Com publicação pela editora Mondru, Fragmentos de uma ausência (128 pgs.) é um romance autoficcional do escritor, professor e editor paranaense Luigi Ricciardi. A obra, narrada em capítulos curtos com textos quase aforísticos, reúne pensamentos, sentimentos e memórias de um antigo relacionamento marcante do protagonista, do qual ele não consegue elaborar o luto.

O livro é construído em um tom de instabilidade, mesclando nostalgia, desespero, raiva e o desejo de reescrever a própria história. Além disso, ele aborda a temática da saúde mental, particularmente no que diz respeito à depressão enfrentada pelo narrador.
Fragmentos de uma ausência inicia-se com duas definições para “fragmento”, relembrando um verbete de dicionário, que diz “1. parte de um todo; fração”. / 2. pedaço de coisa que se quebrou, cortou, rasgou etc.”.
Observa-se que, apesar de serem aproximadas – afinal, ambas as definições falam de algo que foi dividido – a primeira apresenta um tom mais neutro (“parte de um todo; fração”) enquanto a segunda remete a algo negativo (“pedaço de coisa que se quebrou, cortou, rasgou etc.”).
Estas duas leituras são chaves para compreender a construção da obra. O conteúdo do livro é sobre a dor do luto de um relacionamento (definição 2.), e a forma do texto é fragmentária (o que remete à definição 1.), reunindo pequenos cacos (que são frases ou blocos de texto curtos) de sua história.
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Estes cacos, pouco a pouco, formam pequenos exercícios memorialísticos e de elaboração. São relatos de memórias infantis, dramas familiares, e, até mesmo, como se diz coloquialmente, pensamentos intrusivos – tudo isso em um mesmo capítulo, e sempre, de alguma forma, assombrado pela lembrança de Bê, a ex-companheira do narrador. Por exemplo, ele inicia o capítulo “Base” falando sobre Bê e depois conta algumas de suas experiências sexuais com outras mulheres, retornando à memória de Bê:
“Eu tinha um precedente em relação à Bê: quando fui estagiário na faculdade, namorei uma mulher casada.” (p. 13)
Para compreender como este romance funciona mesmo de forma fragmentária e não linear, é importante pontuar a relação entre trauma e linguagem. Para a crítica literária Shosana Felman, o trauma é uma experiência desestruturante em que o sujeito torna-se incapaz de se expressar acerca dela e, mais do que isso, sofre em decorrência desta inabilidade.

Assim, a experiência do protagonista de Fragmentos de uma ausência se faz evidente no conteúdo e também na forma. Os pedaços que ele escreve revelam o processo traumático que é vivenciado e, ao mesmo tempo, é uma forma de contorná-lo.
Assim, o livro direciona-se não ao esclarecimento do narrador em relação ao término com a ex-companheira, mas à reconstrução de si próprio diante da desorganização psicológica. Afinal, por mais que ele afirme que seu objetivo é reescrever a sua história com Bê, o que ele empreende, aqui, é uma tentativa de se reconhecer como agente da própria história, o que se explicita logo no prólogo do livro, intitulado “Cálculo”.
“Aos quarenta e dois anos, apaguei as últimas fotos de Bê, que ainda insistia em manter no computador, dei o quadro que fiz com os quebra-cabeças que tínhamos montado juntos e vendi no sebo um livro que ela me deu. Com o dinheiro, comprei duas cervejas, acendi um incenso e fiz uma cerimônia particular de descarrego. Comecei a escrever este livro no intuito de ficar finalmente livre da imagem dela. Conseguiria?” (p. 11)
Neste sentido, outro elemento importante no encadeamento narrativo do livro é a mescla entre realidade e ficção, em que histórias, pensamentos e reflexões que não são fiéis aos fatos reais ajudam a criar coerência na memória, além de permitirem uma expressão fabulada de sentimentos intensos. É o caso, por exemplo, de quando o protagonista traz à tona histórias de assassinos (reais ou não) como metáfora para a impotência total:
“Maratonei a série de um serial killer que só matava bandidos. Na mesma semana, sonhei que estava nu e envolto em plásticos em uma mesa. O sonho se repetiu por várias noites. Bê me fatiava como o assassino fatiava suas vítimas”
(p. 57)
Logo, Fragmentos de uma ausência é um romance que apresenta um processo literário de elaboração traumática, enfatizando o papel da memória fragmentada. O protagonista propõe um outro modo de se fazer narrativa, em que os acontecimentos não são lineares ou cronológicos, mas são ordenados conforme o processo interno do personagem. Trata-se de um experimento muito interessante e bem-sucedido, cuja fragmentação e não linearidade compõem um protagonista cheio de nuances que vão do sofrimento do luto à auto-ironia.

