“Fodam-se as metáforas”.
A literatura como memória vai sobreviver à era em que o ser humano passou da elaboração para a superexposição das próprias experiências? O futuro é incerto, mas explorar a memória ainda é um ato de resistência, tanto para escritores quanto para cineastas capazes de dar forma à fragmentação de emoções e traumas. Um exemplo recente disso é A Cronologia da Água, filme em que Kristen Stewart estreia na direção.
O longa adapta o livro de memórias da autora estadunidense Lidia Yuknavitch, escritora e professora de inglês que encontrou na escrita um caminho de sobrevivência aos traumas de abusos sexuais pelo pai, sofridos desde a infância até a juventude, quando era aspirante a nadadora olímpica.
Distante do período em que se tornou mundialmente famosa como Bella Swan na saga Crepúsculo, Kristen Stewart tem sido uma das personalidades mais cool do cinema. Como atriz, passou a priorizar filmes independentes, foi dirigida por Walter Salles em Na estrada (2012) e, em 2022, trabalhou com David Cronenberg no thriller de ficção científica Crimes do Futuro. Este último parece exercer alguma influência na Stewart diretora, sobretudo nas escolhas para os momentos de maior estranheza e soturnidade do filme.
Mas é a originalidade que mais surpreende nessa estreia. Stewart não se poupa de explorar o experimentalismo ao longo de toda a obra, e sua virtude está em dar um lugar próprio a cada recurso autoral que incorpora. Não conheço o livro, mas, sendo o relato de uma escritora que encontrou na literatura uma forma de sobreviver ao torpor do passado que a sufocava ou, para situar melhor no contexto da história, que a afogava, é natural que o enredo siga o fluxo da memória: não linear, fragmentado, difuso em flashes.
O desafio de Yuknavitch ao escrever o livro se revela ainda maior na experiência fílmica: encontrar uma forma de expressão quando faltam palavras para a dor. A solução da escritora foi imaginar o passado, ou melhor, a fuga do seu passado. Na adaptação, a decisão é acompanhar essa ousadia, capturando a intensidade e a subjetividade com que Lidia percorre uma trajetória tortuosa, do trauma original aos desdobramentos que ele provoca ao longo da sua vida.
A fotografia de Corey Walters é essencial para emoldurar a imperfeição desse coming of age doloroso, em cenas que alternam entre a naturalidade crua e autodestrutiva da protagonista e estados mais oníricos. Esses momentos surgem tanto em experiências de êxtase, como quando nadava para se sentir livre ou descobria o (seu próprio) poder da literatura, quanto nos pesadelos que a aprisionam no temor e no ódio por si e pelos homens que a cercam.

A intensidade da narrativa vem especialmente da performance de Imogen Poots, atriz britânica que interpreta Lidia. A forma como ela transita entre uma juventude ainda surpresa com as descobertas do mundo e de si mesma e uma maturidade mais consciente e em domínio dos seus elementos é tão tocante quanto sua capacidade de sustentar a unidade do filme, mesmo em meio a uma sequência caótica, não linear, repleta de flashes e ângulos pouco convencionais.
Todos esses elementos constroem uma experiência onírica, justamente porque Lidia escolhe escrever sobre o que a assombra. Assim, os males e monstros que vemos na tela, a figura ameaçadora do pai, o riso de desprezo que ouve dos amigos ao declarar que quer reescrever O Som e a Fúria, de Faulkner, ou o sangue que tinge a água azul da piscina logo na abertura, existem e ganham corporeidade a partir de sua subjetividade. E, curiosamente, tudo se torna menos caótico e ameaçador à medida que a personagem amadurece.
A maturidade que a protagonista constrói ao longo da trama não conduz a um caminho de reconciliação consigo, pois o viés do filme não é o da superação. O que acontece com Lidia ao se afastar do pai, abandonar relações de profunda dependência emocional e comportamentos autodestrutivos é justamente descobrir como transformar em poesia os fantasmas que a empurravam para o abismo, ainda que seja uma poesia soturna, marcada por alegorias da violência.
Todo o experimentalismo de Kristen Stewart poderia ter resultado no filme que muitos esperavam da sua figura de artista descolada e mulher irreverente da indústria. Mas, longe de se apoiar em uma estética típica de grandes festivais, a diretora constrói uma narrativa sensível, marcante e visualmente ousada. Com mudanças bruscas de paleta de cores, uma trilha sonora soturna que ziguezagueia conforme a câmera alterna entre Lidia e o pai, e momentos em que a realidade e a paranoia se confundem, o filme flerta com os excessos. mas não chega a cair neles.
Uma das declarações mais memoráveis de Lidia ao se encontrar com a escrita diz respeito ao fato de que, na vida, não importa o quão grande e devastador seja o que nos acontece: tudo o que recebemos para lidar com isso são “coisas tão pequenas quanto palavras”. Ainda assim, a personagem não encara isso como uma ironia do destino. Pelo contrário, escolhe essas pequenas palavras e faz delas um grande refúgio.
Quero ler este livro e ver o próximo filme de Kristen Stewart.
Minha nota para A Cronologia da Água no Letterboxd: 4 estrelas.
The Cronology of Water (2025)
Direção: Kristen Stewart
Duração: 2h13

