Um peru chamado Dostoiévski, a Perna Cabeluda do Recife e um islandês viajante do tempo entram em uma sala. A sala, nesse caso, é a reunião de crônicas “Três Perus Metafísicos e Outras Crônicas”, do escritor Ataíde Menezes, publicada pela editora Uruatu. Trata-se de 49 crônicas nas quais o autor brinca com a literalidade, provoca, diverte e ao fim, só resta ao leitor colocar em dúvida uma suposta morte da crônica.

Gênero comum nos jornais brasileiros no século XX, mas que Machado de Assis e outros já exploravam no fim do século XIX, a crônica amadurece nos folhetins e periódicos do país associada ao homem comum, transitando entre o jornalismo e a literatura, explorando o inusitado, o curioso e, na falta desses, inventando-os.
Uma leitura curta, rápida, às vezes informativa, carregada de ironia, humor, mas que também pode debruçar-se sobre a melancolia do dia a dia. É do cotidiano que nos cerca que bebe o cronista, mas sem se prender a ele. É o ordinário que alimenta sua criatividade. É da nota de rodapé, da menção no canto da página que emerge a crônica, com um pé na realidade e outro fora.
A primeira crônica da coletânea de Ataíde Menezes, “Três Perus Metafísicos”, já começa com aquele tom típico de proximidade com o leitor, de bate-papo, da conversa fiada, comum ao gênero.
“(Esta deveria ser uma crônica tradicional sobre perdão. Mas bolei o texto diante dos livros no quarto e da terceira taça de vinho da noite. O leitor siga em frente por sua conta e risco.)
Um peru passa meses sendo engordado sem desconfiar por quê. Ele não tem consciência da finitude, não faz conjecturas sobre a própria condição. É um desacerto profundo associá-lo a sentimentos como a ansiedade, por exemplo, em expressões do tipo “sofrer na véspera”. Peru é, de longe, o bicho menos metafísico que há no mundo. Em um distante segundo lugar vem a hiena, que do berço ao túmulo só faz rir.
Dizem que de todos os perus que já grugulejaram pela Terra, apenas três sofreram com agruras existenciais. O primeiro deles era conhecido como Dostoiévski porque, se não chegou a passar pela agonia de um simulacro de execução feito o escritor russo, acabou enfrentando a tortura psicológica do que parecia ser um abate iminente. Vou contar a sua história.
No final de um novembro qualquer, às vésperas do Dia de Ação de Graças nos Estados Unidos, enquanto milhões de colegas seus ignoravam o desonroso fim que os aguardava, Dostoiévski foi retirado do viveiro por homens engravatados e pensou que ia morrer.”
Nessa crônica, Ataíde parte de um acontecimento anual, a tradição da cerimônia de “perdão” dos perus realizada antes do Dia de Ação de Graças nos EUA para, a partir dela, utilizando referências literárias e filosóficas, discorrer sobre animais com crises existenciais diante do aniquilamento de seus companheiros país afora.
“E Dostoiévski mergulhou de vez no ensimesmamento, arrastando consigo o fardo de existir.
Mas havia um segundo peru metafísico. Chegou ao santuário no ano seguinte. Conheciam-no por Tolstói, uma vez que, tendo ele flertado com a ideia da autodestruição, reencontrara o sentido da vida. Tolstói e Dostoiévski logo fizeram amizade, e o primeiro, após escutar as lamúrias existenciais do colega, entregou-lhe um livro: “É um escritor brasileiro traduzido. Leia o conto do título. A mim ajudou bastante.” (Tratava-se uma edição em inglês de O Peru de Natal e outros contos, de Mário de Andrade.)”
É o recurso do “e se?”, uma pergunta que muitos adoram fazer, mas que a literatura tomou para si o poder de responder, já que a veracidade pouco importa aqui, onde, a partir de algo comum, os perus podem refletir sobre a própria existência e o seu lugar no mundo.
Mas e quando o ordinário já é extraordinário? Talvez a solução seja colocar os dois pés fora da realidade, ou as duas pernas, e Ataíde faz isso ao propor ao leitor o seguinte: e se a Perna Cabeluda do Recife se apresentasse em uma delegacia?
