Neste ano de 2026, os Palhaços Sem Fronteiras Brasil completam 10 anos de existência e impacto social. Para quem acha que a palhaçaria existe somente para alegrar as crianças, o engano é certo: em contextos de vulnerabilidade e crise humanitária, o riso pode ser um ato de resistência.
Primeira iniciativa latino-americana a integrar a rede internacional Clowns Without Borders, a ONG já impactou mais de 1,4 milhão de pessoas, direta ou indiretamente, ao longo dessa década. Suas ações atravessam periferias, abrigos, escolas, territórios indígenas e regiões atingidas por desastres, onde a palhaçaria se torna ferramenta de escuta, afeto e reimaginação da vida cotidiana.
“Em situações de crise, violência ou desastre, muitas pessoas têm suas narrativas interrompidas e seus afetos silenciados. O riso e a diversão permitem acessar aquilo que ainda pulsa, aquilo que resiste. Eles ativam a imaginação, a memória e o desejo, lembrando que a vida é mais ampla do que a experiência da dor.”
Isso é o que explica Aline Moreno, palhaça, fundadora e diretora executiva dos Palhaços Sem Fronteiras Brasil. Para ela, o riso ativa memória, imaginação e desejo, lembrando que a experiência humana não se resume à dor.

Inicialmente interessada no teatro dramático, Aline encontrou na palhaçaria uma linguagem capaz de articular criação artística e transformação social.
“O riso compartilhado transforma individualmente, porque devolve presença, autoestima e escuta, e transforma coletivamente, porque cria vínculos e senso de pertencimento”, afirma.
Nos 10 anos de história, os Palhaços Sem Fronteiras acumulam incontáveis projetos em ambientes de vulnerabilidade e montagens artísticas impressionantes. Entre elas, o espetáculo Memorável – histórias notáveis, vencedor do Prêmio APCA 2024 de Melhor Palhaçaria. Inspirada em relatos e experiências vividas pelos artistas-palhaços em ações humanitárias, a peça reflete sobre o impacto da arte do riso na transformação social. Criado e dirigido por Cristiane Paoli Quito, o espetáculo estreou em 2024 e retorna agora aos palcos como parte da celebração do aniversário da ONG.
Aline, que atua nos palcos e nos bastidores, revelou em entrevista um pouco mais da história e dos impactos que marcaram essa década de atuação da Palhaços Sem Fronteiras Brasil, além dos desafios de transformar experiências atravessadas pela dor em linguagem artística e coletiva. Confira a conversa na íntegra:

1- Aline, o Palhaços Sem Fronteiras Brasil nasce em 2016 como a primeira operação latino-americana da rede internacional. Como foi seu primeiro contato com o projeto e o que te fez perceber que ele precisava existir aqui no Brasil?
Meu primeiro contato com o Palhaços Sem Fronteiras foi à distância, acompanhando o que eles faziam e me inspirando nesse trabalho. Quando tive a chance de conhecer o projeto mais de perto, decidi, junto com outros artistas do grupo Cromossomos, dar esse primeiro passo. Entre eles estava o Arthur Toyoshima, que é cofundador, meu parceiro de vida e uma pessoa fundamental para que o Palhaços Sem Fronteiras existisse no Brasil.
O nosso primeiro projeto aconteceu nos campos de refugiados saarauis, na Argélia. A partir dessa experiência, tivemos apoio primeiro dos Palhaços em Rebeldia e depois fomos apadrinhados pelo Palhaços Sem Fronteiras Espanha. Eu já tinha o sonho de trazer esse trabalho para a América Latina, mas foi depois de algumas outras experiências, em que coordenei diferentes projetos, que tive a certeza de que conseguiríamos fazer um trabalho relevante por aqui. E foi assim, com a força do coletivo e a participação de muita gente, que esse trabalho começou a existir e segue acontecendo até hoje.
2- Em 2026, o Palhaços Sem Fronteiras Brasil completa 10 anos, com mais de 1,4 milhão de pessoas impactadas direta ou indiretamente. Quando você olha para essa década, quais experiências ou encontros te atravessam com mais força? Aqueles momentos que ajudam a entender por que esse trabalho precisa continuar existindo.
Quando olho para esses quase 10 anos, o que mais me atravessa são, sem dúvida, os encontros. Crianças em abrigos, famílias forçadas a se deslocar, comunidades tentando se reorganizar depois de desastres, e também os artistas que caminharam lado a lado nessa trajetória. São encontros que ficam no corpo. Olhares que dizem mais do que palavras, silêncios compartilhados e risadas que ecoam muito além do momento em que aconteceram.
Há instantes em que, mesmo em meio ao caos, algo se abre. Um pequeno respiro. Um espaço onde o afeto, a imaginação e o jogo voltam a existir. Esses momentos nos lembram da nossa humanidade comum e da potência que existe no simples ato de estar junto. São essas experiências, tão delicadas quanto profundas, que reafirmam todos os dias por que esse trabalho precisa continuar existindo.

3- O espetáculo Memorável – histórias notáveis nasce diretamente das experiências vividas pelos artistas do projeto em ações humanitárias. Como foi transformar relatos reais e memórias desses territórios em linguagem cênica? E quais cuidados esse processo exigiu?
Transformar relatos reais e memórias de territórios em linguagem cênica foi um processo profundamente cuidadoso e delicado. Exigiu tempo, escuta profunda, responsabilidade ética e muito respeito pelos contextos e pelas pessoas com quem nos encontramos. Cristiane Paoli Quito, com sua habilidade incrível de escuta, ajudou a transformar tudo em poesia, mesmo quando as histórias eram difíceis de encarar.
Ficou nítido desde o início que não queríamos reproduzir o sofrimento nem transformar essas vivências em espetáculo. O desafio era outro: elaborar poeticamente aquilo que nos atravessou como artistas e como seres humanos.
O espetáculo nasce do que ficou no corpo, na memória e no afeto dos artistas após essas experiências. Não se trata de contar as histórias das pessoas atendidas, mas de compartilhar os impactos desses encontros, as perguntas que ficaram, as imagens que insistem em permanecer. Em todo o processo, o cuidado esteve presente em cada decisão, desde o que poderia ser levado para a cena até a forma como isso seria construído, sempre buscando uma abordagem sensível, respeitosa e comprometida com a dignidade das histórias que nos inspiraram
4- A apresentação se estrutura em música, malabares, mágicas e jogos cênicos, como essas linguagens ajudam a criar uma abordagem sensível e lúdica para histórias que, muitas vezes, nascem de contextos duros e complexos?
A música, os malabares, as mágicas e os jogos cênicos não são apenas elementos de entretenimento; eles permitem acessar emoções e memórias de forma segura, pelo corpo, pelo ritmo e pela imaginação, antes mesmo de precisar compreender racionalmente.
Essas linguagens criam leveza e metáfora, despertam empatia e fortalecem vínculos. O riso compartilhado, a surpresa diante de um malabarismo ou o convite para jogar juntos aproximam o público da experiência humana do outro, mesmo em situações muito difíceis.
No Palhaços Sem Fronteiras, aprendemos que o riso e o jogo são ferramentas de cuidado e de reconstrução afetiva. Cada gesto, cada som, cada brincadeira toca o que muitas vezes é inacessível: memória, dignidade, esperança e a capacidade de se reconectar com o próprio corpo e com o outro.

5- O espetáculo estreou em 2024 e já foi visto por mais de 3.500 pessoas. Agora, ele retorna aos palcos como parte da celebração dos 10 anos do Palhaços Sem Fronteiras Brasil. O que muda quando esse espetáculo volta em um momento tão simbólico da trajetória da organização?
Quando o espetáculo retorna aos palcos nesse momento simbólico dos 10 anos, ele não é apenas uma obra artística, mas um retrato vivo da trajetória do Palhaços Sem Fronteiras Brasil. Carrega memórias, encontros, risadas e lágrimas, toda a força dos desafios que enfrentamos e das pessoas que cruzaram nosso caminho. Cada cena, cada gesto, cada pausa reflete não apenas o que vivemos, mas também tudo o que aprendemos ao longo dessa década.
