Todo ano, a mesma coisa: as plataformas de streaming ressuscitam os mesmos títulos, os canais reprisam os clássicos, e o algoritmo insiste que Esqueceram de Mim e O Amor Não Tira Férias e as franquias de romance à Hallmark sobre uma garota da cidade que vai para 1) um país europeu distante inspirado em Mônaco ou Luxemburgo ou 2) sua cidade natal no interior dos Estados Unidos para encontrar o amor com 1) um príncipe ou 2) o dono de um pequeno negócio ameaçado por uma grande corporação e descobrir o verdadeiro sentido do Natal (muito específico, desculpem, mas não há uma alma viva com acesso a internet que não saiba exatamente do que eu estou falando) são as únicas formas legítimas de entrar no “espírito natalino”. Mas há vida para além das comédias românticas com flocos de neve digitais. Muito além.
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A lista abaixo reúne sete filmes que orbitam o Natal por ângulos menos convencionais — alguns pouco conhecidos, muitos produções europeias que não puderam competir com a grande máquina de Hollywood. Tem guerra e balé, geopolítica e patinação no gelo, e até uma nave militar substituindo o trenó. Não são filmes “alternativos” por ostentação, nem obras herméticas para impressionar o cinéfilo de estimação – pelo contrário, a vastíssima maioria são filmes infantis (e entretanto muito bons, mesmo para um adulto). São, simplesmente, bons filmes que entenderam que o Natal pode ser mais do que um pretexto para neve falsa e música do Michael Bublé.

1. Feliz Natal (2005)
Um filme de Natal que se passa no meio da Primeira Guerra Mundial talvez soe um tanto estranho – e é exatamente isso que faz de Joyeux Noël uma obra tão singular. Baseado em eventos reais, o filme recria a trégua não-oficial ocorrida na véspera de Natal de 1914 – a famosa Trégua Natalina -, quando soldados inimigos deixaram temporariamente as trincheiras para trocar presentes, enterrar seus mortos, cantar juntos, conversar e até jogar futebol. Falado em francês, alemão e inglês, o longa europeu indicado ao Oscar, que acompanha personagens em três exércitos e de alguma maneira consegue incluir uma cantora de ópera interpretada por Diane Krugger como uma de suas personagens principais, escapa de sentimentalismos fáceis e propõe uma pausa íntima dentro de uma carnificina industrial. O resultado é um Natal sem luzinhas (embora com árvores de natal improvisadas), mas cheio de humanidade – e, por isso mesmo, comovente.

2. O Homem Que Inventou o Natal (2017)
Neste caso, o título não é uma hipérbole qualquer: o filme narra o processo criativo de Charles Dickens durante a escrita de Um Conto de Natal, em 1843, e como o autor, cercado de dívidas, frustrações e fantasmas pessoais, acaba inventando, quase por acidente, boa parte do imaginário natalino moderno. Com Dan Stevens no papel de Dickens e Christopher Plummer como um Scrooge que existe dentro e fora da ficção, além da participação de Jonathan Pryce, o filme mistura biografia, fantasia e metalinguagem com leveza e inteligência. Ideal para quem já viu adaptações demais do Conto de Natal e quer entender como ele nasceu.

3. Cidade de Gelo (2020)
Produção russa lançada pela Netflix sem muito alarde, Silver Skates é uma espécie de Romeu e Julieta com patins de gelo e espírito natalino. A trama se passa em São Petersburgo no fim do século XIX, em meio à aristocracia, neve, invernos congelantes e belas paisagens. O protagonista, um entregador pobre, apaixona-se por uma inteligente jovem aristocrata da elite russa que quer ser professora, e o enredo alterna entre romance, crítica social e puro deslumbre visual. A estética quase de conto de fadas contrasta com o subtexto político, criando um filme de Natal que não apela para renas nem Papais Noéis, mas ainda assim brilha com a magia da estação e uma estética que vale o filme inteiro.