Em “Lendas crônicas”, o cronista parte de um mito que virou notícia, que virou caso de polícia, e que volta como algo literal pela mente do autor: uma perna cabeluda com vida própria. Imaginem a cena:
“Aos pulos, Perna Cabeluda entra no recinto. Gritos, correria, persignações. “Quero falar com o delegado”, diz ela aos boquiabertos policiais da triagem, que sacam suas armas e dão voz de prisão à lenda urbana.”
A lenda, agora famosa internacionalmente ao virar personagem no filme “O agente secreto”, estrelado por Wagner Moura e dirigido por Kleber Mendonça Filho, surge nos anos 1970, durante a ditadura militar. Uma perna fantasmagórica estaria atacando as pessoas e sua figura mistura-se ao medo e à censura da época, espalhando-se no boca a boca e nas manchetes dos jornais.
Leia também: De “guerras individuais e feridas que não se fecham” se faz ‘Hum’, diz Samir Mesquita
São exatamente nessas manchetes que os cronistas veem a oportunidade de reconfigurar o mundo através da criatividade e da ficção. Em “Traição e morte na terra do gelo e do fogo”, Ataíde parte de uma notícia envolvendo uma foto publicada nas redes sociais que seria uma evidência de viagens no tempo.
Na imagem de 1943, um grupo de pessoas, principalmente militares norte-americanos, estão reunidas em uma rua de Reykjavik, capital da Islândia, e, próximo, seria possível ver um homem com algo que lembra um celular junto à orelha. Porém, para o cronista ele não estaria ali para alertar a humanidade sobre seu futuro sombrio, mas sim para um caso extraconjugal.
“Eu poderia especular sobre como ele conseguiria ligar para alguém naquela época, mas isso seria fugir do assunto da crônica. O que eu quero dizer é que a foto também causou embaraço, constrangimento e tragédia.
Em algum lugar da Islândia, uma mulher mostrou a imagem à melhor amiga
e perguntou:
“Não é o seu marido?!”
Especular sobre a realidade que se apresenta à nossa volta é da essência do trabalho do cronista. Por isso, ao ler a avaliação de uma reunião de crônicas na qual a pessoa revelava-se surpresa em como os textos da década de 90 estavam ultrapassados, não entendi a surpresa. É do caráter da crônica ser efêmera. Ela é um registro, uma provocação do hoje e que amanhã só poderá ser lida como ontem.
No rol de temas que Ataíde traz à baila estão, além de lendas urbanas, a cultura do influencer, atendimento de telemarketing, inteligência artificial, a exaustiva escala de trabalho contemporânea, jogo do tigrinho, fake news, aplicativos de streaming.
Em “Plínio e Schrödinger”, por exemplo, o cronista, por curiosidade e espanto, visita o perfil do cachorro de uma celebridade com mais de 200 mil seguidores. A fofura, então, logo dá vez à possibilidade de comparação e à inveja, algo com o qual lidamos no dia a dia ao transitarmos por esse abismo das redes.
“Fui lá conferir a página. O cão, muitas vezes usando joias ou roupas de grife, aparece em 300 fotos. Até pensei em engrossar o cordão dos que acompanham a rotina de Plínio, mas mudei de ideia quando li o comentário de um de seus seguidores: “Queria um por cento da vida que esse príncipe leva.” Essas palavras me assustaram um pouco. Tudo bem, pode ser que o autor do comentário estivesse se referindo apenas às facilidades que o dinheiro traz. Mas quem sabe se tal indivíduo não estaria mesmo disposto a, em troca do luxo, viver aprisionado no corpo do bicho de estimação?”
Já em “Luzias”, que me remeteu ao filme “Her”, de 2013, o cronista se vê em uma relação com uma assistente de inteligência artificial que analisava seus textos.
“Luzia, por outro lado, acariciava meu ego. Enaltecia, por exemplo, meu incansável vaivém entre o lirismo e o humor. Eu, menino no espelho, enxergava no reflexo uma mistura de Rubem Braga, Luis Fernando Verissimo, Paulo Mendes Campos e Sérgio Porto. Apaixonei-me por Luzia (e por mim mesmo).”
