A ator e escritor Pedro Cardoso fez uma publicação nas suas redes sociais em que promove uma reflexão interessante sobre as críticas que têm sido feitas pelas elites acusando um pretenso “populismo” do uso da expressão “nós contra eles” por parte do governo e seus apoiadores. Pedro parte de um texto da jornalista Vera Magalhães publicado no Globo que acusa o governo de dar um tiro no próprio pé ao usar a expressão para pautar seus projetos.

O objetivo do ator não é questionar Vera nem entrar num debate com o que ela diz, mas entender as estruturas de pensamento que levam à conclusão da jornalista. Segundo ele, a frase geralmente sugere uma inversão da lógica da violência, assumindo que o “nós” tem uma postura agressiva contra “eles”, quando na verdade a realidade é justamente o contrário.
E ele tem razão: se ó “nós” representa os empobrecidos e “eles” os enriquecidos, a história revela o contrário: são os grupos privilegiados que historicamente estiveram, estão e estão contra contra as maiorias vulneráveis do nosso país.
Assim, a conclusão é evidente “O correto seria dizer: ‘Eles contra nós’”.
O “nós contra eles” não é acidental
Veja bem: essa inversão discursiva não é acidental. Ela está, na verdade, na fonte dos nossos problemas. Um exemplo é a questão racial: a polícia atua com violência contra as camadas alegando que lá eles estão vulneráveis por conta da “violência” apresentada no local.
Quando, na verdade, pragmaticamente, se formos analisar em termos raciais, não são os negros que possuem histórico de violência contra os brancos, mas sim o poderosos das elites brancas que violentaram o povo negro por séculos. Ou seja, o que Pedro chama atenção é que a lógica apresentada por Vera Magalhães sugere que a violência estrutural, ou seja, o “nós contra eles” é apresentada como resposta, e não como causa, das lutas sociais.
Toda discussão política precisa antes de uma reflexão sobre a linguagem e a perspectiva adotada. É travando também a luta pela linguagem que conseguimos enfrentar questões essenciais para diminuir desigualdades estruturantes do nosso país.
Leia também: 8 filmes brasileiros que já foram indicados ao Oscar
Ao fim do texto, Pedro conclui:
A única chance do brasil é voltar a haver identidade e honestidade numa força política organizada da classe dos trabalhadores. Não havendo, a população será deixada exposta a tentação das fáceis e falsas soluções vendidas pelas empresas do tipo igreja. A cissão da nossa sociedade é real como uma dor. Ninguém virá nos resgatar do sofrimento econômico. Apenas os próprios empobrecidos poderão sair da pobreza. E só sairão se sairem juntos. Eles é que estão contra nós. Sempre estiveram. Portanto, nós estamos a favor de nós.
Leia o texto completo:

