“Pensa-se mais ardentemente na liberdade quando o sol brilha do que durante as borrascas do Inverno ou os dias chuvosos do Outono”.
Dostoiévski, Recordações da Casa dos Mortos
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Recordações da Casa dos Mortos conta a história de Alexandre Petrovich Goriantchikov, um nobre que cumpriu 10 anos de trabalhos forçados na Sibéria. O livro, no entanto, é também escrito a partir das memórias do próprio Dostoiévski, que passou 4 anos em uma prisão de trabalhos forçados siberiana. Ele teve sua pena de morte convertida em trabalhos forçados por seu envolvimento com o circulo de Petrachévski, uma reunião de jovens que discutiam assuntos proibidos pelo Czar Nicolau I. A condenação à pena de morte fez parte de uma teatral decisão do Czar que, logo antes que os condenados fossem executados, informou-os da conversão da pena em trabalhos forçados, utilizando-se do medo dos instantes antes da morte como uma forma de torturar psicologicamente os acusados.
Leia AQUI a resenha completa do livro!
Comprei meu exemplar do livro em uma feira de livros na Estação Lisboa-Oriente, em Lisboa, Portugal. É uma edição muito antiga e custou apenas 2 euros! Infelizmente notei, depois, que várias páginas estavam coladas, e tive que usar um lápis pra ir “soltando” as páginas, o que deixou ele um pouquinho destruído… ainda assim, isso não interferiu na incrível experiência que é ler Dostoiévski.
No livro, Alexandre Petrovich, o narrador da história, conta sobre diferentes momentos em que, na prisão de trabalhos forçados em que cumpria uma pena de 10 anos pelo assassinato da esposa, a comida tomava dimensões muito importantes no dia a dia e nas relações interpessoais. Ele conta, por exemplo, sobre como recebiam, inúmeras vezes, esmolas de pessoas que passavam por eles enquanto faziam seus trabalhos forçados do lado de fora das muralhas. Esse era um hábito comum, dar pão de esmola para os “infelizes” – pobres, moradores de rua e, também, presos.
Um dos alimentos que ele menciona muitas vezes é o kalatchi – há, inclusive, uma nota no livro que explica que kalatchi são “pãezinhos de frumento em forma de rosca. Os de Moscovo são famosos”. Além de ser oferecido como esmola, o kalatchi também enchia as mesas das ceias de Natal, inclusive na prisão. Há um belíssimo trecho em que Petrovich conta sobre a sua primeira noite de Natal na instituição prisional:
O dia ainda não nascera por completo e já do outro lado do portão se ouvia o cabo da guarda gritar pelos cozinheiros. O mesmo grito ecoou a cada instante pelo espaço de quase duas horas; tratava-se de receber as esmolas mandadas de todos os cantos da cidade. Traziam-nos quantidades enormes de kalatchi, de nacos de pão, de queijadas, de coscorões, de bolos de todas as espécies. (…) Os presos que recebiam as esmolas tiravam o boné, inclinavam-se para cumprimentar os dadores, davam-lhes boas festas e levavam para a cozinha o que lhes tinham entregado. (…) Não houve a mais pequena reclamação; todos se consideravam satisfeitos, ninguém sentia inveja, ninguém pensava que as dádivas tivessem sido escamoteadas ou divididas pouco equitativamente.
Por nunca ter ouvido falar neste pão, a leitura do livro não deixou claro para mim que tipo de pão era, nem mesmo se era doce ou salgado; sabia apenas que era em formato de rosca. Decidi pesquisar. A tarefa não foi simples, mas acabei encontrando alguns vídeos no YouTube (dois deles muito legais, um contanto a história desse pão e outro mostrando o passo a passo da receita – ainda que esteja em russo sem legendas, ajuda bastante pra entender o processo!). Descobri, nessa pesquisa, que o kalatchi é um pão em formado de cadeado da época da Rússia czarista. Era comum que as pessoas comprassem o kalatchi e dessem aos pobres a parte mais fina do pão, ficando com a parte mais grossa para si. Quando soube disso, achei ainda mais simbólico e impactante que um pão em formato de cadeado faça parte tão intensamente das vidas de pessoas presas.
Outra coisa que descobri foi que, na Rússia, o pão é um alimento importantíssimo, oferecido em quase todas as refeições. Uma matéria de jornal mencionava o espanto do jogador de futebol português Cristiano Ronaldo quando, na Copa do Mundo de 2018, na Rússia, foi recebido por uma mulher com uma cesta de pães e sal. Acontece que, antigamente, o sal era um ingrediente muito caro, por isso os russos que recebiam visitas em suas casas tinham o hábito de oferecer a elas sal, para mostrar cuidado, atenção e também prestígio social e econômico.
Também encontrei duas receitas, uma que dizia ser do kalatchi de São Petersburgo e outra do kalatchi de Moscou. Como a nota do livro indicava que os kalatchis de Moscou eram os mais famosos, não hesitei e fui direto nela. Ela rende 4 pães. Hoje, ela se transformou em mais um Menu Literário NotaTerapia!

KALATCHI, O PÃO RUSSO EM FORMATO DE CADEADO
Ingredientes:
- 3 1/2 xícaras de farinha de trigo
- 10g de fermento biológico instantâneo seco (1 pacotinho)
- 2/3 de xícara de leite
- 3 colheres de sopa de açúcar
- 1 ovo + 1 gema + 1 gema para pincelar
- 3 colheres de sopa de manteiga derretida
- 2 colheres de chá de sal
Modo de preparo:
1- Em um recipiente, misture metade da farinha, o fermento e o leite morno – lembrando que leite morno não é leite quente: ele tem que estar em uma temperatura que você consiga colocar o dedo sem se queimar. Deixe crescer por 45 minutos.
2- Adicione o resto da farinha, o sal, o açúcar, a manteiga derretida, o ovo e uma gema. No começo, parece um pouco difícil incorporar os ingredientes, mas aos poucos eles vão se juntando e, conforme você vai sovando, a massa vai ficando cada vez mais fácil de trabalhar. Sove por 15 minutos, até que ela esteja elástica. Deixe descansar por 1 hora e meia.
3- Depois do primeiro descanso, sove novamente a massa por 15 minutos. Novamente, no começo parece que ela não vai ficar boa. Ela fica parecendo um pouco seca, mas, com a sova, ela volta a ter elasticidade, ainda mais do que antes. Depois da segunda sova, deixe descansar novamente por 1 hora e meia. Todas as receitas que encontrei de kalatchi mencionam que essa etapa tem que ser feita, pelo menos, duas vezes. Eu fiz as duas vezes e fiquei satisfeita com o resultado, mas se você tiver tempo e quiser, pode fazer esse procedimento mais uma vez. Imagino que ela vá ficar ainda mais elástica, lisa e boa de trabalhar.



4- Divida a massa em quatro partes iguais. Com cada parte, faça uma bolinha. Abra cada bolinha em uma espessura de mais ou menos 1cm.

5- Com o disco aberto, utilize uma caneca para cortar o centro do disco. É importante que você não corte o disco todo – você não irá retirar a parte do meio, mas sim dobrá-la sobre o disco. A ideia é fazer um buraco que vai funcionar como a alça do cadeado. As fotos abaixo mostram o passo a passo dessa etapa – ela parece mais difícil do que realmente é.


6- Use um pouco de manteiga derretida para colar a parte debaixo dessa “língua” que se formou na massa ao disco. Pode dar uma boa apertada, caso contrário quando o pão for assar ela pode subir e preencher o buraco que dará a forma de cadeado ao pão. Dê uma afinada, com as mãos, na parte da alça, pra que ela fique mais fina do que a base e para que o buraco fique largo o suficiente para que o crescimento da massa no forno não o preencha.

7- Coloque o pão em uma assadeira forrada com papel manteiga (se não tiver papel manteiga, pode untar com manteiga e farinha). Pincele uma gema de ovo sobre o pão para que el fique dourado ao assar.
8- Coloque no forno pré-aquecido a 200ºC por aproximadamente 20-30 minutos, até que os pães fiquem bem dourados.




O resultado desse pão é muito interessante. Além de ter um formato super diferente, ele oferece duas texturas distintas: a parte mais fina da alça fica mais crocante e a de baixo mais macia. Ele é um pão denso, mas não é pesado. Tem um sabor super gostoso, por causa dos muitos descansos, e fica delicioso com manteiga ou requeijão. Testamos comer ele com um pouco de sal e, surpreendentemente, fica bem interessante! O sal eleva os sabores do pão. Mas não precisa encher de sal!, é só colocar um pouquinho a cada mordida.
Essa é uma receita demorada, que entre começar o primeiro passo e ter o pão pronto no seu prato se passam mais de 5 horas, mas vale o trabalho. Até porque é muito emocionante fazer pão e ir esperando o tempo dos ingredientes, acompanhando suas mudanças a cada etapa. Poucas coisas na vida são mais incríveis do que comer um pão feito pelas suas próprias mãos!