Agora ele volta mais consciente e mais potente, com o peso e a leveza de quem já esteve em tantos territórios, riu, sofreu, brincou e construiu vínculos profundos. É uma celebração da resistência, da coragem de continuar e do poder transformador do encontro e do riso. É também um convite para que todos que assistem reconheçam que, mesmo diante das dificuldades, o afeto, a imaginação e a humanidade que compartilhamos podem criar algo duradouro e renovador.
6 – O Palhaços Sem Fronteiras integra hoje uma rede internacional presente em 14 países. Na sua visão, que tipo de transformação projetos como esse ajudam a sustentar em um mundo marcado por crises, deslocamentos e desigualdades?
Projetos como o Palhaços Sem Fronteiras ajudam a sustentar transformações que, embora sutis, têm efeitos profundos e duradouros. Eles mostram que a resposta a crises, deslocamentos e desigualdades não se limita apenas à assistência material ou à reparação de danos. Também precisa cuidar das pessoas, da memória, do afeto e da dignidade. Através da arte, do riso e do encontro humano, esses projetos reativam a esperança, fortalecem vínculos e devolvem protagonismo a quem muitas vezes foi silenciado ou invisibilizado.
Eles também provocam transformações coletivas. Ao criar espaços de cuidado e de brincadeira, aproximam comunidades, geram empatia e mostram que, mesmo em situações adversas, é possível cultivar conexões, imaginação e humanidade. Transformações individuais e coletivas caminham juntas: quando alguém se permite rir, brincar ou se reconhecer no outro, aquilo reverbera, alimentando a capacidade de cuidar, resistir e imaginar novos caminhos.
No fundo, projetos como esse nos lembram que outro mundo é possível, um mundo onde a sensibilidade, o afeto e a criatividade caminham lado a lado com a justiça e a solidariedade, mostrando que mesmo nos contextos mais difíceis, a humanidade e a esperança podem florescer.
Celebrando 10 anos de atuação no país, a organização Palhaços Sem Fronteiras Brasil (PSFB) chega ao Rio de Janeiro para apresentar o espetáculo infantil Memorável – Histórias Notáveis, vencedor do Prêmio APCA 2024 de Melhor Palhaçaria. A temporada ocorre no Teatro I do Sesc Tijuca, de 10 de janeiro a 8 de fevereiro, com sessões de sexta a domingo, sempre às 16h.
Ficha Técnica
Direção: Cristiane Paoli Quito
Dramaturgia: Ana Pessoa
Criação e direção musical: Tetê Purezempla
Elenco: Aline Moreno, Arthur Toyoshima, Renato Ribeiro e Tetê Purezempla
Elenco substituto: Bel Flaksman, Mariana Rhormens e Rafael de Barros
Figurino: Claudia Schapira
Iluminação e cenário: Marisa Bentivegna
Operadora de luz: Marina Gatti
Operador de som: Danuza Formentini
Comunicação: Mariana Rodrigues
Fotografia: Ricardo Avellar e Rogener Pavinski
Intérprete de Libras: Flor Libras – Diana Diantas
Assessoria de Imprensa: Lyvia Rodrigues | Aquela Que Divulga
Ilustrações e Design: Lucas Lopes e Francisco Diaz
Produção de campo: Letícia Lisboa
Produção e Realização: Palhaços Sem Fronteiras Brasil
Serviço
Quando: de 10/01 a 08/02 de 2026
Dias e horário: sextas, sábados e domingos, às 16h
Local: Teatro I do Sesc Tijuca
Ingressos: Gratuito (PCG); R$ 10 (meia-entrada e conveniado); R$ 20 (inteira); R$ 14 (habilitado Sesc)
Endereço: Rua Barão de Mesquita, 539 – Tijuca, Rio de Janeiro – RJ
Bilheteria – horário de funcionamento:
Terça a sexta: das 7h às 19h30
Sábados: das 9h às 19h
Domingos: das 9h às 18h
Classificação: livre
Duração: 60 minutos
Lotação: 240 lugares
Gênero: infantojuvenil

