Não é de agora que a discussão sobre mulheres na literatura está em debate e como o fato das mulheres escreverem incomoda muita gente. Incomoda tanto, que até inauguraram um selo em uma editora que publica apenas autores homens, dias desses [risos].
Por que os homens (ainda) se recusam a ler mais mulheres? Para responder à pergunta do título, precisamos dar alguns passos atrás e passar 5 minutos de raiva, ou uma vida inteira de desgosto.
As mulheres que sempre escreveram, mas que só puderam contar ao mundo a partir do século XVIII, ainda hoje estão em uma fila de espera interminável que começa com escritos de antes de Cristo (para nós, pobres ocidentais) e se projetam até os escritores clássicos (e batidos) dos séculos XIX e XX.

published on 20 March 2019
Exaustas, ampliamos círculos de leitura e nos debatemos pelo direito de existir, de conquistar um ‘teto todo nosso’, de escrever e ainda hoje, de ser lida. Por que os homens (ainda) se recusam a ler mais mulheres?
Apesar das mulheres terem conquistado espaço no mercado literário, a luta não se encerra nesses meandros. Precisamos ir além para garantir que nossas histórias sejam lidas, e sobretudo reconhecidas e celebradas, não somente pelos homens, mas por outras mulheres.
Segundo uma pesquisa realizada pela Women’s Prize Trust, uma organização britânica que promove a literatura feita por mulheres, há um desequilíbrio notável: no Reino Unido, em 2023, dos livros escritos pelas 20 autoras mais populares, menos de 20% das vendas foram feitas para homens. Em contrapartida, quando os livros são dos 20 autores mais populares, 44% das compras foram feitas por mulheres.
Esse desequilíbrio apresenta um tensionamento que se dá mesmo com a presença crescente das mulheres na literatura. De acordo com o economista Joel Waldfogel, da Universidade de Minnesota, nos últimos 70 anos, somente em 2020, pela primeira vez, as mulheres publicaram mais livros do que os homens nos Estados Unidos.
Aqui no Brasil, as mulheres são a maioria entre pessoas leitoras, e mesmo assim, os homens ainda dominam as listas de autores mais conhecidos, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024). Entre os 15 escritores mais conhecidos citados durante a pesquisa, apenas cinco são mulheres: Clarice Lispector, Cecília Meireles, Zibia Gasparetto, J.K. Rowling e Colleen Hoover.

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Se as mulheres estão publicando mais do que nunca, por que ainda temos esse desequilíbrio entre quem produz literatura e quem a lê? Nós, mulheres, estamos escrevendo e nosso maior desejo é sermos lidas e respeitadas.
Por que os homens (ainda) se recusam a ler mais mulheres? Eu não tenho apenas uma resposta para esta pergunta e talvez não conseguisse concluir esse texto em vida, entretanto, queremos ser lidas na mesma medida que escrevemos e que buscamos leituras diversas.
Para além de responder à pergunta, acredito que podemos encontrar novas possibilidades para reduzir o desequilíbrio entre quem escreve e quem lê mulheres, divulgando nossas autoras favoritas e estabelecendo um compromisso de ler mais mulheres, seja você homem ou mulher.