4. O Quebra-Nozes e Os Quatro-Reinos (2018)
Lançado com expectativas altas e recebido com certa frieza, O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos é uma releitura livre da história clássica – menos balé, mais fantasia. A produção se ancora em visuais exuberantes e numa estética propositalmente artificial, transformando os reinos mágicos da história em cenários grandiosos, com Helen Mirren e Keira Knightley em papéis que o conto de E.T.A. Hoffmann jamais imaginou. Embora a história seja um pouco simplista, o filme vale a pena para quem procura um Natal mais gótico e barroco, com atmosfera de sonho, visuais estilizados, figurinos belíssimos, trilha sonora de Tchaikovsky e uma Clara carismática e inteligente que não espera ser salva – além de pequenas participações especiais de grandes nomes do balé e do piano, para quem gosta do tema.
5. Operação Presente (2011)
A animação britânica parte de uma pergunta curiosamente negligenciada: como, exatamente, o Papai Noel entrega tantos presentes em uma única noite? A resposta envolve tecnologia militar, naves furtivas e uma central de logística quase à la Amazon – mas o coração do filme está em Arthur, o filho mais novo desajeitado do Bom Velhinho, que ainda acredita na magia do Natal enquanto todos ao seu redor tratam a data como uma operação mecânica. Quando uma criança é esquecida, Arthur precisa abrir mão da tecnologia industrial e correr para entregar o último presente da noite da maneira tradicional – com renas e um trenó, e um grande saco de presentes – antes do amanhecer para salvar a magia natalina. Com humor britânico certeiro e uma ternura inesperada, o filme constrói um Natal moderno e uma história sobre família, legados e expectativas sem perder a inocência do clássico.

6. Série de filmes Meu Papai É Noel (1994–2022)
Talvez o mais conhecido da lista, mas hoje um pouco esquecido. A premissa é admitidamente absurda: um homem comum (vivido por Tim Allen) mata acidentalmente o Papai Noel e, por conta de uma cláusula mágica obscura no “contrato” dos Papais Noéis, é obrigado a assumir seu lugar. O que poderia ter rendido um desastre se converteu, curiosamente, numa franquia nostálgica, que mistura crítica ao consumismo com reflexões sobre paternidade e legado. Embora o humor tenha envelhecido com variações de gosto, a série ainda surpreende pelo modo como trata o Natal como um processo de transição – não só de roupas e barbas, mas de identidade. A franquia inclui três filmes e uma série de duas temporadas.

7. O Príncipe Quebra-Nozes (1993)
Filmar um balé clássico com uma estrela infantil do cinema americano poderia ter sido uma jogada de marketing barata, mas o resultado tem mais encanto do que parece à primeira vista. Macaulay Culkin, ainda no auge pós-Esqueceram de Mim, é mais um símbolo do que um protagonista ativo, mas a produção, conduzida pelo New York City Ballet, respeita a estrutura original da coreografia de Balanchine e a música de Tchaikovsky. É um registro curioso: uma tentativa de traduzir o balé para o público de massa, sem desmontar por completo sua forma. Para quem já decorou todos os “filmes de Natal”, é uma boa chance de ver o clássico em sua versão mais literal e se apaixonar por esse belíssimo balé que praticamente fez o Natal moderno.
8. Sete Mulheres e um Mistério

Nessa comédia italiana baseada em uma peça de teatro parodiando o estilo de história de detetives de Agatha Christie, o patriarca de uma família é esfaqueado durante o Natal, e sete mulheres – incluindo esposa, sogra, filhas e amantes, ex-namoradas e até mesmo a nova empregada da casa -, presas na mansão, são obrigadas a descobrirem a autora do crime. Um filme para rir alto, com uma estética divertidíssima, atuações apropriadamente teatrais, e os acontecimentos e descobertas mais absurdos. Estrelando Ornella Vanoni e Benedetta Porcarolli.

