pela editora Mondru.
Germano, protagonista e narrador, parece caminhar pelo romance esbarrando nos demais personagens e situações sem qualquer desvio enquanto reflete internamente sobre o que deu errado em sua vida.
“‘Cause it’s a bittersweet symphony, that’s life
Tryna make ends meet, you’re a slave to money then you die”(“Bitter Sweet Symphony”, The Verve)

Maurício Mendes descreve Germano como um médico negro, “mais puxado para o pardo”, nas palavras do personagem, que começou a carreira em uma cidadezinha no interior do Ceará no final dos anos 1990, onde logo de cara teve que lidar com a politicagem, precariedade da saúde pública e uma perda que, ouso dizer, ditaria boa parte da sua trajetória.
Mas a vida aconteceu. Os anos passaram – a narrativa intercala flashbacks do passado com o presente, sendo o presente os anos 2019/2020 – Dr. Germano aprendeu a deixar um pouco de lado o idealismo, ascendeu socialmente como radiologista em uma clínica particular, e vivia uma vida agridoce, mas que estava cada vez mais acre e menos doce.
Ele era um quarentão que nunca se casou e tal qual Brás Cubas, não teve filhos.
“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”
(“Memórias Póstumas de Brás Cubas”, Machado de Assis)
Com a morte do pai, uma crise de meia idade avassaladora se abateu sobre ele, que passou a rever e questionar suas escolhas de vida, seus fracassos amorosos e a busca por prostitutas de “perfil universitário, classe média”.
Camille, uma dessas acompanhantes, mais um ponto de tensão nessa crise, é a personagem que entra para desafiar o narrador cheio de certezas que caem como um castelo de cartas. Há entre os dois um jogo de poder espelhado em referências literárias.
“Mestranda em estudos literários, sempre tinha histórias interessantes de suas últimas leituras para compartilhar. Eu já havia montado pequenas armadilhas que desmascarassem sua propalada erudição, acreditando sem condescendência que putas sempre inventam um monte de histórias, mas a danada se safava com louvor. Era uma leitora de fato dedicada. Também sou um leitor dedicado.”
Muito do diálogo entre esses dois personagens se faz nas entrelinhas de autores e títulos, além de Maurício também usar esse recurso para enviar sinais e estabelecer uma relação com o leitor.
“A invenção da solidão”, de Paul Auster, por exemplo, sutilmente indica a revisita das memórias por parte do narrador. Lembranças relacionadas ao pai, ao relacionamento dos pais e aos próprios relacionamentos de Germano, desde a adolescência, e de como ele buscava e reproduzia certos perfis e modus operandi.
Outro nome chave no romance é Philip Roth. O autor que se debruçou sobre a psiquê masculina e criou uma série de personagens solitários, introspectivos e atolados em existencialismo, tal qual o protagonista e narrador de “O Homem não foi feito para ser feliz”. Ainda sobre Roth, “O professor do desejo” é citado e utilizado de forma nada casual, indicando a insegurança do narrador, principalmente com relação às mulheres.
“Eu ficaria bem. Nenhuma guriazinha de 28 anos perturbaria a minha paz. No topo da cadeia de consumo, frequentava cafés, livrarias, cinemas, clubes literários e confrarias de aquaristas. Nas férias, perambulava pelo Velho Mundo. De vez em quando, batia ponto nos circuitos locais de autorama, aeromodelismo e xadrez. Não negligenciava a leitura diária. Talvez eu fosse triste e melancólico, mas gostava da vida em geral. E eu trepava com putas, as mais exclusivas de Fortaleza. Mas, entre todas, apenas uma me esperaria na entrada do meu prédio naquele dia.”
Um homem menos misógino que o pai, afinal estamos no século XXI, mas ainda sim um homem machista que escondia seus medos, traumas e inseguranças atrás de um autoproclamado hedonismo. Não que ele estivesse totalmente consciente disso.
Germano é um narrador não confiável, detestável em diversos momentos, mas absurdamente consciente em outros. Ele é, sim, um homem hetero e reproduz muito do discurso dominante, como por exemplo:
“Eu sabia das coisas. Um homem que está feliz com seu esporte, seus hobbies, seus passeios, suas leituras, tem um impacto devastador na mente de qualquer mulher; ela se enxerga ameaçada, porque quer se sentir especial, somente ela poderia tornar o seu homem feliz, ter a primazia da felicidade. Por isso se incomoda tanto com as pequenas alegrias da machosfera.”
Germano é também um homem negro e vemos a luta travada por espaço desde o início da narrativa, desde quando ele chega ao primeiro emprego como médico:
“Eu estava de calça jeans, tênis e camiseta, não parecia doutor. Deve ter presumido que o médico teria carro à disposição, não andaria como qualquer um madrugada afora. E seria branco.”
A necessidade de reafirmar sua posição de médico sendo uma constante:
“Ser médico não bastava. Era necessário exibir sinais exteriores de riqueza. Um branco mal vestido poderia ser um rico excêntrico, um negro seria sempre um fodido. Eu precisava caprichar. Sabia truques.”
E um médico que ainda carregava certos ideais, certos preceitos diante de um sistema entregue a conglomerados de saúde focados no lucro de acionistas acima de tudo.
Ou seja, Maurício constrói um narrador-personagem complexo, cheio de nuances, falhas, e por isso muito real. Ele é capaz de despertar repulsa e identificação. O refutamos, mas também concordamos com ele, imagino que alguns leitores mais, outros menos, mas aí é que está a grande aventura da ficção.
Sobre o autor:

Maurício Mendes, médico especialista em Medicina Nuclear e residente em Fortaleza, estreia na ficção com “O homem não foi feito para ser feliz”, um romance instigante que explora os desafios existenciais contemporâneos. Apaixonado pela literatura, mantém uma página sem fins lucrativos no Instagram para promover novos talentos literários e liderar um clube presencial de leitura. Com uma abordagem irônica e reflexiva, suas narrativas desafiam o leitor a questionar certezas e encarar as fragilidades da realidade.

