Você já esteve no meio do nada? Embora a maioria de nós já tenha falado isso como força de expressão, são poucos os que realmente estiveram lá. E se ao nada for adicionada a ausência? Falamos aqui da perda e do luto, mas de um tipo de luto que ainda é mais devastador: o luto anunciado. Quando uma doença ameaça abreviar a vida de uma pessoa, quem está ao redor dela sofre multiplicado — e é exatamente o caso no filme “Nada”, de Adriano Guimarães.
Não adianta dizer que está ocupada nem protestar falando ao celular do lado de fora de um museu, onde está montando uma exposição. Quando o assunto é a saúde — ou, no caso, a falta dela — da irmã mais velha Tereza (Denise Stutz), Ana é a única que pode acudir. Ana (Bel Kowarick) pega uma estrada de terra e desvia de algumas vacas para chegar até a fazenda onde mora Tereza. Vão juntas até o hospital, onde se descobre que Teresa tem um aneurisma apertando-lhe o cérebro.
Sem previsão acerca de internação ou cirurgia, e com Tereza sedenta para voltar para a fazenda, Ana não tem outra escolha que não seja ir para lá também. Tereza fica especialmente amuada quando uma grande antena de telecomunicações instalada próximo à fazenda está desligada. A narrativa então ganha ares de ficção científica, com Ana investigando o caso e entrevistando moradores que também desenvolveram poderes especiais após a instalação da antena.

Um senhor se lembra com riqueza de detalhes de tudo que aconteceu com ele, mas se esquece dos cheiros que sentiu. Outro homem consegue ver a si próprio criança. Mesmo Ana experimenta fenômenos interessantes, que lhe bagunçam a memória. Concomitantemente, Ana teme perder a irmã, cuja morte iminente aponta para um dos maiores, quiçá o maior, mistérios do mundo: o que acontece depois que se morre?
A andança de Ana pelas terras da fazenda, à procura de um morro onde haja sinal para seu celular, é acompanhada por uma câmera titubeante que, contudo, jamais para de segui-la. A sequência é longa e os sons que ouvimos vêm todos da natureza, ora exuberante, ora opressiva: é impossível não pensar “e se ela se perder pelo caminho”?
Um acompanhante constante de quem cuida de pessoas doentes é a solidão. Apesar de haver os funcionários da fazenda, Ana está mais do que tudo acompanhada da solidão. Tereza, mulher de pouquíssimas palavras, não diz como se sente. Conversar amenidades está fora de cogitação. Mas ela se rende e conversa com uma câmera, quando Ana resolve unir o útil ao agradável.

O diretor Adriano Guimarães conta que teve influência da literatura para dar o tom do seu primeiro filme:
“As ideias iniciais para ‘NADA’ surgiram a partir da leitura dos escritos do poeta brasileiro Manoel de Barros. Além disso, os anos em que trabalhei com a obra de Samuel Beckett reverberam no filme. ‘NADA’ não apresenta ou repete a linguagem desses autores, mas acredito que traz ecos de suas vozes. Livro sobre nada foi o primeiro livro que li de Manoel de Barros, e me impressionou a quebra na hierarquia entre as coisas, o olhar para o aparentemente desimportante, as formas de perceber algo que não é facilmente perceptível e a naturalização de eventos extraordinários do cotidiano.”
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Como um filme difícil de classificar — é um drama? Terror? Ficção científica? — Nada é uma provocação, assim como o são suas referências literárias. Agora você já sabe o que Manoel de Barros, Samuel Beckett e o luto da morte anunciada têm em comum: este Nada.
Revisado por Gabriel Batista
“Nada” é distribuído pela Embaúba Filmes e estreia em 31 de julho nos cinemas. Confira o trailer:
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