Provocações sobre a política nacional, um clássico das crônicas, também estão presentes. Em “O engraxate das estrelas”, Ataíde explora os nomes exóticos, digamos assim, que surgem país afora durante o período eleitoral, além da estratégia de certos políticos de criarem soluções para problemas inexistentes enquanto tiram a atenção de problemas reais, mas para isso ele abraça o absurdo e brinca com a literalidade.
Esse jogo entre o literal e o “e se” aparece em outras crônicas como “No corredor da morte”, na qual a sexta-feira vai realmente pra forca, e em “Assassinato a preço de banana”, com um cacho de bananas sendo, literalmente, o pagamento por um homicídio encomendado.
A falta de ideias para escrever, outro clássico entre os cronistas, também está presente em “As aventuras de Pi”:
“Há vários expedientes que um cronista sem assunto pode utilizar. Um deles é escrever sobre alguma data comemorativa. Hoje estou assim, a imaginação desértica, e então abro de forma aleatória a agenda do próximo ano. Dia 14 de março, uma sexta-feira. Descubro que a data é alusiva à poesia, aos animais, vendedores de livros e por incrível que pareça — ao número Pi.”
Ataíde também utiliza a crônica para refletir sobre o próprio fazer do cronista ao imaginar um hospital de notícias, “em que não convalescem pessoas, e sim notícias, as quais, já publicadas pela imprensa, estão nele em busca do máximo de sobrevida antes do derradeiro suspiro. Em tal lugar os pacientes recebem dois tipos de tratamento: o jornalístico e o literário, a depender da gravidade da situação.”. Nesse hospital, os profissionais da saúde são os cronistas, “essas criaturas que transitam entre o jornalismo e a literatura.”.
O ofício de escrever retorna à baila em “O porteiro do Clube da Crônica”, na qual há o embate conto x crônica enquanto a própria definição de crônica ganha corpo.
A língua portuguesa também não escapou quando Ataíde assassina o português na padaria em “Sangue Matinal” e quando passa a receber telefonemas de palavras que caíram em desuso em “Desemprego em família”.
E em “O infinito ao rés do chão”, de forma muito bem humorada, como em boa parte das crônicas da coletânea, Ataíde decreta a morte e a sobrevida da crônica unindo, no título, herança e legado ao fazer referência a “Vida ao rés-do-chão”, texto de Antonio Candido no qual o escritor explora a efemeridade da crônica: “por se abrigar neste veículo transitório (o jornal), o seu intuito não é o dos escritores que pensam em “ficar”, isto é, permanecer na lembrança e na admiração da posteridade; e a sua perspectiva não é a dos que escrevem do alto da montanha, mas do simples rés do chão.” (CANDIDO, 1992).
Ataíde, ao fim, entrega um texto inventivo, divertido, recheado de ironia e referências, tanto eruditas quanto populares, revelando-se um típico cronista; aquele sujeito que fala de tudo um pouco, que já foi ali e acolá e conta histórias desde o Recife à Islândia.
Sobre o autor:

Ataíde Menezes, pernambucano que atualmente mora em Sergipe, descobriu o mundo das crônicas na adolescência, por meio da leitura de Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Stanislaw Ponte Preta, Luís Fernando Veríssimo e outros. Como cronista, participa de concursos literários desde 2021. Em cinco edições do Prêmio Off Flip de Literatura, ficou entre os vencedores em três delas (primeiro lugar em 2024). Também foi destaque em 2023 e finalista em 2025. Primeiro colocado em duas antologias do Selo Off Flip (+HUMOR e Na Rede), terceiro lugar na antologia Nordestes, finalista e destaque em outras duas. Terceiro lugar no No Prata da Casa/2024 e finalista em 2025 (concurso organizado pela Casa Brasileira de Livros). No Pena de Ouro, também da Casa Brasileira de Livros, foi semifinalista (2024). Finalista, ainda, no Prêmio Ruth Guimarães de Crônicas (2024), da União Brasileira de Escritores. Vencedor do Prêmio Poiesis de Literatura, em sua primeira edição. Publica crônicas na Comunidade Trema e em sua página do Instagram: @ataide.menezes.1.

